a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

19 de fevereiro de 2006

Aquele ar lento e escasso que nos vem da altitude

Há vinte anos eu era menos livre. Não sabia que escolhermos o que é a nossa inclinação, a nossa tendência não era apenas a procura da identidade. Também a da liberdade. Não raras vezes por receio de desagradar, ou que me rotulassem de anti-social, deixava-me ficar. Desatinava, na linguagem dos grupos antigos. Não que tivesse compromissos sociais mais sólidos do que tenho hoje. Não. Não há nenhum dia igual ao de hoje na minha vida. Em tudo. No amor, na amizade, nos lugares. Hoje já não sou dos lugares onde não quero estar. Aprendi isso. As nossas escolhas não implicam mais do que pequenos trechos de poeira e luz que nos apetece seguir. Não podemos estar em todo o lado.

Agora apetece-me estar com este pensamento, com esta ideia de que raras são as vezes em que pensamos realmente nas coisas. Ainda há pouco me pediram a opinião. Sobre uma coisa banal. Tanto fazia se era a guerra dos cartoons ou a gaja mais sexy dos écrans cinematográficos. Eu despachei ambas e vim a correr para aqui. Este lugar onde te escrevo e escrevo-te a ti, leitor imprevisto, imprevisível, é o único lugar de onde serei. Pensar não é colocarmo-nos diante de uma dialéctica qualquer - e já percebeu porque é que o mundo está outra vez cada vez mais dialéctico - e engajarmo-nos num dos lados como se a originalidade do pensamento pudesse ser a surpresa com que ocupa um oou outro lado.

Pensar é abrirmos uma fenda, uma ferida na matéria, na realidade circundante. É refazermos os dados. Há mais pensamento numa não resposta e numa reorganização dos dados do que em mil e um penso, acho, a minha opinião é a de que. Estou cansado deste mundo perguiçoso, ufano e satisfeito com as suas dialéticas disponíveis. E se chegamos a isto por uma dor, ou por um cansaço superlativo, ou por outra razão isso não interessa. Chegámos e de lá parece-nos ridículo o mundo despovoado de pensamento.

Não é apenas cansaço. É desejo de vida, de vida outra. A gente sabe isso. Sabemos pouco, por vezes é dificil saber, mas sabemos. Há pouco soube. Cruzei-me com alguém que tinha uma particularidade. Não era o olhar, nem as mãos, ou os cabelos. Aqueles óculos nos olhos cansados. Era o tempo das coisas verdadeiras. Não há como negá-lo, a vida é uma maré. Traz-nos à calmaria da praia e devolve-nos à turbulência. Ninguém está duas vezes no mesmo areal. Já muitas vezes na vida persegui a ideia de uma completude com um outro. Às vezes tudo parece perfeito. E até, perfeito de mais. Mas um dia percebemos que temos de ficar sós de novo. Não porque neguemos o outro, ou o ouro em nós. Mas porque esta inquitetude tem de encontrar um impeto que lhe faça frente, que lhe diga, segue-me. Não te preocupes nunca com os amores que já amaste e todos aqueles que amarás um dia ainda.

Se alguma vez nos doerem os olhos apenas que não nos doam porque termos desistido de procurar o tempo das coisas verdadeiras.

O tempo das coisas verdadeiras. As coisas são verdade de formas diferentes ao longo da nossa vida. As coisas verdadeiras aos vinte não são as mesmas do que aos trinta, ou aos quarenta. As coisas que quero não são nem coisas, nem desejos, nem coisas que quero. São coisas que se foram elaborando em mim ao ver formas humanas tomarem a maneira de ser das crisálidas. Se depois esvoaçaram à minha frente é outra história. Umas sim, outras não. Mas esta forma de ser pele que cai e se renova, de ser tempo a passar pelas coisas, isso fica de certeza incrustado nas coisas.

Abro e fecho os olhos várias vezes nesta noite a que chamo a minha noite. Há um indício feliz no que aqui se respira. Tem de haver. Não nascemos para sermos aqueles que se iludem com a verdade. Levo os olhos à boca enquanto retiro as filas de fotos que me sobrevém a todas as noites que passaram. Nove meses é o tempo da gestação de um criança. Pode também ser o de desfazer um equívoco.

Os equívocos são saborosos. São deliciosos muitos. Sabem a sal, sabem a mar, sabem a vento. Especiaria fina de uma vida que deixamos aos bocados. Fazer, desfazer. Refazer. Volto a colocar a fileira de imagens que me aquieta o sono. És tu nessa tua forma persistente de continuares aí. Que não nos doam os olhos de procurarmos. Que apenas nos doam quando desistimos de procurarmos os tempos das coisas mais verdadeiras.

1 comentário:

  1. pensar, estar, querer e percorrer.
    Eu vou para lá, para aquele local onde os sonhos não se esfumam, reconstroem-se.

    ResponderEliminar

Arquivo do blogue