a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

27 de maio de 2006

Homem nascido em Maio chega-se à frente

Escreverei ainda em Maio. Escolhi o pior momento para o fazer mas é já certo: escreverei ainda em Maio. Maio é o mês em que nasci e Maio é também o mês de que necessito para me explicar escrevente. Escrevendo. Eu sei, tenho pouco tempo, não devia escrever agora, deveria esperar pelo fim da tarde, talvez lá, olhando o espelho de água que se forma diante da minha janela, pudesse explicar porque é que Maio me pôe fora de mim.

Sou uma espiga num campo de trigo.
É assim que me vejo deste os primeiros tempos em que comecei a despertar para o prazer de rasgar os campos com papoilas e espigas. Amaria o pão se eu próprio fosse vagem que fosse triturada, moída e remoída, até formar o pão que devora a terra. A nossa terra, o nosso mundo. Há quem pense erroneamente que do trigo se faz farinha e da farinha se faz massa e da massa se faz pão e do pão se faz alimento e do alimento se nutre a nossa vida. Não poderia haver maior engodo. Basta ver que a nossa vida é um caso sério de desnutrição para percebermos o embuste que este pensamento é. Aliás, é por o recusarmos assumir como condição de partida que os silogismos onde escrevemos a verdade dos nossos dias são mancos, coxos e têm medo do mês de Maio. O que se passa é exactamente ao contrário. Não é do pão que nos alimentamos, que se nutre a nosa vida. É a nossa vida que é trincada pelo pão. Tal e qual como se fosse uma maçã. O pão devora toda a nossa vida.

Todos os nossos dias. Não há na história humana retrato mais fiel do holocausto: um homem a comer pão. Atrás dele uma mulher amassa a farinha. As crias humanas atiram bolos de farinha amassados para as goelas das crias em cativeiro.

Um homem a comer pão, eis a imagem. E em torno dele outros homens. Sem pão. O homem pega num pão, glorifica-o, o homem é a imagem violentada de um glorificador de pães, e assiste-se então a um fenómeno raro: a multiplicação dos pães. Seria assim que se teria saciado o mundo na metáfora original do principio da existência compartilhada e solidária.

Mas não é nada disso que se passa.

O que acontece, e acontece terrivelmente, numa mistura de substâncias escorregadias, viscosas, entre o nojo e o horror, o que acontece é que o que se multiplica são as imagens da violentação.

Dezenas, centenas, milhares, milhões, biliões de principios reprodutores da violência que na vida humana é a tragédia do pão. O pão multiplica as vidas dos glorificadores de pães. Os glorificadores de pães, quando multiplicados, são fanfarrões, alarves e não sabem
que existe um mês chamado Maio.

Os glorificadores do pão vivem há tanto tempo como qualquer um de nós e viveram toda uma vida saltando Abril a Junho sem se darem conta de que perdiam um mês em cada ano das suas vidas. E sem estranharem. Os honestos, dedicados, voluntariosos e abnegados servidores do pão nunca estranharam a perda. Saiu-lhes dos dias vividos o mês de Maio e foram-se embora também as espigas, as mulheres grávidas de prazer, aquela foda magnifica entre o feno, o cheiro a estrume entrelaçado com a sombra de fim de tarde.

O pão é o principio da multiplicação da perda e da violência.

1 comentário:

  1. A Tua caixa de e-mail... devolve os Parabéns... deve saber, que estão atrasados...
    Um Beijo

    ResponderEliminar

Arquivo do blogue