a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

30 de janeiro de 2006

Caim e Abel

No primeiro dia em que eu nasci comecei a sofrer de uma dor que eu não sabia. Durante trinta anos construí essa dor sem saber que era arquitecto de mim mesmo. Um dia coloquei uma pedra. No outro dia outra. Mais uma e ainda outra. Eu tinha quatro, seis, sete anos, não sabia a consequência. O futuro era o dia seguinte.

Não sabia que o lego era a menor das construções com que eu me entretia. Era a mim mesmo que eu juntava bocado a bocado de um puzzle que só mais tarde se iluminou. Eu tinha-me construído na sombra de Abel.

Aos trinta e tantos anos descobri-o. Estava num workshoop, apontaram-me o caminho, disseram-me, este é o teu tema.

Desde essa altura que desmonto o lego, este jogo de construção com que me entretive até aqui.

Um dia vou matar o Caim que há em mim. Nesse dia - liberto do meu ódio- vou entregar-me por inteiro ao meu maior desejo. Consumir-me no nosso amor.

Vou amar-te só a ti.

2 comentários:

  1. estou nos 30... já é altura de matar o Caim em mim, não é?

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  2. é possível amar "só a ti"? tenho um medo enorme de não chegar nunca a sabê-lo... amar por aí perdidamente e nunca amar ninguém "só a ti".

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