a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

9 de julho de 2005

TIME CODE

0:57
hesito entre escrever a primeira palavra e saltar logo para a última. por vezes sento-me aqui apenas para tentar descortinar a verdade de um texto que ainda não escrevi. É talvez uma representação de verdade, neste caso da verdade do texto: coloco-me diante do êcran e pouso-me. Espero pelo texto. Nunca vem logo. Começo sempre o texto pela descrição do como é que ele não veio.
1:00
O tempo da escrita. Mudou o tempo e eu penso, no tempo da escrita. Não é um pensamento profundo sei. Nem me desculpo com o calor, a verdade é que há muito que deixei de pensar. Quando comecei a escrever nos blogues pensei que sim, que chegaria lá um dia, ao lugar sereno das ideias pensadas em fervilhão. A verdade é que não. Depois comecei a arranjar amigos, conhecidos, alguns admiradores. E eu também tinha amigos, conhecidos, blogues que admirava. Era um circuito. Posso respirar (e)ternamente lá. Mas necessito de um lugar como este.
1:04
G8 debate a tristeza mundial. Os países mais tristes do mundo concentraram-se para discutirem a situação extrema de tristeza e miséria que assola o nosso mundo.
1:17
G8 debate a tristeza mundial. Os países mais alegres do mundo concentraram-se para discutirem a situação extrema de tristeza e miséria que assola o nosso mundo.
1:18
Um barco passa diante da minha janela. Assesto os binóculos procurando alguém. Desde que me tornei guarda costeiro há algo que me intriga: os barcos saiem do porto, entram na barra e no convès, nos vários andares há luzes interiores mas ninguém vem à janela. Porque é que ninguém se assoma para um último aceno à cidade branca? Ainda viajarão estes marinheiros?
1:20
Telefonei-lhe para saber se poderia sonhar com Paris. Carta branca. Paris é a minha primeira primeira cidade do mundo. A segunda primeira cidade é Madrid. A terceira Nova Yorque. Mas Paris foi anterior a tudo isso. Somerset Maughan, Hemingway, até Victor Hugo, foram os meus cicerones pela cidade Luz. A primeira vez que lá fui logo que coloquei os pés na cidade corri ao Quartier Latin. Estava na Gare du Nord, por isso andei longamente a pé. Lembro-me de ter descido o Boulevard Magenta. De ter passado pelo Pompidou. Passei pelo Théâtre de la Ville. Na altura estava lá um cartaz de Caetano Veloso. Lembro-me. Atravessei o Sena e embrenhei-me no Quartier Latin, nas livrarias de Teatro ao pé do Odéon.
1:27
Há uma questão que me intriga: onde e como realmente envelhecemos? Onde é o tempo que nos acontece transformar-se em grão de poeira?
1:30.
Não tenho para onde ir. Lá ao fundo as luzes da cidade parecem um lugar sedutor. Nada se compara no entanto ao brilho original.
1:31
Gostava de ser quem era.
3:03
O problema, e não é problema, é uma circunstância, é que quando ela pensava nele o mundo, o seu mundo, deixava de ter intervalos. Aliás, para ser mais exacto, até porque embora a sua voz fraquejasse ele fez questão de se levantar e dizer firmemente, o mundo é um continuum permanente em torno da ideia que de nós construímos na areia molhada.
3:08
A rua Mouffetard (escrito de ouvido)é uma rua muito bonita. Da segunda vez que lá fui fiquei perto do Praça de Itália. Todas as noites enquanto os meus companheiros de viagem íam dormir, eu atravessava a Rua e ía apaixonar-me pelos olhos de um francesa que enquanto cantava punha um xaile em torno dos ombros imitando...Amália. Cantava também Piaf. Perdia-me todas as noites nesta rua. Clubes de Jazz.
3.14
Junto do Pompidou há um lago com estatuetas e objectos vários, e ao lado, um restaurante. Não é dos mais caros. Simples, simpático. Sentava-me para comer e não comia. Imaginava aquelas pessoas a viverem todos os dias das suas vidas em Paris. O imaginário das cidades reflecte-se assim.
3:16 Hás-de me explicar porque é que de repente comecei a falar de Paris. A única coisa que não gostei foi dos cabeças rapadas do Le Pen junto do Moulin Rouge.

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