a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

11 de julho de 2008

a grande raiva do mundo

eu pensava que o poema era a fúria e que a fúria era a raiva, a força, até o grito. até ao grito.
imaginava-me assim. ía buscar um cigarro,
algo para beber,
nada de especial,
e depois desatava-me. arrebentava por dentro, por fora, arrebentava
com tudo.
ou pensava que arrebentava.
escrevia com fúria, com raiva,
escrevia de um lance, de um rasgo e
pensava que arrebentava.
nem sou capaz de imaginar o que as ideias faziam na geringonça que é o meu cérebro
para me levarem a supôr que arrebentava.


estou tão longe do mar.
milhares de passos depois. de pássaros. fogem na noite as aves e deixam-me assim
num solilóquio.
orfão de mar, de vida, de febre,
de luz esconsa.
abre-se-me uma claridade como se um chão que de repente se abrisse.
aves, pássaros, praia, areias sem fim.
eu não quero morrer sem ser de manhã outra vez e outra vez e outra vez, e sempre, sempre
sempre manhã de novo.
faltam-me as palavras, os verbos, as ideias.
apetece-me chorar.
apetece-me chorar longamente. lavar-me em água, lavar-me de mim.
as minhas crianças e as minhas mulheres choram.
eu não consigo.
sequei.
secante o caminho diante, em frente. não há mais nada a dizer,
perdi a capacidade de entender o que me cerca e isso é antes de mais,
a inutilização de um ser. não me servem de nada as ideias,
penso em retornar à grande magia do mundo, o amor,
o amor e essas merdas,
o choro,
o choro transido das mulheres, dos infantes,
da água-seca.
Eu bem me esforço mas não sou capaz de dobrar o poema ao meio,
como se fosse este guarnanapo onde limpo os
lábios.


estou tão longe do mar e daquilo a que um dia,
num acesso de loucura juvenil,
chamei praia.

apetecia-me rebentar. mas não arrebento, nunca arrebentei,
sou contido,
contenho-me.
o mundo desconheço-o. faço algumas habilidades mas não mais do que isso,
truques.
estou tão longe do mar, daquilo a que um dia chamei praia e faço truques com as minhas habilidades.
enquanto fico triste, cada vez mais triste, de uma tristeza sem sim.


eu vou morrer de tristeza.

1 comentário:

  1. Textos fortes aos quais não se fica indiferente.
    Abraço
    P.

    ResponderEliminar

Arquivo do blogue