a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

14 de agosto de 2005

Viagem na minha sala

Tocam os sinos da igreja de s. vicente de fora, a igreja da minha aldeia virada para o rio. Lembro-me de um hábito antigo, fechar os olhos e ir. Divagar. Sonhar. Viajar. A pergunta mil vezes repetida: o que somos nós? Por vezes pareço-me com uma máquina. Um maquinismo de um engenho sem limites. Nessas alturas, quando fecho os olhos, sinto-me a palmilhar um buraco negro. A consciência de mim é que me trama o desenlace. Sem ela eu seria tão feliz como este velho moinho de café que acompanha a minha família há mais de oito décadas. Salto, lesto, a questão. Abro os olhos com mais intensidade para o dentro que vislumbro. Vou fazer uma viagem. Começo por me sentir numa encruzilhada. De um lado tenho um caminho por coisas minhas, coisas de mim, pedaços de histórias. De outro, algumas ideias.

A ideia de liberdade é a primeira. Nunca consegui perceber porque é que nascemos com este desígnio, sermos livres. E não sei se dizer desígnio não é já responder. Prefiro dizer, condição. Ser livre não é um desígnio do homem ou da mulher, sabemos que não. Ser livre é apenas o desígnio do homem ou da mulher livres. Um homem ou uma mulher que antes não se tenham constituído na liberdade não podem dizer-se no desígnio de serem livres. Podem almejar a liberdade e fazê-lo com toda a sinceridade, mas não podem reconhecer-se no fatalismo de serem livres. É terrível mas é assim, só o homem e a mulher livres têm como desígnio a liberdade. E se é alguma coisa que depende do homem e da mulher não é desígnio, é um acontecimento. É verdade mas também o é com o desígnio: ele é um acontecimento humano, da nossa humanidade.
Eu poderia agora estar a ser livre num lugar qualquer e não estou. Estou aqui fechado nesta sala, no meu computador, no meu corpo, no meu aparato ideológico a falar sobre a liberdade, sobre o quanto ela me importa ao ponto de, nesta viagem criar um itinerário que a consiga encontrar. Nós não somos livres porque a liberdade não existe senão como figura de estilo das nossas vidas sem estilo, sem marca, sem autoria. Digam-me, onde encontrar um homem ou mulher livre, totalmente livre? É claro que temos à nossa volta gente a quem chamamos livre. São falsos livres. Só são livres porque nós nos temos a nós mesmos cativos. Invejamos-lhes a liberdade. Como eles também invejam a dos outros. A liberdade é um sentimento que nasce da inveja humana.

2 comentários:

  1. hum, um texto "filosófico" e amargo sendo que a liberdade nos deixa no corpo sinais de outros...um bom dia.abraço.

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  2. belissimo. A liberdade nasce da inveja dos outros. Sim. Nao somos livres, mas ha momentos, sabes? Ha momentos em que parece que o somos, ca dentro... de dentro para fora. Como eu me sinto agora, olhando a Ponte das Correntes, o danubio muito muito pouco azul... e os meus olhos parecem livres. Eu acho que a liberdade nasce essencialmente da solidao. De uma certa solidao desamparada. Somos livres porque (ou quando) sabemos reconhecer que estamos irremediavelmente sozinhos. Isso nao tem que ser uma fatalidade. Mas costumamos ve-lo como tal.
    Gosto muito, sempre, do que escreves. De como te escreves e, por vezes, identifico-me contigo. Outras invejo-te o modo de dizer as coisas.
    Desde Budapeste e sem acentos nem cedilhas, um beijo.

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