a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

29 de outubro de 2006

Quando toca a campainha no pátio da escola

Estou vazio. Estou vazio por dentro e por fora. Ou então não me lembro. Esqueci-me. Há muito tempo eu exercitava a memória com disciplina. Deitava-me no chão da sala, respirava profundamente segundo aqueles exercícios que tinha aprendido na sala vermelha de ensaios do Casarão Cor de Rosa, e a pouco e pouco recordava-me. Ía longe na memória, às vezes ía tão longe que parecia ter desnascido, voltado ao tempo da água, das tempestades interiores no colo útereo de minha mãe. Antes mesmo de haver memória. Nesse tempo eu tinha uma morte comigo: a minha ansiedade.

Se eu for a contar os momentos que já vivi, a conta é terrivelmente monstruosa. São biliões de momentos. Apercebo-me isso na ruína do arquivador, do classificador, do próprio museu. E é terrivelmente -poderia ser magnificamente- porque me impede de ver alguma coisa que seja para dentro de mim mesmo. Muitos desses momentos, não menos terrivelmente, foram perdidos, engolidos, devorados por um tempo que não era meu. Eu sou uma máquina. Toda a minha vida lutei e lutarei, como qualquer de vós, pela minha individualidade, mas agora reconheço, tudo o que vivi só existe como trabalho para este reconhecimento do espírito: sou uma máquina. É um gesto humilde, o meu maior gesto humilde, a maior humildade de que sou capaz. Sou uma máquina de afectos, de ideias, de sentimentos. Tenho de viver como responsabilidade - neguemos a culpa - aquilo que não é mais do que um enorme, e monstruoso - são histórias de monstros, estas- jogo de cabra-cega de cada um, lançado no espaço, na memória, no tempo. Poderia insurgir-me desde já. Dizer, não sou máquina. Sou uma pessoa. Mas depois, se me sobrasse em inteligência o que me ocuparia de galhardia, teria de reconhecer, sou uma máquina cujo dispositivo está preparado para dizer, sou uma pessoa. Os tempos mais importantes na formação da minha personalidade ocorreram quando eu nem sequer tinha consciência do que era viver, estar vivo, a própria vida. Não que agora a tenha. Tenho de reconhecer porém: entretanto sei mais algumas coisas. As coisas que eu sei poderia desconfiar delas, dizer, tudo o que vejo, tudo o que sinto, tudo o que percebo, sou eu a ser máquina de outra forma. Poderia e posso, desconfio sem delas prescindir. Não posso prescindir do que é o meu intuir, do que é o meu perceber, sentir, só porque sei quanto são erróneos os caminhos por onde me levam. Senão passaria a ser uma carcassa andante, migratória, nem máquina, nem gente. Sou uma máquina. Sempre fui uma máquina. Quando nasci, como todos vós, fui para a escola. Aprender o quê? Aprender a ser máquina. É justo que uma mãe que entrelaça os dedos nos caracóis do filho diga que o faz por amor, mas até nisso, na forma como desenhamos os amantes, o amor, somos máquinas. Não disse maquinais. Disse, somos máquinas. Um raio de sol bateu nas minhas costas. Vem ali dos lados de S. Vicente de Fora. Uma campainha distrai-me. É uma campainha de Escola, da Escola da Voz do Operário. Ouço vozes no pátio. Por estar um pouco a descair para um resfriado lembro-me das tardes inennaráveis deitado na cama, no meu beliche, a olhar o campo da bola da Escola Primária nº 125, ou a de Nampula, como também era conhecida. Tudo isto me emociona. Não sei em que medida, mas emociona-me muito, tanto que o descrevo com pormenor, com deleite, esperando que do arrastar do texto suja uma clarividência que me guie. Penso naquilo que me trouxe a este pequeno delírio, a esta pequena convulsão: uma campainha. Como se fosse um ratito de Pavlov, a campainha levou-me para dentro da minha identidade. Sou máquina. Não é com a maior humildade que o digo, eu sei que o escrevi atrás, mas isso era propaganda. Também me propagandeio. Especialmente em momentos como este em que quase tudo é escuridão, ansiedade. Não era com a maior humildade, era com o meu melhor desejo de ser humilde. Não é a mesma coisa. Sou uma máquina preparada para me emocionar e nesse emocionar-me, está uma deriva da minha natureza maquinal. Eu poderia dizer, deixo de ser máquina quando me emociono. Alguns dos que aqui me lêem gostam que eu diga isso. É bonito, perturbante e extraordinariamente piegas a ideia de uma máquina a emocionar-se. Há aqui um erro, uma falha de comunicação. Quando eu digo que sou máquina, não estou a despersonalizar os individuos, as gentes. Parto da humanização do conceito de máquina. Sou uma máquina preparada para sentir, para falar, para dizer. Há um ganho de humanidade, não uma perda. Comecei a escrever tudo isto desesperado. Não sabia o que escrever, não sabia se seria capaz de o fazer, sentia um desejo enorme de me resolver aqui, escrevendo. Não me apeteceu transviar, ir fazer de conta, ou ir fazer nada outra vez. Apeteceu-me avançar na minha escuridão. Há um lado morcego em mim. Sou uma máquina com um terrível e soçubrante medo do escuro, das sombras que se formam saltando desse maciço espesso e negro, das vozes que lá se escutam, mas, tudo é terrível agora, mas terrivelmente, sou uma máquina que se aclara no breu. E comecei a escrever do pouco que sei quando me tento iluminar interiormente. E agora apercebo-me. A minha natureza de máquina devolve-me para o dia um pouco mais humano. Ou um pouco mais próximo daquela humanidade que, como condição, desejo, persigo. E volto até, no ponto final, a ser máquina: sou um dispositivo construído para criar happy end's.

4 comentários:

  1. Hum...
    E se fores um coração que bate maquinalmente ao ritmo do que sente?

    ResponderEliminar
  2. Somos máquinas programadas para o mesmo e todos ao mesmo.

    Daí a conflitualidade constante, os valores éticos e morais à cabeceira de cada um e o Julgamento Final a que ninguém escapa.

    Alguns são mais máquinas que outros, nem tendo e por não terem a capacidade de reconhecimento de serem máquinas... daí que até à hora da Morte tudo seja demasiado rápido, demasiado em prol de tudo o que menos interessa, e o arrependimento de nada terem feito para contrariar a tendência.

    Por isso, talvez o último pensamento seja previsivelmente maquinal igual banal "se eu tivesse mais tempo"...

    Vivamos...

    Belíssimo post.

    Boa noite.

    ResponderEliminar
  3. Deus ex machina.

    também Deus é um dispositivo para criar happy ends.
    não somos todos?

    ResponderEliminar

Arquivo do blogue