a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

23 de julho de 2005

Estrangeiro na sua própria casa

[tenho um hábito antigo antes de começar um texto que quero que seja meu: fecho os olhos, abro-os a uma escuridão de mim. é estranho eu sei mas não me estranho aí, nesse lugar etéreo. Ou onde sou ar.]


Nasci na barriga da minha mãe. É essa água que tenho como a minha primeira e única pátria. A minha primeira casa. Muitas vezes vou para a frente e apercebo-me, atrasei-me. Atrasei-me de propósito. Para voltar atrás, a esse quente espesso de onde vim.

Há-de haver um lugar qualquer onde eu consiga de forma audível e entendível por mim mesmo explicar-me este desencanto com o mundo, com o futuro do mundo e este terrível encantamento pela nossa humanidade. Poderia ser ao contrário e ser-me-ía mais compreensível: desentender-me com a humanidade e esperar-me do futuro do mundo. Seria de acordo com o que sempre foi a minha vida: um pensamento. Mas não: a minha cabeça desistiu de ser capaz de pensar o mundo onde vivo ao mesmo tempo que a minha vida, aquilo que entretanto vivi, tenho como vivido, se entrelaçou amorosamente com a humanidade inteira.

É um amor de que não abdico. O choro, o riso, o estremecimento são-me agora melhores que a ideia. São uma ideia superlativa.

Digo ar, vento, água, terra, fogo, luz. Risos de gente. Vozeares. A escuridão da morte dos que nos são queridos, dos que reconhecemos, dos que um dia estreitámos nos braços. Dos que um dia estreitámos nos braços como se o fizéssemos sempre, para sempre. Aborrece-me terrivelmente que se vão aqueles que amei ou aqueles para quem predispús o meu amor. Penso sempre, porque se vão, se é aqui que nos entendemos? E depois dou por mim a tentar perceber se existe deus na terra e no céu, se existe algo para além do pouco que vislumbro. Quando estou quase a tocar nos pés adoráveis da minha única única divindade há sempre algo que me distrai. Posso dizê-lo, não é por uma convicta e vincada ideia que não sou d'Ele. É por distracção.

Nasci há quarenta e três anos na barriga da minha mãe e ninguém me tira do corpo a sensação que é sempre esse o lugar para onde vou. É como se recriasse aqui fora as condições perfeitas do habitat que me gerou. Tudo era paz e harmonia, lembro-me. O que me aconteceu no casulo de onde vivi é uma memória que me está gravada no de dentro do próprio interior da minha pele. Tenho a certeza absoluta, uma certeza que não é feita de ideias, de verbo nem de nada que me seja possível explicar de que foi lá, naquele esconderijo atómico que apreendi tudo o que é essencial para a navegação no mundo contemporâneo:
o amor, a bondade, a dádiva.

Tudo o resto são circustâncias. É claro que aprendi reiteradamente e de outro modo, e até com nomes próprios de uma ciência que é nossa, todos estes gestos e actos da mãe para com a cria. O ar, o alimento, a seiva. Não há nada mais terrívelmente mágico, amoroso e generoso do que uma placenta.

Apercebo-me pelo agitar da placenta humana do enorme que é aprender. Constituir uma carne para o pensamento. Uma substância mais provável, uma ocorrência possível. Como se disséssemos diante de um fenómeno qualquer, olha como anda, como gira, como dança, como fala, logo a seguir estremecerás, falarás, dançarás rodopiando, tu. É isso que é aprender no mundo onde vivemos e nada me entristece mais do que descobrir que é por aprendermos assim que assim fazemos. Falta-nos aventura na nossa pele e não é na pele, assim nos conta a nossa placenta, é no nosso quotidiano. Ou seja, uma evidência tão simples e mil vezes reformulada: voltarmos à aventura é tornarmos ao espirito de onde viémos.

[ O meu horror actual: fecho os olhos para escrever um texto meu e todos os textos que perfilho como meus são tristes, e saiem-me palavras que não nego mas que na sua alegria, na sua promessa, não reconheço. Estou em chão de dádiva, uma ferida aberta pelo meu desejo de ti. ]

8 comentários:

  1. "Love, ain't this enough?
    you push yoursef down
    you try to take comfort in words
    but words
    they cannot love
    don't waste them like that
    cus they'll bruise you more".

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  2. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  3. De entre outras minudências de acentuação, 4 pecadilhos ortográficos de circunstância [ser-me-ía / predispús / viémos / saiem-me], ainda assim pouco lustrosos no rico e denso currículo de Joaquim Paulo Nogueira, não afectam em nada esta magnífica confissão de nostalgia uterina.

    «É essa água que tenho como a minha primeira e única pátria.»

    Só não concordo inteiramente com JPN porque para lá dessa água matricial, não consigo escapar a uma outra pátria, ulterior e permanente: a da minha língua.

    Bem sei: já Fernando Pessoa - através de Bernardo Soares - o proclamara.
    Mas é mesmo! Sinto-a.

    ___
    D.C.

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  4. D.C., obrigado pelas emendas. São sempre bem vindas, especialmente para lembrar os leitores de blogues que a escrita dos blogues está antes da literatura por mais literária que pareça. Mas um aviso: eu não sou, porque nunca o disse, Joaquim Paulo Nogueira. sou JPN. Interprete como quiser esta declaração mas respeite-a. É esse respeito que me permite estar a falar assim com alguém intitulado D.C. E não, não lhe estou a fazer cara fechada. Pelo contrário. Tenho o maior prazer em que aqui venha. Os gorilas que tenho a barrar a entrada são só para quem não compreende coisas simples como esta.

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  5. Peço-lhe desculpa, JPN.
    Acabou por traduzir-se em atrevimento soez o (ab)uso de informação que me parece decorrer naturalmente, sem nenhuma protecção de identidade que se perceba, do blogue "Andamento".
    Creia-me que não foi por mal.
    Mas fui longe demais e penitencio-me por isso.
    _________________________
    Deniz Costa
    52 anos, Bobadela - Loures

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  6. explicações feitas, Deniz. tenho a certeza que agiu com a melhor das intenções.

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  7. ** Constituir uma carne para o pensamento **

    das perguntas mais difíceis que alguém me fizera escolheria aquela: que queres de mim agora
    que a idade tomba como dia sem horas
    agora que saído do ventre
    de minha mãe
    caminho com minudências
    e pecadilhos
    com esta nostalgia em forma de verso. nada
    diria eu
    se soubesse dizer de tudo.
    ou então
    saber que caminhas por aí
    por cima dessas outras águas
    pátria de exílio
    livre de olhos e mãos
    e dessa doença infame:
    uma humana
    idade sem casa. diria
    chegarei à carne do teu pensamento
    para te aflorar com as carícias
    que as palavras são
    quando
    subitamente
    numa dia quente
    demasiado quente de verão
    uma chuvilha de água
    fresca fresca
    arrebatar da minha boca
    duas ou três letras
    daquelas mais capazes de germinarem
    e florescerem
    como a tua cor temporã. diria
    olha como cheira bem
    aqui
    agora que o verão
    se aquietou
    e de novo a terra
    parece um lugar de crescer. diria
    não
    não tenhas nunca medo
    de entrelaçar as folhas
    húmidas
    da luz aguada dos teus olhos
    com essa placenta do mundo
    e devagar
    devagarinho
    deixar que a mesma ferida
    que nos traz
    se abra
    e se estenda em cor no mundo:

    o amor é uma terra estranha
    e ainda assim
    necessária.



    ( madrugada fresca por aqui: deixo-te um beijinho com muito muito carinho, jota. pê. ene.porque de minundências e pecadilhos nos vamos fazendo uns dos outros. :))

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  8. ... mais um blog para alimentar o meu vício matinal. Não tarda e será "jpn-dependência". ehehehe... Haja saúde!

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