Há na cobardia uma coragem. No gesto desistente, uma persistência ainda assim no gesto, mesmo que desistente. Ele ficou quando partiu e foi-se, naquele momento em que decidiu ficar. Tudo isto é, tanto na solidão como na companhia.
a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.
12 de maio de 2007
Maio
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31 de janeiro de 2006
Clarividência
Acordei com os olhos fechados. Cerrei-os ainda mais. Fazia força nas pálpebras, impedindo a luz de entrar. Impedindo o meu amor de entrar. Julgando que conseguia assim construir um dique à luz. A tudo. As palavras dissidentes avançavam na sua crueza. Na sua nudez. Só depois de ter assegurado as trevas abri os olhos.
E nesse momento percebi tudo. Percebi-te a ti, ao meu lado, até ao fim do horizonte vísivel.
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12 de julho de 2005
Paragem de Eléctrico
Falaste-me de um amor. Falaste-me de um amor como só existe nos sonhos que fazemos dele. E eu senti-me pequenino. Toda a minha vida tem sido isso, não conseguir amar.
ººººººººººººº
Tenho medo. Medo-Medo. Agora compreendes que onde pareço que sou doce, meigo, terno, respeito, não passo de um homem assustado.
ººººººººººººº
Ontem detive-me particularmente numa foto com 23 anos. Era eu na minha solidão desacompanhada, na minha alegria, no meu nervo agitado. Sentado na amurada da fortaleza de Sagres, tinha um riso como só conheço aos homens bonitos.
ººººººººººººº
Estou sentado na paragem de eléctrico onde te encontrei. Faço de tudo isto uma viagem.
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