a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

14 de outubro de 2005

Quarto de infância

A poesia abandonará o mundo um segundo antes do estertor poético de todas as cousas.



Andei à procura de um lugar para ficar sózinho e dei conta de que era este. Aqui é o único sitio do mundo onde quero estar agora.

- Posso falar contigo?, dizes.

Fica aí, a um canto. Mando-te chamar se for preciso.

Não é.

Procuro uma escrita rude, seca, gélida, triste, agnóstica.


Tenho um bicho a corroer-me o estômago. Por dentro, come-me. Estou a ficar oco.

Bocejei agora. Todo o mundo me entedia.

Escrevo sem pensar. Sem amor. Sem nada. Se eu não conseguir uma escrita livre de uma ideia, de ti, não
voltarei a escrever.


Quero encontrar alguém que se queira evadir para o fim do mundo. Viagem ao centro da Terra. Alguém que queira lutar comigo. Quero lutar pelos imbondeiros da minha infância, escreveu um dia ela.

Tenho nomes de pessoas como se fossem títulos da minha vida.

Fodo o ar que respiro.

Não quero voltar atrás. Tudo é menos do que isto.

Apetecem-me os nomes, das gajas, dos gajos, dos lugares. Fomos todos a desorte do que nunca tentámos.

Não disse palavrões, Mãe. Eu só disse que o Manel fodeu tudo e que ele e o Carlos se juntaram para dar cabo desta merda toda.


Fala comigo, Mãe
. Tu nunca dizes que gostas de mim. Estou aqui sentado há dois dias à porta do teu quarto à espera que me digas que gostas de mim.

Tenho a cabeça cheia de dores. Trampa. Bosta de boi. A minha cabeça rebenta com o meu vazio, com
a minha vontade de chorar, mãe.

Amanhã, quando tu estiveres longe, não, não é longe no meu afecto, nunca estarás suficientemente longe assim, mas quando estiveres longe eu vou andar a saltitar de um colo para outro, eu vou andar constantemente a perguntar,

gostas de mim?

Não, não é uma ameaça, mãe. É o futuro. Ser triste é ver a vida toda para trás e para a frente,
é dar cabo disto tudo, é rebentar,

mãe, eu vejo o meu futuro, a minha dor, dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta anos à frente,
eu vejo até a minha morte, mãe.

Tu não sabes o que é a gente ver a nossa própria morte! Não podes saber. Senão chamavas-me e dizias,
gosto de ti.

Sabes o que é andar a minha vida toda, a minha vida inteira a perguntar a quem passa, a ti, a mim, a ela, eles, a toda a gente, perguntar até ao próprio vento, à chuva, à sorte,
gostam de mim?

Sabes o que é andar à deriva os dias todos que a vida tem? Todos os minutos, os segundos. Eu vou morrer, mãe,

vou matar-me neste invólucro triste em que desnasço de cada vez que choro,

Tenho uma utopia, mãe
se eu rebentar o dique, a água, a minha água, serei de novo do número dos vivos.

Posso falar, contigo?, insistes, e eu compreendo, não te quero, nunca te quis, nunca te quererei,
fica aí a um canto, mandar-te-ei chamar se for preciso. Mas só quando eu quiser. Antes não.

Há muito a lutar e fazer e criar aqui, entre nós.

Lambo a ferida. Gosto de lamber feridas como gosto de lamber as rachas das gajas. Digo rachas porque não gosto de dizer conas. Preferiria dizer lábios, mas poderiam pensar que eu estaria a falar das bocas das mulheres, e não, eu estaria a falar dos lábios interiores humedecidos pelo desejo,
por aquele colostro que acompanha o sémen à porta da criação do mundo. Os lábios da vulva. Mas também não gosto de dizer vulva. Não é uma questão de ambiguidade,
se eu dissesse que gosto de lamber os lábios das vulvas das mulheres até um débil mental saberia que eu estaria a falar das conas delas, é uma
questão estética.


É também por causa da beleza que eu nunca lamberia os lábios da vulva da Virgem Maria. E muito menos a foderia. Nem mesmo com preservativo. Não há camisa de vénus que impeça a cavalgada hipócrita da redenção do mundo.

E a beleza está presente desde o primeiro dia do mundo mesmo que fales de conas, de rachas ou de vulvas.

Nunca te esqueças disso. É por se esqueceram disso que muita gente morre viva. Há gente até que se mata. Aos soluços, quotidianamente.

A beleza estará presente até ao último dia da criação do mundo e o último dia será todo consagrado à sua destruição. Ao estertor poético de todas as cousas.

3 comentários:

  1. Por que razão os poetas são sempre tão tristes?

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  2. "His mother said, "You are NOT possessed and you are NOT almost dead These games you play are all in your head You are NOT tormented or insane, you're just a young boy(...)"

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  3. Os poetas não são sempre tristes. As palavras é que são saudosas. Afinal, somos portugueses. Mas a tristeza é um ponto de vista. E nem Todos partilham as mesmas perspectivas.

    Foder o ar que nos rodeia...Hmm.. Parece-me deliciosamente perigoso. E, ainda assim, aposto que todos compreendem..

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