a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

12 de novembro de 2006

Intranquilidade

As rugas morais, a flacidez do espirito, atacam primeiro do que as suas gémeas do corpo. Começamos a envelhecer muito antes de o sabermos. Não sei se é por não sabermos. Sei, começamos a envelhecer muito antes de sabermos. Há em nós uma propensão para o envelhecimento. Inventámos até uma metáfora que explica a nossa desistência ética: saber envelhecer.


Começamos a envelhecer quando deixamos de nos importar. Com quê? Continuo a não saber. Não sou sábio. Sou um tipo que escreve e que, enquanto escreve, e por isso o faz, vê revelações, evidências. Sei por isso que começamos a envelhecer quando nos deixamos de importar.

Começamos a envelhecer quando tudo pesa por igual, excepto se está dentro daquele pequeno mundo que nos afecta, pelo qual somos afectados. É com esta distensão ética que todos contam para fazerem os seus negócios, nem sempre lícitos, para prosperarem, para terem sucesso. Como estamos cada vez mais fechados sobre os nossos mundos em decrescimento acentuado, há uma grande probalidade de que nada afecte verdadeiramente ninguém, principalmente porque também adquirimos uma cultura, quer dizer, um modo, consentâneo com esta façanha tão contemporânea: somos por nós mesmos desafectados.

Gostaria que aquilo que escrevo me levasse para um lugar tranquilo. São cinco da manhã, estou cansado, quero dormir. Mas não. A escrita repovoa-me o lugar inquieto, febril, tortuoso, onde eu deixo de ser quem sou. E quanto mais escrevo mais inquieto, intranquilo, insatisfeito fico. Agora enfureço-me com o tempo. E enfureço-me de tal modo com o tempo que acabo por me zangar totalmente com os seus atetites vorazes de realismo.

-Que se foda o realismo!- grito. Ouço os estores a correrem silenciosos. Pressinto gente atrás deles, velhos. Velhos e gatos. Os gatos assomam-se amiúde à janela e têm, pelo que ouvi dizer, uma estranha propensaõ para a revolta.

2 comentários:

  1. Só para te dar um toque, que sim, sou eu, a Cristina A :p e que mudei de blog porque.

    Um abraço

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  2. Conheço essa intranquilidade...
    Tb a das letras.
    Abraço

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