a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

10 de maio de 2006

Terrorismo

[depois de ver Terrorismo, dos Irmãos Presniakov, encenação de A.Branco para o grupo da Faculdade de Ciências, na edição do FATAL 2006]

Uma mulher atravessa a cena, cruzando do lado esquerdo para o lado direito. Voltará, desfazendo o percurso, ou seja, cruzando a cena do lado direito para o lado esquerdo.
Estará sempre de passagem.

Não é preciso voltarmos a falar de efemeridade, do efémero. Todos que aqui estamos sabemos a nossa condição. A mulher atravessa a cena com um esgar de dor. É pela dor que percebemos que ela não anda.
Arrasta-se.

É um quadro, uma pintura tridimensional. A vida é um frame a três dimensões e é isso que nos estraga o bom humor. Estamos lá dentro. O quadradinho da bd onde se conta, ou onde se pretende contar a nossa história, é minúsculo, atarracado, e afinal de contas, é toda a nossa vida.

Esse é o primeiro acto de terror a que estamos sujeitos.

Dentro das quatro linhas, vamo-nos constituindo com o formato de uma bomba-relógio. Primeiro o tic-tac. O batimento cardíaco. Ainda não somos nada, nem placenta, nem matéria, já somos som. Tic-tac. Está-nos no coração e por isso, levamos tempo, muito tempo, a dissociá-lo do lugar da bondade. Dizemos, o tempo é um benefício dos homens e das mulheres. Depois vem a carcassa. Não parece uma bomba. Não parecemos uma bomba. Não há nada de artesanal nisto, na nossa pele, nos nossos ossos. Somos filhos da mais alta tecnologia. No principio e no fim de tudo, tic-tac. Tic-tac-tic-tac. Não precisaríamos de homens-bomba para percebermos que construímos os dispositivos de terror à nossa imagem e semelhança.

Somos bombas-relógio. E tal como aquelas minas dos campos de guerra, quase nunca deflagramos.
É ainda a nossa condição.

Disseste-me ontem, vem comigo. Não posso escapar sozinho. Tenho medo da eternidade sem a tua pele, a tua mão, os teus olhos, a tua voz.
O sexo é excedentário.

Na casa dos dias do sempre o sexo é matéria excedentária. Depois, quando estivermos verdadeiramente sós iremos foder como cães mas até lá,
é supra-numerário.

Falas sempre da eternidade? perguntei.

E de novo o silêncio. O terror.

Seis da manhã. Não é preciso ser subúrbio. Não sei o que fizémos às nossas vidas mas já não é preciso ser subúrbio para acordarmos com este murro no estômago obrigando-nos a viver uma vida em estado permanente de desaparição.

Começa pelo pequeno almoço. Pelo duche. A água já não nos lava, é um ritual. O detonador da bomba relógio que nos contém faz tic-tac.

Tic-tac.Tic-tac.Tic-Tac.tic-Tac.Tic-tac.

Não explode, não deflagra, não rebenta. Tic-tac. Tic-Tac.

Eu gostava de ver o teu rosto, Mariana, disse-lhe Leonor. Ontem quando te comi nem tive tempo de te olhar, lembras-te? E a Leonor a dizer que sim. A acrescentar: parecias um gajo a foder. Até pensei, és o meu gajo. Se fosse sempre assim seria aterrorizador.

Dissseste, aterrorizador?, perguntou a segunda voz. Ela tinha dito, aterrorizador. A palavra saia do dicionário e começava a flutuar sobre as suas vidas. O significado flutuante é isso, disse o especialista, um significado que vive sobre as vidas das pessoas.

A partir do momento em que encontrámos a palavra, o significado, entramos num corropio. Tudo é terror, tudo nos aterroriza. O Estado pulveriza-se na estupefacção diante da sua exponenciação terrorista.

-O Terror sou eu!, grita.

Aquele casal que atravessa a cena fazendo uma oblíqua entre a esquerda alta e a direita alta não sabe ao que vem. Sentou-se no jardim, viu umas flores com cores salpicantes no verde da relva e sentou-se. Depois ela voltou-se para trás e com um esgar de horror,
aquele esgar das pessoas que se confrontaram com o terror, diz:
-Olha para o lado, meu amor!

Ele virou-se logo. Já tinha deixado de pensar na forma como o aterrorizava aquele meu amor. Da forma como temia que ele um dia rebentasse na sua incapacidade de produzir significado para a sua vida e para a da Clara, as suas duas vidas, entrelaçadas, unidas por um nó de marinheiro. Virou-se logo e sossegou, eram apenas flores:
-São apenas flores, meu amor.

Só ele é que sossegou. Ela, cada vez mais agitada, respondeu:
-São bombas. Flores-relógio. Estamos rodeados de bombas camufladas, meu Deus!

Aquele Deus com que ela amiudadas vezes terminava as frases levou-o a amaldiçoar a sua catequese inacabada. Lembrava-se de que algures, no Livro de Genesis, tinha lido alguma coisa sobre esta transformação das flores em dispositivos deflagráveis e explosivos. O que seria? pensou, enquanto vasculhava a memória à procura do local onde teria arrumado a Bíblia azul que a mãe lhe tinha oferecido no aniversário.


Há um superlativo do terror: o tempo. Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac. Se explode é porque rebenta na nossa mão abrindo-a para a matéria sanguínea que nela flui. Se não explode é porque destroçou. Porque desistiu de ser sangue. Compreende-se agora melhor porque é que o terror é a metáfora do nosso tempo. O nosso tempo.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo do blogue