a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

4 de janeiro de 2007

a tua sombra segue-te

por onde é que se começa?, perguntou. por onde é que se começa a desenrolar esta solidão sem fim?,


por um sorriso, ouviu.

ouvia vozes. ouvia vozes boas. e quando não eram boas, fazia-as depurar por um incansável exercício da bondade.
algo lhe dizia que teria de refazer tudo. uma a uma todas as suas misérias. todas as suas hesitações.

parecia-lhe bem pouco este demorado reacender da cinza se não houvesse um desejo de uma vida outra a alimentar a fagúlha.

é um lugar de esperança a nossa necessidade de futuro, pensou, enquanto dava duas voltas ao quarteirão imaginário que se interpunha entre ele e a realidade.

cada um de nós devia escolher um sonho, uma promessa e depois, velá-lo. Velá-lo para sempre.

cada um deveria ser o anjo da guarda do seu sonho, pensou e escreveu, naquela folha de papel almaço que andava sempre no bolso traseiro das suas jeans coçadas pelo tempo.

sentia-se muito bem, sentia-se seguro quando vestia as suas jeans poídas e gastas.

conseguia nelas escutar vozes antigas, outras vozes. a mãe dele ralhava sempre com o estado miserável das suas jeans.

se ela as visse agora, disse de si para si, sorrindo mais uma vez.
o sorriso abria-lhe espaço entre os maxilares, entre as bochechas, milhares de episódios vinham lá do memorial em que cada um se constitui,
havia uma ideia de leveza.
havia uma ideia de leveza completamente estafafúrdia e disparatada.
agora que todo ele era peso, massa, inércia,
desvanecia-se nele uma incrível,
primeiro imperceptível depois cada vez mais insinuante,
sensação de leveza.

as horas a passarem.
sempre as horas a passarem lhe pareceram um suplício.
as horas passam sempre devagar.
e nunca pelos trilhos certos.
perdem-se em caminhos de cabras, de poeira.
as horas parecem sempre crianças a brincar no pátio. há
sempre mais um bocadinho,
só mais um bocadinho, mãe,
assim as horas também,
nunca é tempo de acabarem o tempo e voltarem tranquilamente para casa.

respirou fundo. havia na respiração um engenho que ele nunca compreendeu, que ele sabia, nunca iria ser capaz de compreender.
estava bem assim na sua incompreensão da inspiração, do efeito que ela faz num corpo atormentado.
não queria saber.
bastava-lhe saber que era assim.
que inspirando,
absorvia essa imensa calma dos grandes lagos, dos grandes colorados deste seu pequeno mundo.
bastava-lhe saber isso, o suave balancear com que o ar rejuvenesce o corpo desavindo com o espírito que o habita.

é preciso não saber muitas coisas nem todas as coisas de uma só vez, pensou, anotou mais uma vez.

não admira que as calças de ganga estivessem cada vez mais esbroadas, frágeis.
os seus pensamentos eram como as horas.
intermináveis. antes de guardar o papel,
também ele padecendo da mesma intranquilidade,
ainda assentou,
não sigas a tua sombra. ela seguir-te-à.

3 comentários:

  1. Sem dúvida. E tantas vezes é perturbadora..
    Abraço JPN (Tinha perdido o teu rasto)

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  2. boa noite. agradeço a sua visita. não li ainda nada. quero voltar depois. vim só cumprimentá-lo. até breve. um beijinho.

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