a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

15 de outubro de 2006

Corrida contra o tempo

desfaço-me de tudo mais uma vez. das ideias feitas. da viagem que é chegar aqui. dos corpos entrelaçados. das imagens. de tudo me desenvencilho. desembaraço. há um momento na nossa vida assim. em que não sabemos nada. em que a única coisa que se evidencia é a nossa presença diante deste não-saber. e então este gigantesco trabalho de procurar a verdade que nos seduzia na idade romântica e que nos levava a abraçar incondicionalmente a filosofia e a própria poesia, transforma-se. já não queremos arrecadar coisas, ideias, pensamentos. esforçamo-nos antes por atirar a carga ao mar. percebemos, talvez tarde de mais, que a sabedoria é um tremendo acto de despojamento.



não é que sejamos sábios. pelo contrário. sofremos até mais com a irresolúvel ignorância que nos disfarça a face. olhamos para a vida e vemos uma longa estrada. uma longa e interminável estrada de sentido único. duas bermas repletas de carne, do pús, da miséria e da própria comiseração tão da nossa humanidade. o nosso único momento de alguma serenidade e tranquilidade é quando nos deixamos trespassar por esta ideia de que um espírito se encontra no desprendimento.


e não só. eu por exemplo aquieto-me por pensar que nos encontraremos no destroçar poético que há em todas as coisas e nos seres. mais uma vez a poesia fará pelas nossas vidas aquilo que deus nunca se prestou a conceder-nos: sentido. e perguntar-se-à: se é uma estrada de sentido único para quê perdermo-nos tanto na busca de um sentido? a pergunta vale mais que a resposta.


não sei se alguém dos que por aqui se entretecem, já conseguiu ver a sua própria morte. o mundo é imorredouro.quando constato a certeza da minha morte, penso no quanto imorredouro é o mundo, o universo todo. Sinto o tempo. A vertigem. A veloz sensação de imortalidade que há num milésimo de segundo.

3 comentários:

  1. A profundidade das tuas reflexões enibria-me.

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  2. ...O Mundo é imorredouro. quando constato a certesa da minha morte...enquanto (o Tempo come a vida)Baudelaire.
    Um abraço. Augusto

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  3. Percebo quando te referes nesse sentido único de Vida que é a Vertigem da Morte...

    Como costumo dizer... quase se pode enlouquecer se se insistir muito na ideia de Infinito,
    de Sentido
    de Vida e de Morte.

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