a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

1 de dezembro de 2005

Web Café

Este é um daqueles dias tipicos em que palpito de repente. Por uma ideia. Percorro o Bairro Alto à procura de um ciber café. Apetece-me escrever. O teclado tem letras gastas. O a não se vê. O s pressente-se. E o e intui-se. Vislumbra-se também com alguma dificuldade o o, o l, o n, o m, o l e o c. Tento imaginar a razão porque se gastaram estas letras mais do que as outras. Seria um exercicio digno daquele jogo muito em voga hoje, o soduku.

Gastam-se as letras e as palavras. Há letras e palavras que uso com mais frequência. E tudo isso me interessa mas não é interessante agora. Enquanto ando pelas ruas do Bairro Alto à procura do ciber café, que eu sei como é mas não onde está, parece-me que entre a Rua da Rosa e a Rua da Atalaia, sinto mais uma vez que me falta viver o mais importante da vida. Vejo as ruas pejadas de jovens, vejo-me há vinte anos aqui, entre a Mascote da Atalaia, as Catacumbas e o Arroz Doce e percebo que a vida está feita para nos tramar. Para nos escapar. Armadilhamos a nossa vida toda e isso vem detrás. Por isso admiro cada vez mais quem faz da vida uma constante aventura. Quem consegue estar com as pessoas e inconpatibilizar-se com a merda de vida que elas têm. É preciso sermos amáveis, doces, pueris, simples, é necessário andarmos por um chão de arminho e erva doce, saborearmos a hortelã, mastigarmos alecrim, jasmim e manjerona, mas também urge dizer que há vidas, há modos de viver, há atitudes, gestos, comportamentos que denegam a nossa humanidade prometida.

Quem consegue continuar a perceber a importância da poesia para revelar a polaroid, o instante contemporãneo.

Há barulho lá fora. Escrevo melhor com esta agitação exterior. Cá dentro a paz, a calma. Apetece-me morrer numa palavra e renascer logo a seguir no alfabeto libertado. Há que escavar um silêncio profundo no seio do linguarejar. Libertar as palavras da sua reiterada, premeditada e continuada usura. Exploração. As palavras esvaídas. Palavras-Putas. Escrevo com palavras que se prostituiem.

O que eu queria era perceber para onde vai este fluir, este rio. Para onde correm estas águas. Queria sair deste ciber café e viver a minha vida a sério. Realizar sonhos. Os meus sonhos. Cheguei a uma altura da minha vida onde posso pela primeira vez ser consequente. Onde posso fazer. Eu que sempre brami contra os fazedores, eu que sempre vi neles uma inépcia, uma incapacidade para descobrirem o que deve ser feito, sinto-me pronto para fazer. Não um fazer final. Um fazer ponto de partida.

Voltar às pessoas. E não é voltar ao humano. Às utopias de adolescente e jovem. Não é regressar. É ir. Depois das ideias, a respiração. O calor dos corpos, das vidas. Os cheiros. Olhares. Um gajo ser trespassado por olhares é fabuloso porvir. Não preciso de dizer palavrões nem de arrolar indecências para se perceber o óbvio: estou a falar de tesão.

Voltar ao espaço e ao tempo como condições indissociáveis da nossa humanidade. O tempo, não o sabemos, é uma construção interna, interior, uterina. O nosso relógio ficou no útero materno, de lá só trouxemos uma batida com a qual procuramos o ômega mundial que em nós respira.

Não tenho nenhuma descrença em nada. O mundo, essa batalha multiforme segue o seu caminho. Vá por onde vai eu vou com ele.

Vadiagem pura.

3 comentários:

  1. De um fôlego só... O regresso sabe a murro com hortelã e quero ler mais.

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  2. Há uns anos atrás um argenteino propôs-se escrever uma história de amor sem utilizar a letra A. Escreveu-o: "Desilusões de um só soluço." :)

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