<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870</id><updated>2011-07-31T11:09:47.024+01:00</updated><category term='pensar'/><category term='vida'/><category term='todos os posts sobre o amor são ridiculos'/><category term='O Rio que corre na minha aldeia'/><category term='auto-retratos'/><category term='Enquanto o poema não me acontece'/><category term='deus de repente'/><category term='Pensar quando parece que chove mais'/><category term='a sociedade do espectáculo'/><category term='dor online'/><category term='O que é que é um post político?'/><title type='text'>Reservado O Direito de Admissão</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>72</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-5060492936420477357</id><published>2010-02-23T15:31:00.008Z</published><updated>2010-02-23T17:56:10.513Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>Reservar o direito do lugar</title><content type='html'>este é um dos poucos lugares expressivos do meu mundo em que eu venho sem ter nada para dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a que acorro só pelo privilégio dessa ilusão quase juvenil de poder estar um pouco comigo.&lt;br /&gt;e com as coisas que perdi: a solidão. o recolhimento. o espaço de dentro, o de fora.&lt;br /&gt;o confronto comigo mesmo, as ideias de aperfeiçoamento&lt;br /&gt;e de história.&lt;br /&gt;a história como um movimento de um tempo para o outro.&lt;br /&gt;não me ocorre nenhum tipo de nostalgia pelo tempo que passou. nem anseio pelo que virá. não consigo no entanto dissociar-me daquela sensação de bem estar que me dá o trabalho de lembrar. de tecer circunstâncias. características.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o facto de aqui vir tão poucas vezes, diz tudo sobre mim, sobre a minha vida, sobre o meu momento,&lt;br /&gt;sobre a auto-satisfação com que me entrego às coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;este é, verdadeiramente, um lugar. um sitio de paredes negras. como se fosse uma caixa preta. um teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apercebo-me: tenho, cada vez mais, uma estranha forma de falar. venho aqui, em silêncio, e em silêncio me vou, passado uma hora, às vezes duas, com a folha ainda em negro, um negro tão expressivo, como se tivesse ficado vazio de tanto dizer.&lt;br /&gt;não vou totalmente satisfeito com o que expressei. Mas também a verdade é que a&lt;br /&gt;expressão nunca me deu felicidade.&lt;br /&gt;talvez alívio.&lt;br /&gt;felicidade não. eu dizia e falava e na minha louquacidade sabia que tinha de voltar no dia seguinte, e no dia depois do dia seguinte,&lt;br /&gt;e mais uma vez,&lt;br /&gt;até que este mal estar se dissipasse.&lt;br /&gt;e de cada vez que escrevia, que dizia, e poderia falar do que quer que fosse,&lt;br /&gt;o mal estar crescia mais, mais, cada vez mais,&lt;br /&gt;e tudo isto como se fosse um circulo vicioso interminável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não me lembro de quando comecei a falar para dentro.&lt;br /&gt;a sorrir diante das palavras que se dissipavam no ar como se fossem&lt;br /&gt;aquelas argolas de fumo que eu fazia quando aprendi a fumar.&lt;br /&gt;era como se eu olhasse a linha de horizonte e visse uma dança de letras,&lt;br /&gt;de palavras,&lt;br /&gt;que decerto tinham fugido de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e eu cada vez mais contente comigo.&lt;br /&gt;eu dantes pensava que só os imbecis eram contentes consigo mesmos.&lt;br /&gt;hoje já não sei.&lt;br /&gt;escrever o que não escrevo faz-me feliz.&lt;br /&gt;um pouco menos solidário, eu sei.&lt;br /&gt;poderia dizer que há na minha não-escrita uma solidariedade&lt;br /&gt;com aqueles que sofrem com a poluição das palavras&lt;br /&gt;em catadupla,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas não seria verdadeiro nem com as palavras que não digo,&lt;br /&gt;nem justo com a ferida que o &lt;em&gt;não-dizer&lt;/em&gt; faz em mim. E&lt;br /&gt;isso obrigar-me-ía a fugir do silêncio e a refugiar-me na explicação&lt;br /&gt;da minha original não imbecilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a verdade é que me tornei um imbecil.&lt;br /&gt;deixei de me angustiar com a possibilidade de haver qualquer coisa que&lt;br /&gt;eu não compreendo no meio disto tudo. é uma ironia da vida: hoje o que&lt;br /&gt;verdadeiramente me apoquenta,&lt;br /&gt;ao ponto de uma noite tranquila poder de repente transformar-se numa&lt;br /&gt;violenta tempestade,&lt;br /&gt;é a &lt;em&gt;heuristíca&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;a descoberta inadvertida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As minhas noites mais tranquilas são aquelas onde&lt;br /&gt;adormeço com o enigma do universo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-5060492936420477357?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/5060492936420477357/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=5060492936420477357' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/5060492936420477357'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/5060492936420477357'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2010/02/reservar-o-direito-do-lugar.html' title='Reservar o direito do lugar'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-2339576343903853996</id><published>2009-08-01T16:19:00.001+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.121Z</updated><title type='text'>Exercícios de estilo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Há vezes em que me apetecia ser o Pacheco. Despachá-los com uma pachecada, isso é que era. Quando os gajos começam a lamber-se todos uns aos outros com tiradas de naftalina, ou vaselina, que é para o galanteio escorregar melhor pela goela, vossa excelência é o maior brochista da praça, diz um, elogiando o amigo, o outro, curvando a espinal medula, antes de ir defender o sacrossanto direito dos trabalhadores, sim, porque esta canalha que se mete a fazer broches na via pública com salamaleques de estalo são todos uns defensores da classe operária, gostava de ser como o Pacheco, tê-los deste tamanho e mandá-los levar no cu. Deve ser uma fantasia erótico-literária, esta. Tenho esta ideia de que se tirar a prótese e por entre as falhas dentárias começar a praguejar, cuspindo gafanhotos e vernáculo que dói, recupero a minha infância. E o que eu dava para recuperar a minha infância. Há vezes em que ela me vem, em fascículos, em peças separadas para montar. Há três dias que ando a sonhar com o Rio Cego. O Rio Cego não era um rio, era um pedaço de água órfã que descia desde uma espécie de montado - uma espécie, que em Mafra não havia montados, mas a minha mãe era alentejana e por isso aquele morro montado ficou - e vinha encalhar numa ribeira que as mais das vezes, antes do verão, secava. Quando eu vinha da escola era um entre muitos dos putos que desciam pela vereda do Rio Cego, que saltavam as pedras e que poupavam assim dois quilómetros do caminho que seria preciso fazer se fôssemos pela estrada da Paz, da Mougueta, até à A da Pera. E já nem sei porque é que me fui me lembrar do Pacheco e o misturei com a minha infância, com este desejo de a resgatar. Lembrei-me, já está, agora também não vou ficar a remoer o assunto. O que eu sei é que por vezes me dá uma fúria muito grande e só me apetece começar a dizer palavrões, a chamar todo o mundo e ninguém de ladrões, de vigaristas, estamos em 2009, ninguém tem culpa que eu tenha quarenta e sete anos e que tenha começado a formar a minha consciência política com o Kennedy, com Paulo VI e com Raoul Folloreau, isto para não falar do se bem me lembro do Vitorino Nemésio, das danças e cantares do Pedro Homem de Melo e das conversas em família do Caetano, e que nessa altura expressões como sonho, utopia, mundo melhor, justiça, excitarem-me mais do que, por entre o buraco da fechadura do quarto da Domingas, a serviçal lá de casa, espreitar as suas grandes mamas brancas descaídas que tanto me aterrorizaram a infância, uma mulher é isto, caramba!, já não me bastava os relatos terríficos do Manecas que nos desvendava os segredos do grande livro do kamasutra, eu achava que nunca iria conseguir fazer aquelas piruetas com uma mulher, também pudera, uma mulher para mim era a Domingas, ensinou-me quase tudo, a ser doce, a gostar de ficar, a saber apreciar um fim de tarde com os meus irmãos, mas nesse aspecto não, eu nunca lhe disse nada, não lhe podia dizer que a espiava enquanto ela se mudava para vestir a camisa de dormir e deitar-se na cama, foi a minha dor, cresci com um medo terrível de ser homem, de fazer dezoito anos, tinha medo de ir para a guerra em África, eu bem os via a prestarem juramento na praça maior em Mafra, soldadinhos de chumbo, uns voltam outros não, eu não queria fazer dezoito anos, tinha medo, um medo de morte, um medo de morrer, eu não queria ser um homem, tinha medo, um pânico, via as grandes mamas descaídas da Domingas e fechava os olhos, a minha mãe apanhou-me muitas vezes a soluçar, o que é quim paulo, não quero ser homem, mãe, tens muito tempo, filho, tens muito tempo para aprenderes a ser homem, e eu chorava, chorava mais, acho que passei metade da minha infância a chorar, agora quando digo que quero resgatar a minha infância esqueço-me disso, do tempo em que passava a chorar, provavelmente eu apenas gostaria de poder voltar à minha infância para desviver todo o tempo que passei a lacrimejar, não sei porquê, agora deu-me também vontade de chorar, não por alguma tristeza qualquer, deu-me para aqui, lembrei-me de que a vida é um jogo fodido, estou rodeado por gente de merda, vidas de merda, talvezes, fregueses e outros contumazes, era aqui que o Pacheco me safava, eu com uma pachecada punha esta gente toda a pedir à porta da Mitra, um jogo fodido, um tipo diz isto e aparece logo a vozinha estúpida da menina joana do nosso pátio infantil, &lt;em&gt;quem diz é quem o é !&lt;/em&gt;, é verdade, quem diz é quem o é, a minha vida sim é uma vida de merda, este verão é um verão de merda, vem aí umas eleições e eu vou ter de votar em gajos de merda, e se não votar na merda daqueles gajos vou ter de andar a lamber as latrinas que uns filhos da puta ainda piores do que os gajos de merda que eu não quero eleger montarão para fazerem delas, das latrinas nutridas pelo chiqueiro das suas merdas, merdinhas e merdolas, o governo da nação, estou farto dos filhos da puta, dos cabrões de merda, dos gajos de merda, hierarquia do horror, do horripilante, o Pacheco é que me tirava deste dessassossego num instante, o gajo tirava os dentes e punha-se em frente ao espelho a dar estalinhos com o cu, peidos, dizia ele, isto sou eu a imaginar, nunca vi o Pacheco, quer dizer vi-o, por um instante, há uns anos, tinha ido ter com o Zé Carretas que estava a ensaiar a Comunidade com o Cândido Ferreira na Cornucópia, o gajo pagava-se com penaltys e pastelinhos de bacalhau, ou uma merda assim, mas nessa altura o Pacheco ainda não era o Pacheco, quer dizer, ele já o era, eu é que ainda não era este merdúnfias que sou hoje, sabia eu lá quem era o Pacheco, o que era uma Pachecada, não sabia nada, tal e qual como hoje, só que agora com menos estilete, estilo, exercícios de. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-2339576343903853996?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/2339576343903853996/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=2339576343903853996' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/2339576343903853996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/2339576343903853996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2009/08/exercicios-de-estilo.html' title='Exercícios de estilo'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-5078065962124270606</id><published>2009-01-07T04:28:00.002Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.122Z</updated><title type='text'>É tarde, muito tarde na minha noite</title><content type='html'>Levanto-me para a minha noite,&lt;br /&gt;o meu estado de vígilia.&lt;br /&gt;A minha inquietude.&lt;br /&gt;Na escuridão da sala a luminosidade&lt;br /&gt;da pantalha do computador&lt;br /&gt;parece aqueles néons das&lt;br /&gt;noites duvidosas da nossa adolescência tardia,&lt;br /&gt;ali ao cais do sodré,&lt;br /&gt;entre marinheiros, putas e&lt;br /&gt;la noveau vague,&lt;br /&gt;os anos oitenta,&lt;br /&gt;o jamaica,&lt;br /&gt;o tokio,&lt;br /&gt;o shangri-la.&lt;br /&gt;A minha inquietude agora é outra e&lt;br /&gt;tão diferente&lt;br /&gt;que se antes soubesse a que agora me chegaria&lt;br /&gt;teria recusado as&lt;br /&gt;históricas manhãs em que o bafo etílico se dissipava&lt;br /&gt;naquele choque,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;que mundo é este lá fora?,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e porque é que esse mundo lá fora entrou todo dentro da minha cabeça de marfim&lt;/em&gt;?,&lt;br /&gt;essa overdose de sons,&lt;br /&gt;gigantes moleculares de matéria dissonante,&lt;br /&gt;as manhãs,&lt;br /&gt;o passar entre as vendedoras de rosmaninho, de salsa e hortelã no mercado da ribeira.&lt;br /&gt;A minha inquietude agora é a minha morte cívica.&lt;br /&gt;Eu sei,&lt;br /&gt;eu encho o peito de &lt;em&gt;heroicidade&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;mera necessidade de sobrevivência,&lt;br /&gt;daqui a nada quando for lavar os dentes&lt;br /&gt;antes de dormir,&lt;br /&gt;preciso de reconhecer no tipo que está à frente um elo&lt;br /&gt;comigo mesmo,&lt;br /&gt;mas depois, quando me vou deitar,&lt;br /&gt;no espaço exíguo entre o corredor da sala e&lt;br /&gt;a cama,&lt;br /&gt;o leito,&lt;br /&gt;perco a basófia,&lt;br /&gt;e é por isso que me levanto para esta noite de vígila,&lt;br /&gt;onde o que me sustém na escuridão é esta ideia de&lt;br /&gt;que morri civicamente.&lt;br /&gt;Não vale a pena tentar fazer literatura com isso.&lt;br /&gt;Morri e são também mortos os que me leêm.&lt;br /&gt;Escrevo para mortos, eu&lt;br /&gt;que não vivo&lt;br /&gt;mais do que o sussurro deste desabafo.&lt;br /&gt;Talvez, que digo?, é bem provável, que a minha morte cívica,&lt;br /&gt;seja a literatura rasca em que me envolvo,&lt;br /&gt;devemos continuar ainda a fazer de mortos por mais algum tempo,&lt;br /&gt;outros virão,&lt;br /&gt;os nossos filhos,&lt;br /&gt;e tal como nós fizémos,&lt;br /&gt;ou pensámos que o fizémos,&lt;br /&gt;com a não vida dos nossos pais,&lt;br /&gt;farão de  vivos,&lt;br /&gt;entregar-se-ão à ilusão da vida&lt;br /&gt;com a mesma autenticidade,&lt;br /&gt;com a mesma generosidade,&lt;br /&gt;com que nós nos entregámos,&lt;br /&gt;saberão resolver de outra forma,&lt;br /&gt;com juventude,&lt;br /&gt;que é sempre uma forma da poesia resolver o mundo,&lt;br /&gt;a dor,&lt;br /&gt;o encarceramento,&lt;br /&gt;a falta de provisão de humanidade no mundo em que viverão.&lt;br /&gt;Eu hoje não consigo desligar-me dos rostos daquelas crianças e mulheres&lt;br /&gt;que morreram na faixa de Gaza,&lt;br /&gt;eu sei,&lt;br /&gt;os militantes do Hamas ocultam-se entre a população civil,&lt;br /&gt;o medo torna os mais valentes acossados,&lt;br /&gt;os israelitas também têm de viver ali,&lt;br /&gt;eu sei tudo isso,&lt;br /&gt;só não sei,&lt;br /&gt;e tenho tantas saudades da minha televisão a preto e branco&lt;br /&gt;onde vi na minha infância a morte dos vietcongs,&lt;br /&gt;é horrivel a cores aquele sangue vermelho,&lt;br /&gt;tão parecido com o meu quando me corto,&lt;br /&gt;quando me aleijo,&lt;br /&gt;quando me dói.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-5078065962124270606?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/5078065962124270606/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=5078065962124270606' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/5078065962124270606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/5078065962124270606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2009/01/levanto-me-para-minha-noite-o-meu.html' title='É tarde, muito tarde na minha noite'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-4563203081578954163</id><published>2008-12-30T18:34:00.003Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.122Z</updated><title type='text'>Amei aquele novo dia</title><content type='html'>Demoro muito tempo a morrer.&lt;br /&gt;A minha inércia devagar.&lt;br /&gt;As mãos.&lt;br /&gt;As minhas mãos devagar demoram muito tempo&lt;br /&gt;nesta inércia.&lt;br /&gt;Morre-se devagar. Primeiro as mãos.&lt;br /&gt;As mãos para a frente.&lt;br /&gt;As mãos para a frente, o grito atrás, diante.&lt;br /&gt;A minha indiferença é a minha morte e&lt;br /&gt;não é outra coisa&lt;br /&gt;senão o modo como vivo.&lt;br /&gt;Mais um ataque em Gaza.&lt;br /&gt;No Afeganistão.&lt;br /&gt;Naquele jovem americano que se suicidou com um tiro de pistola russa&lt;br /&gt;que herdara de seu pai&lt;br /&gt;e que só ontem foi chorado em Portugal,&lt;br /&gt;numa pequena sala de Lisboa,&lt;br /&gt;na parte velha.&lt;br /&gt;Eu estava lá, entre o grito, o choro. Não estava em Gaza.&lt;br /&gt;Nem no Afeganistão.&lt;br /&gt;Nem em lado nenhum.&lt;br /&gt;Demoro muito tempo a aperceber-me que não é bem vida,&lt;br /&gt;esta morte.&lt;br /&gt;Ponho as mãos para diante.&lt;br /&gt;Como se fosse um jogo de trava-trava.&lt;br /&gt;As minhas mãos enxutas levantadas ao céu.&lt;br /&gt;Amei aquele nascer do dia.&lt;br /&gt;Lembro-me da boca aberta.&lt;br /&gt;Não era espanto. Não era admiração.&lt;br /&gt;Era fome.&lt;br /&gt;O primeiro broche da minha vida morta,&lt;br /&gt;da minha morte viva. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Amei aquele nascer do dia, aquele novo dia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-4563203081578954163?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/4563203081578954163/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=4563203081578954163' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4563203081578954163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4563203081578954163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/12/amei-aquele-novo-dia.html' title='Amei aquele novo dia'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-6898268464237613534</id><published>2008-09-26T03:41:00.004+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.123Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>a noite entra por aqui a dentro</title><content type='html'>a noite entra por aqui a dentro,&lt;br /&gt;o som dos violinos,&lt;br /&gt;a voz tenora&lt;br /&gt;sei da música o lugar&lt;br /&gt;onde a linguagem se esquece de figurar.&lt;br /&gt;as imagens rebentam com as outras imagens.&lt;br /&gt;não é aqui que compreenderei o meu tempo,&lt;br /&gt;aqui apenas o lugar onde o reinventarei.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;renata tabaldi,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;é o som que ela coloca na caixa de cds,&lt;br /&gt;os meus ouvidos brutos, rudes e&lt;br /&gt;ásperos,&lt;br /&gt;dançam com estes minuetes vocais.&lt;br /&gt;ela ainda não desistiu,&lt;br /&gt;diz-me,&lt;br /&gt;nunca desistirei, de cultivar os meus tímpanos&lt;br /&gt;desacreditados da apoteose musical em que um mundo,&lt;br /&gt;um qualquer.&lt;br /&gt;se pode tornar.&lt;br /&gt;dois mil e oito. um número apenas. estou numa terra estranha,&lt;br /&gt;não estamos todos?,&lt;br /&gt;volta e meia a política bate-me à porta,&lt;br /&gt;não com a mesma subtileza de &lt;em&gt;renata tabaldi&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;gostava de participar,&lt;br /&gt;de não ficar de fora,&lt;br /&gt;já não pela razão antiga que&lt;br /&gt;quando era criança me tornava triste&lt;br /&gt;quando me sentia preterido,&lt;br /&gt;aprendi a construir o meu mundo nos arrabaldes dos mundos&lt;br /&gt;que me excluiam,&lt;br /&gt;por uma razão muito menos inconformista,&lt;br /&gt;mais egoísta.&lt;br /&gt;é que não suporto mais a chata da minha razão,&lt;br /&gt;os seus sermões,&lt;br /&gt;lições e raspanetes, tratando-me sempre&lt;br /&gt;como se eu fosse um menino de coro.&lt;br /&gt;ouço as vozes uma a uma e de todas&lt;br /&gt;elejo a noite de &lt;em&gt;renata tabaldi&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;que cava fossos imensos com os&lt;br /&gt;decassílabos que se escondem no silêncio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-6898268464237613534?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/6898268464237613534/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=6898268464237613534' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/6898268464237613534'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/6898268464237613534'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/09/noite-entra-por-aqui-dentro.html' title='a noite entra por aqui a dentro'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-60577512162475117</id><published>2008-07-11T22:11:00.007+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.123Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>a grande raiva do mundo</title><content type='html'>eu pensava que o poema era a fúria e que a fúria era a raiva, a força, até o grito. até ao grito.&lt;br /&gt;imaginava-me assim. ía buscar um cigarro,&lt;br /&gt;algo para beber,&lt;br /&gt;nada de especial,&lt;br /&gt;e depois desatava-me. arrebentava por dentro, por fora, arrebentava&lt;br /&gt;com tudo.&lt;br /&gt;ou pensava que arrebentava.&lt;br /&gt;escrevia com fúria, com raiva,&lt;br /&gt;escrevia de um lance, de um rasgo e&lt;br /&gt;pensava que arrebentava.&lt;br /&gt;nem sou capaz de imaginar o que as ideias faziam na geringonça que é o meu cérebro&lt;br /&gt;para me levarem a supôr que arrebentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estou tão longe do mar.&lt;br /&gt;milhares de passos depois. de pássaros. fogem na noite as aves e deixam-me assim&lt;br /&gt;num solilóquio.&lt;br /&gt;orfão de mar, de vida, de febre,&lt;br /&gt;de luz esconsa.&lt;br /&gt;abre-se-me uma claridade como se um chão que de repente se abrisse.&lt;br /&gt;aves, pássaros, praia, areias sem fim.&lt;br /&gt;eu não quero morrer sem ser de manhã outra vez e outra vez e outra vez, e sempre, sempre&lt;br /&gt;sempre manhã de novo.&lt;br /&gt;faltam-me as palavras, os verbos, as ideias.&lt;br /&gt;apetece-me chorar.&lt;br /&gt;apetece-me chorar longamente. lavar-me em água, lavar-me de mim.&lt;br /&gt;as minhas crianças e as minhas mulheres choram.&lt;br /&gt;eu não consigo.&lt;br /&gt;sequei.&lt;br /&gt;secante o caminho diante, em frente. não há mais nada a dizer,&lt;br /&gt;perdi a capacidade de entender o que me cerca e isso é antes de mais,&lt;br /&gt;a inutilização de um ser. não me servem de nada as ideias,&lt;br /&gt;penso em retornar à grande magia do mundo, o amor,&lt;br /&gt;o amor e essas merdas,&lt;br /&gt;o choro,&lt;br /&gt;o choro transido das mulheres, dos infantes,&lt;br /&gt;da água-seca.&lt;br /&gt;Eu bem me esforço mas não sou capaz de dobrar o poema ao meio,&lt;br /&gt;como se fosse este guarnanapo onde limpo os&lt;br /&gt;lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estou tão longe do mar e daquilo a que um dia,&lt;br /&gt;num acesso de loucura juvenil,&lt;br /&gt;chamei praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apetecia-me rebentar. mas não arrebento, nunca arrebentei,&lt;br /&gt;sou contido,&lt;br /&gt;contenho-me.&lt;br /&gt;o mundo desconheço-o. faço algumas habilidades mas não mais do que isso,&lt;br /&gt;truques.&lt;br /&gt;estou tão longe do mar, daquilo a que um dia chamei praia e faço truques com as minhas habilidades.&lt;br /&gt;enquanto fico triste, cada vez mais triste, de uma tristeza sem sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu vou morrer de tristeza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-60577512162475117?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/60577512162475117/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=60577512162475117' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/60577512162475117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/60577512162475117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/07/grande-raiva-do-mundo.html' title='a grande raiva do mundo'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-8480033549893891271</id><published>2008-07-11T13:11:00.002+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.124Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>O que a tristeza é quando nos acontece</title><content type='html'>na minha pele.  há uma dor que eu não sei. somo todas as tristezas do meu pequeno mundo e continuo sem saber. lembro-me de um país distante onde as crianças brincavam com os sonhos e dormiam ao relento numa praia de areia verde, como se fosse um tapete de campo primaveril.  amanhã estarei aqui e o que eu disser será definitivo para saber o que não sei. o corpo. o sentido, os. assumo viver a tristeza por hoje. o meu corporalma queixa-se. os efeitos especiais. a vista cansada. a moínha. eu sacudo os ombros de contente. não há como voltar à terra de onde nasci.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-8480033549893891271?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/8480033549893891271/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=8480033549893891271' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/8480033549893891271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/8480033549893891271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/07/o-que-tristeza-quando-nos-acontece.html' title='O que a tristeza é quando nos acontece'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-8450738001098457869</id><published>2008-07-04T11:02:00.003+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.125Z</updated><title type='text'>os braços no ar</title><content type='html'>penso com os braços levantados. há o vento nos dedos e nas mãos e no corpo todo.&lt;br /&gt;depois vem o sol e as estrelas e o espaço sideral. só depois a infância, o arrepio,&lt;br /&gt;o ir e vir constante.&lt;br /&gt;a própria morte.&lt;br /&gt;é com os olhos postos na sorte que eu penso. que procuro. uma palavra. e uma palavra não chega. nem uma nem mim. nem milhões. as palavras-estrelas reproduzem-se infinitivamente no pequeno céu onde me admiro do mistério do existir.&lt;br /&gt;eu sei. elas não são finitas. ou seja, são-no apenas quando ao percebê-las, não as percebo e elas se mantêm ali, no firmamento pequenino e doméstico do meu pasmo.&lt;br /&gt;são sempre mais umas e outras, como ondas, como ondas e estrelas, só que nunca brilham, nunca brilham verdadeiramente.&lt;br /&gt;tenho os braços levantados e já deixei de pensar.&lt;br /&gt;de sentir o vento, o sol, os dedos, as mãos, o corpo todo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;a própria vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-8450738001098457869?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/8450738001098457869/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=8450738001098457869' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/8450738001098457869'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/8450738001098457869'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/07/os-braos-no-ar.html' title='os braços no ar'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-4742384062428425926</id><published>2008-06-26T03:40:00.003+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.126Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='vida'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>o extremo exercício da bondade</title><content type='html'>às vezes acordo de noite para nascer.  ponho-me sentado na cama a pensar. há qualquer coisa em mim que se inclina para a ideia de que o pensamento redime. tento lembrar-me. o primeiro gesto do pensamento é reconstituitivo: o que fiz em 1998? como é que foi o meu primeiro emprego? quando é que comecei a fumar? a minha primeira noite com uma mulher. é uma história assim apresentada aos solavancos. há qualquer coisa em mim que me diz, ou tenta dizer, que se eu conseguir manejar o passado com alguma agilidade vou ser feliz. e quando assim penso faço um voo picado sobre a memória e lembro-me do que posso. até onde posso. até ao momento em que me apercebo que a única coisa que me devolve à vida é a ideia de me poder consagrar ao extremo exercício da bondade. não ao ser bom, que isso, é trabalho de uma vida. ao exercício da bondade enquanto forma tentada. é um movimento de fora de mim para dentro de mim e de dentro de mim para o que me é exterior.  eu gostava de ser capaz de não perder tanto tempo com coisas que não têm nenhuma importância para o que realmente conta: a propagação da bondade na vida de todos os dias. nunca consegui aproximar-me da bondade. o lugar em que estive mais perto dela foi o da sua ideologia, a bondade enquanto ideologia; ideologia da bondade, tanto no que se refere ao mundo colectivo como no que toca ao mundo individual. eu queria participar na comunidade e queria ser bom. mas isso não é ainda ser bom nem da bondade. é ser da ideologia e a ideologia, tal como a linguagem, são menos as coisas do que as coisas são no seu estado bruto. a bondade não é senão isso: a operação que faz das coisas, coisas; das pessoas, pessoas; dos bairros, bairros. e quem diz bairros diz cidades, lugares, comunidades, países, o universo inteiro. se me perguntarem como é que eu gostaria de morrer, tenho a resposta na ponta da língua: do mesmo modo como gostaria de um dia ser capaz de viver. desfazendo-me no extremo exercício da bondade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-4742384062428425926?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/4742384062428425926/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=4742384062428425926' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4742384062428425926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4742384062428425926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/06/o-extremo-exerccio-da-bondade.html' title='o extremo exercício da bondade'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-102392459300677020</id><published>2008-06-23T19:09:00.002+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.126Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pensar'/><title type='text'>sou uma máquina e faço uma pausa</title><content type='html'>tenho talvez uns dezoito minutos antes de desaparecer. de certa forma, antes de morrer. todos os dias por esta hora, antes de me dirigir ao relógio de ponto, fecho os olhos e imagino que um certo eu que me acompanha todos os dias desaparece. penso na minha liberdade. está sol lá fora, luz. gosto do céu azul assim. e agora o telefone. faço pausa. sou uma máquina e faço pausa.  desisti de me pensar.  ou melhor desisti de convocar o pensamento quando quero pensar. chamo a pele. eu pensava que estava a morrer, porque não estava a conseguir pensar mais. faltavam-me os pensamentos, as informações, as memórias. faltava-me tudo. pensava, faltava-me tudo. e não, tinha era coisas a mais, coisas a mais a atascarem o corredor da memória. o que caducou em mim foi uma certa forma de pensar. é por isso que eu hoje já não consigo dizer com expontaneidade, &lt;em&gt;penso, acho, na minha opinião, cá para mim&lt;/em&gt;, tudo isso são expressões de um pensar em desuso. agora penso com o medo. com a inquietação. com o estremecimento. são coisas físicas o medo, a inquietação e o estremecimento. podem não o ser,  eu sei. mas são quando me acontecem. é o lado físico que me acorda, que me faz pensar. a minha pele é a mesma de há quarenta e seis anos. isto para mim é um mistério da razão. o mundo assiste-se de razões insólitas: o sexo verde de um homem, a sua tesão diante do sexo vermelho de uma mulher, da sua tesão. tudo isto que acontece antes da linguagem. é verão, por assim dizer, é verão na minha pele.&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-102392459300677020?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/102392459300677020/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=102392459300677020' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/102392459300677020'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/102392459300677020'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/06/sou-uma-mquina-e-fao-uma-pausa.html' title='sou uma máquina e faço uma pausa'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-4432918306290021569</id><published>2008-06-21T01:36:00.006+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.127Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='vida'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>Chá de alface</title><content type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/SFxR62-_wbI/AAAAAAAAAoc/r2Lyk3S-2fo/s1600-h/telefone+em+20+junho++2008+090.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5214132540222194098" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/SFxR62-_wbI/AAAAAAAAAoc/r2Lyk3S-2fo/s400/telefone+em+20+junho++2008+090.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;coisas que nunca saberei: porque é que a inquietação me chega ao peito. quer dizer, que nunca saberei de forma satisfatória. cujo saber valha a presunção de dominar o obscuro sentido que perco em cada dia que vivo. porque escrevo? quando levo os dedos ao teclado sou um humanista, um humanista dos antigos, dos rijos. escrevo contra o vento e o vento é a solidão. fiz chá de alface para dormir melhor. durmo de olhos abertos. &lt;em&gt;a minha solidão é a tua dor e a tua dor é a minha solidão&lt;/em&gt;, leio numa parede  grafitada. quero saber de onde vem o vento. e as palavras? preciso de sorrir. faço pressão nos músculos da cara, solto um sorriso, é maquinal, um maquinismo, mas esse movimento é o suficiente para me irrigar o sangue de um inusitado bem estar. escrevo na minha noite e a minha noite é o meu medo. tenho medo de tudo. das sombras. da luz. de mim. da minha sombra. dos bicharocos que andam por aqui pelo quintal. da noite. da irritação por aquele saturday nigth fever que um@ adolescente insiste em derramar pela encosta, e amanhã, amanhã vou estar aqui? a fazer o quê? a sorrir novamente. o meu medo é a coragem de que me faço. de que sou feito. está uma aragem fria que me faz bem. descontrai-me. sabe-me a fresco e a frescura é verão dentro de mim. tenho uma cidade lá fora. ali, no vale de santo antónio. ou atrás, até à alameda. estou cansado, muito cansado. os meus demónios não me derrubam mas azucrinam-me. moem-me. amanhã ainda estarei por aqui, espero. não há palpites. isto é o mata-mata. se me fosse agora ía a sorrir. era um sorriso musculado, eu sei. mas é sorriso. há qualquer coisa em mim que sabe. há vida dentro de mim que sabe. a linguagem não. a linguagem não sabe. eu sei. o vento bate em mim pelo lado do caule, abano, danço. amanhã é outro dia. o chá de alface tem um sabor pastoso que é necessário cortar com um poucochinho de mel. só depois sabe bem.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-4432918306290021569?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/4432918306290021569/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=4432918306290021569' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4432918306290021569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4432918306290021569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2008/06/ch-de-alface.html' title='Chá de alface'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/SFxR62-_wbI/AAAAAAAAAoc/r2Lyk3S-2fo/s72-c/telefone+em+20+junho++2008+090.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-244859340197507730</id><published>2007-09-24T17:48:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.128Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='dor online'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://jpn.no.sapo.pt/fotos/kantor.jpeg"&gt;&lt;img style="width: 193px; height: 186px;" alt="" src="http://jpn.no.sapo.pt/fotos/kantor.jpeg" border="0" height="244" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Tenho algumas dúvidas de que estas palavras me possam ajudar a compreender algo.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Por exemplo, faltam-me as palavras-chave.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;As palavras-chave são fundamentais.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Eu não preciso de compreender mais nada. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;O problema é outro.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;É que nada daquilo devia ter acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-244859340197507730?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/244859340197507730/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=244859340197507730' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/244859340197507730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/244859340197507730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/09/blog-post.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-4422992478095682284</id><published>2007-09-24T16:36:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.128Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='deus de repente'/><title type='text'>deus de repente</title><content type='html'>de repente parece que o ar tem mais força, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;que o prazer é mais intenso, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;que os rostos dos outros deixaram de ser &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;o rosto dos outros e &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;como pele, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;puzzle, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;tornaram-se na nossa face, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;na nossa alegria, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;na nossa festa, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;e até mesmo se choramos, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;é água, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;como podia ser saliva, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;ou esperma, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;matérias da nossa humanidade em desvairio &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;de repente é como se um clarão se tivesse aberto no céu e o &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;nosso deus agnóstico, descrente, ateu &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;abrisse os braços &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;em forma de pomba e então é como se, repentinamente,&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;deus, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;a pomba, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;o próprio céu, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;fossem um pouco menos estúpidos, maus, belicosos, e&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;assim, a visão que  repentinamente de ti surge.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-4422992478095682284?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/4422992478095682284/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=4422992478095682284' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4422992478095682284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/4422992478095682284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/09/de-repente-parece-que-o-ar-tem-mais.html' title='deus de repente'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-5895480279796353974</id><published>2007-09-24T15:12:00.001+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.129Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='dor online'/><title type='text'>O mundo imaginado</title><content type='html'>O tempo marca-me assim: à medida que a areia desce para a parte inferior da ampulheta, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;a minha vida encontra-me cada vez mais dividido entre a minha fidelidade natural ao mundo real, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;o lugar onde convivo com os meus vivos, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;e a minha inclinação crescente para com aquilo a que chamo mundo imaginário, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;onde alojo o que sobrevive dentro de mim, da minha memória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-5895480279796353974?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/5895480279796353974/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=5895480279796353974' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/5895480279796353974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/5895480279796353974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/09/o-mundo-imaginado.html' title='O mundo imaginado'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-3911846538265256546</id><published>2007-08-10T10:55:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.129Z</updated><title type='text'>regresso breve</title><content type='html'>Retomo o lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando à procura de seixos nas águas do rio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço-me com frases curtas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A corrente mais forte do rio que me leva, que me arrasta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio do vale. O ladroar diverso, a desoras. A paisagem é deles.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-3911846538265256546?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/3911846538265256546/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=3911846538265256546' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/3911846538265256546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/3911846538265256546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/08/regresso-breve.html' title='regresso breve'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-1948470076230242185</id><published>2007-05-12T13:16:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.130Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='todos os posts sobre o amor são ridiculos'/><title type='text'>Maio</title><content type='html'>Há na cobardia uma coragem. No gesto desistente, uma persistência ainda assim no gesto, mesmo que desistente. Ele ficou quando partiu e foi-se, naquele momento em que decidiu ficar. Tudo isto é, tanto na solidão como na companhia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-1948470076230242185?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/1948470076230242185/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=1948470076230242185' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/1948470076230242185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/1948470076230242185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/05/maio.html' title='Maio'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-1951608916030283337</id><published>2007-03-23T05:43:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.131Z</updated><title type='text'>Não te chamo triste, noite</title><content type='html'>todo eu sou o corpo desta dor dissimulada numa angústia que me leva pela noite dentro&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;não durmo&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;estou de vigilia&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;algo acordou em mim e agora sou eu que não adormeço,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;que não consigo dormir,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;que não tenho paz,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;tranquilidade.&lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que a tristeza faz a um rosto humano!&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;penso em mil e uma revoluções adiadas.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;penso no tangível.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;desejo de nenhures, de ir,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;há algo a parir dentro de mim,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;estou grávido,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;uma vida que se agita,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;o apelo alegre de uma vida que se agita.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não chamo tristes a estas horas.&lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-1951608916030283337?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/1951608916030283337/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=1951608916030283337' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/1951608916030283337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/1951608916030283337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/03/no-te-chamo-triste.html' title='Não te chamo triste, noite'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-1716802281493615548</id><published>2007-03-02T14:56:00.002Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.131Z</updated><title type='text'>O optimismo</title><content type='html'>sinto uma dor na mão. abro-a. está vazia. é essa dor que transporto. o vazio nas minhas mãos e as minhas mãos são os meus sentidos.  o meu pensamento fez um cerco ao meu corpo sensível. esvaziou-o de sensações. a guerra e a vingança: os meus sentidos  ripostaram apagando a memória. agora é o esquecimento. a inutilidade do pensamento. o optimismo acontece quando o meu corpo se cansa. aí concentra-se unicamente no gesto de abrir a mão. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;nessas alturas o meu mundo reconstrói-se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-1716802281493615548?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/1716802281493615548/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=1716802281493615548' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/1716802281493615548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/1716802281493615548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/03/o-optimismo_1379.html' title='O optimismo'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-6622175590298776642</id><published>2007-03-02T00:04:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.132Z</updated><title type='text'>Paisagem sem sentido</title><content type='html'>tento organizar-me por palavras. não me é fácil. fico à espera. hão-de vir. as palavras são ressoadores do que em mim vibra. a miséria da escrita é que ela tem sempre de ser dádiva. e não me é fácil abrir-me à dádiva quanto todo eu estou deficitário de fé, de confiança e até, de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;boaventura&lt;/span&gt;.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não posso ficar à espera que tudo isto venha. movo-me em direcção ao meu vazio, preencho-o com gestos grávidos de imagens, é assim que o possível hoje me atravessa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;há uma febre no coração do mundo. uma guerra. tenho horror ao sacríficio de inocentes. sinto-me um pequeno burguês atolado em palavras. eu não consigo ir onde o meu irmão sofre. eu nem consigo reconhecer o meu irmão, quanto mais o seu sofrimento. tudo isto é de menos. é politica esvaziada de dignidade. é acto de sobrevivência. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não consigo dizê-lo: o terrorismo é uma invenção cuja finalidade é silenciar a violência urbana. O terrorismo é uma ficção política invizível. a circunscrição do terrorismo é o primeiro acto terrorista. não consigo dizê-lo, estou a pensá-lo e a meio sustenho a frase, não sou capaz de concluir. o terrorismo militariza a vida quotidiana.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e nem sei porque falo de terror, de terrorismo; talvez por causa da minha condição de homem acossado. é enquanto homem acusado que estremeço, que perco o sentido, os sentidos. caio mo meio da praça.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a minha fúria é esta: hei-de arrancar algum significado a esta escrita com que arranho a folha de papel electrónica onde escrevo. hei-de compreender o que está para além disto, das palavras, das letras, dos fonemas articulados com pasmo, raiva, avermelhando o paladar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-6622175590298776642?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/6622175590298776642/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=6622175590298776642' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/6622175590298776642'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/6622175590298776642'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/03/paisagem-sem-sentido.html' title='Paisagem sem sentido'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116791515261246206</id><published>2007-01-04T12:45:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.132Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>a tua sombra segue-te</title><content type='html'>por onde é que se começa?, perguntou. por onde é que se começa a desenrolar esta solidão sem fim?, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;por um sorriso, ouviu.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;ouvia vozes. ouvia vozes boas. e quando não eram boas, fazia-as depurar por um incansável exercício da bondade.&lt;br /&gt;algo lhe dizia que teria de refazer tudo. uma a uma todas as suas misérias. todas as suas hesitações.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;parecia-lhe bem pouco este demorado reacender da cinza se não houvesse um desejo de uma vida outra a alimentar a fagúlha.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;é um lugar de esperança a nossa necessidade de futuro, pensou, enquanto dava duas voltas ao quarteirão imaginário que se interpunha entre ele e a realidade.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;cada um de nós devia escolher um sonho, uma promessa e depois, velá-lo. Velá-lo para sempre.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;cada um deveria ser o anjo da guarda do seu sonho, pensou e escreveu, naquela folha de papel almaço que andava sempre no bolso traseiro das suas jeans coçadas pelo tempo.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;sentia-se muito bem, sentia-se seguro quando vestia as suas jeans poídas e gastas.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;conseguia nelas escutar vozes antigas, outras vozes. a mãe dele ralhava sempre com o estado miserável das suas jeans.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;se ela as visse agora, disse de si para si, sorrindo mais uma vez.&lt;br /&gt;o sorriso abria-lhe espaço entre os maxilares, entre as bochechas, milhares de episódios vinham lá do memorial em que cada um se constitui, &lt;br /&gt;havia uma ideia de leveza.&lt;br /&gt;havia uma ideia de leveza completamente estafafúrdia e disparatada.&lt;br /&gt;agora que todo ele era peso, massa, inércia,&lt;br /&gt;desvanecia-se nele uma incrível,&lt;br /&gt;primeiro imperceptível depois cada vez mais insinuante,&lt;br /&gt;sensação de leveza.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;as horas a passarem.&lt;br /&gt;sempre as horas a passarem lhe pareceram um suplício.&lt;br /&gt;as horas passam sempre devagar.&lt;br /&gt;e nunca pelos trilhos certos.&lt;br /&gt;perdem-se em caminhos de cabras, de poeira.&lt;br /&gt;as horas parecem sempre crianças a brincar no pátio. há&lt;br /&gt;sempre mais um bocadinho,&lt;br /&gt;só mais um bocadinho, mãe,&lt;br /&gt;assim as horas também,&lt;br /&gt;nunca é tempo de acabarem o tempo e voltarem tranquilamente para casa.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;respirou fundo. havia na respiração um engenho que ele nunca compreendeu, que ele sabia, nunca iria ser capaz de compreender.&lt;br /&gt;estava bem assim na sua incompreensão da inspiração, do efeito que ela faz num corpo atormentado.&lt;br /&gt;não queria saber.&lt;br /&gt;bastava-lhe saber que era assim.&lt;br /&gt;que inspirando,&lt;br /&gt;absorvia essa imensa calma dos grandes lagos, dos grandes colorados deste seu pequeno mundo.&lt;br /&gt;bastava-lhe saber isso, o suave balancear com que o ar rejuvenesce o corpo desavindo com o espírito que o habita.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;é preciso não saber muitas coisas nem todas as coisas de uma só vez, pensou, anotou mais uma vez.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;não admira que as calças de ganga estivessem cada vez mais esbroadas, frágeis.&lt;br /&gt;os seus pensamentos eram como as horas.&lt;br /&gt;intermináveis. antes de guardar o papel, &lt;br /&gt;também ele padecendo da mesma intranquilidade,&lt;br /&gt;ainda assentou,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;não sigas a tua sombra. ela seguir-te-à.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116791515261246206?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116791515261246206/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116791515261246206' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116791515261246206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116791515261246206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/01/tua-sombra-segue-te.html' title='a tua sombra segue-te'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116787621276699984</id><published>2007-01-04T01:40:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.133Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>dá-me a tua mão</title><content type='html'>há um sentir-me triste. há um sentir-me de uma tristeza terrívelmente irrevogável. dá-me uma mão. é isso que eu gostaria de te dizer. anda pela noite, anda por esta noite enorme e dá-me uma mão. leva-me por onde eu possa ser alegre. fugir desta ideia de morte que me acompanha. hoje, estava no eléctrico 28, tu entraste, o teu casaco de cor verde foi um princípio activo para mim, eu disse-te,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;dá-me a tua mão.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;sim, talvez não o tenha dito, mas pensei.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;eu estava a rebentar, não te disse porque era a primeira vez que te via, achei, não são estas as coisas que se dizem a um estranho, a uma estranha,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;dá-me a tua mão,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;mas se não fosse tão estranho dizê-lo, eu tê-lo-ía dito,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;dá-me a tua mão,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;assim,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;mas não o disse,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;e não foi por cobardia, foi por pudor,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;por resguardo,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;em vez disso disse,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;senta-te,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;tu ías sair ligo ali à frente,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;disseste que não,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;lembro-me que disseste que não, enquanto sorrias,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;pensei até, eu não sei o que realmente te disse,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;se te sentasses,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;talvez afinal o que os meus lábios murmuraram,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;se, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;dá-me a tua mão,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;aquilo que me rebentava com o palato interior.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116787621276699984?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116787621276699984/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116787621276699984' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116787621276699984'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116787621276699984'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2007/01/d-me-tua-mo.html' title='dá-me a tua mão'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116692371018858622</id><published>2006-12-24T00:30:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.133Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='dor online'/><title type='text'>dor online</title><content type='html'>acabo por me dar conta que não tenho muito jeito para esta espécie de dor em directo. faço muitas vezes o metabolismo da ferida, das feridas, mas faço-o tentando entrar dentro do domínio de uma expressão própria que me volte a colocar nos trilhos da ficção. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não há zapping possível. o natal torna tudo mais fácil, os pacotes de frases feitas, de sentimentos e emoções previsíveis.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; o natal torna tudo mais difícil. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;mando um sms. digo, se tudo isto não fosse uma enorme tristeza não o conseguiríamos compreender. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma das coisas terríveis na morte inesperada, e não há nada que nos possa fazer esperar  a morte de um amigo, é de que nos coloca divididos, entre o tempo que passamos com os nossos vivos e a memória que consagramos aos nossos mortos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;nem sempre se pode esperar pelo primeiro dia de novembro para chorar o desaparecimento de um amigo. às vezes é mais urgente. um sobressalto a meio da noite. um estremecer, um leve articular dos lábios, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;onde é que tu estás?&lt;/span&gt;, e depois outra vez esse silêncio cavado.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu creio que a escrita, escrever, faz parte do jogo. não sei bem que tipo de jogo, mas ainda assim, parece-me que faz parte do jogo no sentido que clarifica. quando eu digo que clarifica não digo que torna mais claro o que está fora de mim. o que está dentro de mim há muito que perdeu o sentido. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;é quase do domínio do antropológico esse dedilhar do sentido em mim. pensar que tive tantas verdades como dedos da mão dá-me uma incontrolável vontade de rir.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; o que a escrita clarifica sou eu, enquanto matéria e imatéria. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sinto-me rasgado por uma solidão autêntica, verdadeira. poderia ser o frio deste natal mas não. é uma solidão que, na sua crueza, dói.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu deveria sentir-me senão feliz, pelo menos em casa. abnomino esta merda de vida que levamos e isso poderia ser o santo e a senha para mudar de vida. é que nunca ninguém consegue libertar-se desta teia modorrenta e quotidiana senão for varrido e assolado por uma crua e verdadeira amargura.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e tenho de o reconhecer. esta dor trouxe-me de volta. há muito que eu não era tão verdade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;aprendi, sem dar por isso, porque tudo há minha volta o fazia, a tornar-me dissimulado. a não precisar de ser eu. passei tantas horas da minha vida metido em salas de trabalho, em associações e colectividades, trabalhando com grupos, empenhando-me naquilo que dizia ser a descoberta de cada um na expressão de si mesmo,  e de repente dei nisto, um ser eticamente obeso. não vale a pena desculpar-me com o universo onde vivo. não é o melhor dos lugares mas sou eu que desmereço a ideia de mundo que me trouxe aqui. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;talvez seja essa a matéria que me deva ocupar. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e nisso talvez eu volte a ser um entre os demais. a ter alguma utilidade. a servir para alguma coisa. embora, o que são estas palavras com que escrevo? o que querem dizer? &lt;span style="font-style:italic;"&gt;servir para alguma coisa&lt;/span&gt;, do ponto de vista de uma vida humana, o que é? tem de haver algum tipo de crença para dar sentido a essa ideia de que uma vida pode servir para algo. ou não? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;creio na comunicação, na partilha do presente, no significado que construímos ao empenharmo-nos em diminuir o sofrimento. O humano, o animal, o das plantas e de todos os seres.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;é um deus frágil, este. o sofrimento é por vezes ocasião de conhecimento e sabedoria e estes, reduzem em grande parte o sofrimento. O que fazer?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116692371018858622?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116692371018858622/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116692371018858622' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116692371018858622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116692371018858622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/12/dor-online.html' title='dor online'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116592904660246817</id><published>2006-12-12T13:05:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.134Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='dor online'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Há qualquer coisa permanentemente fora do sítio. Não me conformo com a tua ausência.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Desde que te foste que deixei de ter medo de morrer. Tenho sim um receio fundado de que, entre hipotecas e promissórias, não saiba viver a vida que tenho entre mãos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Eu gostava de voltar atrás. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116592904660246817?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116592904660246817/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116592904660246817' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116592904660246817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116592904660246817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/12/h-qualquer-coisa-permanentemente-fora.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116470216536914330</id><published>2006-11-28T08:22:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.135Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='dor online'/><title type='text'>Paisagem sem Título</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);"&gt;mais uma vez ao pensar na morte, ocorreu-me que talvez &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;vivêssemos melhor se morrêssemos mais.&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;deveríamos morrer mais vezes.  não digo que devêssemos morrer todos os dias,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;ou até,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;como se vai ver que fizeram durante anos a fio os nossos melhores poetas loucos,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;em tomas certas, e que quase se diriam medicamente prescritas, &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;de manhã, à tarde e à noite.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; não. digo mais vezes, mais abundantemente não devíamos correr contra a morte, mas a seu&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; favor, procurando-a e,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;enfim,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(255, 255, 255);"&gt; &lt;/blockquote&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-size:100%;" &gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;escutando-a. como agora nesta noite sem fim resolvi fechar os olhos fantasmagóricos e dançar&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; ao&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt; som de O Bairro do Amor.  Deveríamos,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;antes que a morte final, estúpida, inexpressiva,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; irremediável, colérica, violenta,  vampira, esbirra, venha&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;como nunca deveria vir&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;interromper a loucura, o delírio, a festa, que é estarmos com aqueles que queremos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;como nunca deveria vir, pelo menos na vida daqueles a quem amamos tanto que julgamos ser impossível &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;font-size:100%;"  &gt;dissidirmos &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;entre o amor que lhes devotamos,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;font-size:100%;"  &gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;e o amar que é o próprio viver.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Hoje por exemplo seria a minha vez de &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;font-size:100%;"  &gt;fazer de morto&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;e quando eu entrasse, invísivel na repartição,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;a mulher que em mim nunca repara,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;que já nem levanta a cara diante do meu cadáver de todos os&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; dias,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;que só risca numa folha,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;que já vem com o meu nome, o meu posto e lugar de ausência,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;verteria uma lágrima sincera,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;como se fora o calafrio da sua própria morte que ela sentisse a entrar-lhe pelas costas,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;fino recorte até à espinha, a espinal medula.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);"&gt;Por sua vez a minha colega do lado, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;e que por causa da proximidade&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; está dispensada do desprezo geral que toda a repartição tem por mim,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;o que aliás é recíproco, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;porque nos ensinam, porque em nós medra, porque em nós vivifica, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;esse livre e espontâneo desprezo que não é senão a parte que nos é possível sentir desse outro e enorme e inqualificável desprezar a que nos sentimos votados pela própria vida,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;por sua vez a minha colega do lado , que também almoça comigo numa cozinha malcheirosa e &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;nauseabunda por onde o sol não&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; entra,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);"&gt; seria a escolhida para receber as condolências.&lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;Um a um, todos e cada um dos enemésimos funcionários desta repartição, &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;levantar-se-íam,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; lenta e dolosamente, &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;segundo o olhar atento do Esteves, o&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; chefe,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;deixando uma flor, um bombom, na secretária da Anabela,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;assim se chama a rapariga que todos os dias me diz boa tarde quando me sento na&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; mesa&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; forrada a plástico já meio dissolvido no tempo,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;o mesmo tempo que nos dissolve a nós,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;mas mais lentamente na maioria dos casos,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;e que no&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; fim se levanta e com o mesmo ar de tédio com que já nem&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;sorri,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;diz, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;font-size:100%;"  &gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;até amanhã&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; a mim que não sei, nunca soube, e provavelmente nunca saberei&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;que amanhãs serão estes sem futuro nenhum tangível.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;E no dia seguinte seria outro a morrer por breves instantes.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Outro ainda a receber os bombons, as flores,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; as vénias curvadas e respeitosas de uma vida a fingir que é morte. Como outros seriam, sempre sobre a vigilância do mesmo Esteves, o chefe, outros seriam  os que se levantariam,  e se  curvariam  oferecendo uma lembrança, um pequeno gesto.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;Eu não sei que mundos são estes que imagino nem porque imaginá-los me ferve a cabeça&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt; dolorida com uma morte mais uma vez,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;sempre a m&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);"&gt;inha.&lt;/span&gt;&lt;blockquote style="color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-family:trebuchet ms;" &gt;&lt;br /&gt;E nem ainda morri. Nem morro. Aqui hesitante, na minha fidelidade à vida que em mim,&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;em cada instante, morre, no meu temor&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;de que seja morte o que em mim, a cada vez, vive.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-size:100%;" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116470216536914330?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116470216536914330/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116470216536914330' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116470216536914330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116470216536914330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/11/paisagem-sem-ttulo.html' title='Paisagem sem Título'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116330955182324608</id><published>2006-11-12T05:14:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.135Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Intranquilidade</title><content type='html'>As rugas morais, a flacidez do espirito, atacam primeiro do que as suas gémeas do corpo. Começamos a envelhecer muito antes de o sabermos. Não sei se é por não sabermos. Sei, começamos a envelhecer muito antes de sabermos. Há em nós uma propensão para o envelhecimento. Inventámos até uma metáfora que explica a nossa desistência ética: saber envelhecer.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Começamos a envelhecer quando deixamos de nos importar. Com quê? Continuo a não saber. Não sou sábio. Sou um tipo que escreve e que, enquanto escreve, e por isso o faz, vê revelações, evidências. Sei por isso que começamos a envelhecer quando nos deixamos de importar. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Começamos a envelhecer quando tudo pesa por igual, excepto se está dentro daquele pequeno mundo que nos afecta, pelo qual somos afectados. É com esta distensão ética que todos contam para fazerem os seus negócios, nem sempre lícitos, para prosperarem, para terem sucesso. Como estamos cada vez mais fechados sobre os nossos mundos em decrescimento acentuado, há uma grande probalidade de que nada afecte verdadeiramente ninguém, principalmente porque também adquirimos uma cultura, quer dizer, um modo, consentâneo com esta façanha tão contemporânea: somos por nós mesmos desafectados.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Gostaria que aquilo que escrevo me levasse para um lugar tranquilo. São cinco da manhã, estou cansado, quero dormir. Mas não. A escrita repovoa-me o lugar inquieto, febril, tortuoso, onde eu deixo de ser quem sou. E quanto mais escrevo mais inquieto, intranquilo, insatisfeito fico. Agora enfureço-me com o tempo. E enfureço-me de tal modo com o tempo que acabo por me zangar totalmente com os seus atetites vorazes de realismo.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;-Que se foda o realismo!- &lt;span style="font-style:italic;"&gt;grito&lt;/span&gt;. Ouço os estores a correrem silenciosos. Pressinto gente atrás deles, velhos. Velhos e gatos. Os gatos assomam-se amiúde à janela e têm, pelo que ouvi dizer, uma estranha propensaõ para a revolta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116330955182324608?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116330955182324608/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116330955182324608' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116330955182324608'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116330955182324608'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/11/intranquilidade.html' title='Intranquilidade'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116212246141389903</id><published>2006-10-29T11:47:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.136Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>Quando toca a campainha no pátio da escola</title><content type='html'>Estou vazio. Estou vazio por dentro e por fora. Ou então não me lembro. Esqueci-me. Há muito tempo eu exercitava a memória com disciplina. Deitava-me no chão da sala, respirava profundamente segundo aqueles exercícios que tinha aprendido na sala vermelha de ensaios do Casarão Cor de Rosa, e a pouco e pouco recordava-me. Ía longe na memória, às vezes ía tão longe que parecia ter desnascido, voltado ao tempo da água, das tempestades interiores no colo útereo de minha mãe. Antes mesmo de haver memória. Nesse tempo eu tinha uma morte comigo: a minha ansiedade. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Se eu for a contar os momentos que já vivi, a conta é terrivelmente monstruosa. São biliões de momentos. Apercebo-me isso na ruína do arquivador, do classificador, do próprio museu. E é terrivelmente -poderia ser magnificamente- porque me impede de ver alguma coisa que seja para dentro de mim mesmo. Muitos desses momentos, não menos terrivelmente, foram perdidos, engolidos, devorados por um tempo que não era meu. Eu sou uma máquina. Toda a minha vida lutei e lutarei, como qualquer de vós, pela minha individualidade, mas agora reconheço, tudo o que vivi só existe  como trabalho para este reconhecimento do espírito: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sou uma máquina&lt;/span&gt;. É um gesto humilde, o meu maior gesto humilde, a maior humildade de que sou capaz. Sou uma máquina de afectos, de ideias, de sentimentos. Tenho de viver como responsabilidade - neguemos a culpa - aquilo que não é mais do que um enorme, e monstruoso - são histórias de monstros, estas- jogo de cabra-cega de cada um, lançado no espaço, na memória, no tempo. Poderia insurgir-me desde já. Dizer, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;não sou máquina&lt;/span&gt;. Sou uma pessoa. Mas depois, se me sobrasse em inteligência o que me ocuparia de galhardia, teria de reconhecer, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sou uma máquina cujo dispositivo está preparado para dizer&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;sou uma pessoa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. Os tempos mais importantes na formação da minha personalidade ocorreram quando eu nem sequer tinha consciência do que era viver, estar vivo, a própria vida. Não que agora a tenha. Tenho de reconhecer porém: entretanto sei mais algumas coisas. As coisas que eu sei poderia desconfiar delas, dizer, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;tudo o que vejo, tudo o que sinto, tudo o que percebo, sou eu a ser máquina de outra forma&lt;/span&gt;. Poderia e posso, desconfio sem delas prescindir. Não posso prescindir do que é o meu intuir, do que é o meu perceber, sentir, só porque sei quanto são erróneos os caminhos por onde me levam. Senão passaria a ser uma carcassa andante, migratória, nem máquina, nem gente. Sou uma máquina. Sempre fui uma máquina. Quando nasci, como todos vós, fui para a escola. Aprender o quê? Aprender a ser máquina. É justo que uma mãe que entrelaça os dedos nos caracóis do filho diga que o faz por amor, mas até nisso, na forma como desenhamos os amantes, o amor, somos máquinas. Não disse maquinais. Disse, somos máquinas. Um raio de sol bateu nas minhas costas. Vem ali dos lados de S. Vicente de Fora. Uma campainha distrai-me. É uma campainha de Escola, da Escola da Voz do Operário. Ouço vozes no pátio. Por estar um pouco a descair para um resfriado lembro-me das tardes inennaráveis deitado na cama, no meu beliche, a olhar o campo da bola da Escola Primária nº 125, ou a de Nampula, como também era conhecida. Tudo isto me emociona. Não sei em que medida, mas emociona-me muito, tanto que o descrevo com pormenor, com deleite, esperando que do arrastar do texto suja uma clarividência que me guie. Penso naquilo que me trouxe a este pequeno delírio, a esta pequena convulsão: uma campainha. Como se fosse um ratito de Pavlov, a campainha levou-me para dentro da minha identidade. Sou máquina. Não é com a maior humildade que o digo, eu sei que o escrevi atrás, mas isso era propaganda. Também me propagandeio. Especialmente em momentos como este em que quase tudo é escuridão, ansiedade. Não era com a maior humildade, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;era com o meu melhor desejo de ser humilde.&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Não é a mesma coisa. Sou uma máquina preparada para me emocionar e nesse emocionar-me, está uma deriva da minha natureza maquinal. Eu poderia dizer, deixo de ser máquina quando me emociono. Alguns dos que aqui me lêem gostam que eu diga isso. É bonito, perturbante e extraordinariamente piegas a ideia de uma máquina a emocionar-se. Há aqui um erro, uma falha de comunicação. Quando eu digo que sou máquina, não estou a despersonalizar  os individuos, as gentes. Parto da humanização do conceito de máquina. Sou uma máquina preparada para sentir, para falar, para dizer. Há um ganho de humanidade, não uma perda. Comecei a escrever tudo isto desesperado. Não sabia o que escrever, não sabia se seria capaz de o fazer, sentia um desejo enorme de me resolver aqui, escrevendo. Não me apeteceu transviar, ir fazer de conta, ou ir fazer nada outra vez. Apeteceu-me avançar na minha escuridão. Há um lado morcego em mim. Sou uma máquina com um terrível e soçubrante medo do escuro, das sombras que se formam saltando desse maciço espesso e negro, das vozes que lá se escutam, mas, tudo é terrível agora, mas terrivelmente, sou uma máquina que se aclara no breu. E comecei a escrever do pouco que sei quando me tento iluminar interiormente. E agora apercebo-me. A minha natureza de máquina devolve-me para o dia um pouco mais humano. Ou um pouco mais próximo daquela humanidade que, como condição, desejo, persigo. E volto até, no ponto final, a ser máquina: sou um dispositivo construído para criar &lt;span style="font-style:italic;"&gt;happy end's&lt;/span&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116212246141389903?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116212246141389903/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116212246141389903' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116212246141389903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116212246141389903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/10/quando-toca-campainha-no-ptio-da.html' title='Quando toca a campainha no pátio da escola'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-116087591158531506</id><published>2006-10-15T02:08:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.136Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Corrida contra o tempo</title><content type='html'>desfaço-me de tudo mais uma vez. das ideias feitas. da viagem que é chegar aqui. dos corpos entrelaçados. das imagens. de tudo me desenvencilho. desembaraço. há um momento na nossa vida assim. em que não sabemos nada. em que a única coisa que se evidencia é a nossa presença diante deste &lt;span style="font-style:italic;"&gt;não-saber&lt;/span&gt;. e então este gigantesco trabalho de procurar a verdade que nos seduzia na idade romântica e que nos levava a abraçar incondicionalmente a filosofia e a própria poesia, transforma-se. já não queremos arrecadar coisas, ideias, pensamentos. esforçamo-nos antes por atirar a carga ao mar. percebemos, talvez tarde de mais, que a sabedoria é um tremendo acto de despojamento. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não é que sejamos sábios. pelo contrário. sofremos até mais com a irresolúvel ignorância que nos disfarça a face. olhamos para a vida e vemos uma longa estrada. uma longa e interminável estrada de sentido único. duas bermas repletas de carne, do pús, da miséria e da própria comiseração tão da nossa humanidade. o nosso único momento de alguma serenidade e tranquilidade é quando nos deixamos trespassar por esta ideia de que um espírito se encontra no desprendimento. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e não só. eu por exemplo aquieto-me por pensar que nos encontraremos no destroçar poético que há em todas as coisas e nos seres. mais uma vez a poesia fará pelas nossas vidas aquilo que deus nunca se prestou a conceder-nos: sentido. e perguntar-se-à: se é uma estrada de sentido único para quê perdermo-nos tanto na busca de um sentido? a pergunta vale mais que a resposta. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não sei se alguém dos que por aqui se entretecem, já conseguiu ver a sua própria morte. o mundo é imorredouro.quando constato a certeza da minha morte, penso no quanto imorredouro é o mundo, o universo todo. Sinto o tempo. A vertigem. A veloz sensação de imortalidade que há num milésimo de segundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-116087591158531506?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/116087591158531506/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=116087591158531506' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116087591158531506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/116087591158531506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/10/corrida-contra-o-tempo.html' title='Corrida contra o tempo'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115862842340020677</id><published>2006-09-19T02:04:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.137Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'></title><content type='html'>Tocam as duas horas nos sinos de S. Vicente de Fora. Fosse tão pontual a minha vida. Estou só como sempre estive, como sempre estarei. A minha dor é inextinguível. Não tem principio nem fim e além disso, não existe. É uma convenção. Convenciono que esta incompletude é a minha dor. É uma convenção poética. Digo que tu és o meu amor. Outra convenção. Nem tu nem a minha dor existem. Só eu.Com a cabeça a arder de uma vontade de rebentar mas ainda assim, indolor. São duas horas ali ao fundo nos sinos de S. Vicente de Fora. Eu estou só, como sempre estive. Agarrado a convenções. A coisas que não existem. Ou que só existem na medida em que as convenciono.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115862842340020677?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115862842340020677/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115862842340020677' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115862842340020677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115862842340020677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/09/tocam-as-duas-horas-nos-sinos-de-s.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115776628733563646</id><published>2006-09-09T02:37:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.138Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'></title><content type='html'>O que mais aprecio neste espaço é a sua abertura ao meu inconformismo.   O que aqui escrevo é muitas vezes redondo. E se continuo a vir aqui é porque ainda espero que a escrita me dê um repente de lucidez e coragem. Há pessoas que pedem essa clarividência a outras coisas, eu encomendo-as à escrita. Sempre foi assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115776628733563646?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115776628733563646/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115776628733563646' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115776628733563646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115776628733563646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/09/o-que-mais-aprecio-neste-espao-sua.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115668457124323295</id><published>2006-08-27T14:16:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.138Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'></title><content type='html'>É sempre de noite que aqui venho. É sempre pela mão da noite que começo o que aqui for desatanço, desarvoreio, arremedo. Tem de ser noite tanto lá fora como em mim. Ali, na janela, o luar magnífico deste Setembro quente. O espelho de água no rio. Os barcos de um lado para o outro, a vida. É noite, tem de ser noite aqui e dentro da minha ideia de mundo, aquela ideia onde vivo. E tenho de estar só. Tenho de estar só, terrivelmente só. Quando eu digo estar terrivelmente só não quero dizer a sofrer de uma solidão despudorada daquelas que trocamos por tuta e meia nos negócios esconsos de uma cidade sortida e variada. É muito para além disso esta solidão que me enlouquece, que me faz tremer de frio nesta noite insuportavelmente quente. A minha solidão é a dor de uma humanidade inteira, ou melhor, a dor que adivinho numa humanidade inteira. É eu estar aqui, a meio dos quarenta e ter perdido o fio à meada. Ando à deriva. Os meus gestos são inconsequentes. Hoje passei por um pedinte que tinha sida e virei-lhe a cara, depois comecei a chorar e logo na outra esquina, despejei toda a prata que tinha no chapéu de um contorcionista desempregado de um circo do qual já nem me lembro do nome.  Amanhã, sei lá o que me vai acontecer amanhã. Vou rabujar com a puta da sociedade de mercado e depois, se calhar nem cinco minutos passados, vou atafulhar-me de milho no cinema pipoca. E sem nunca poder gritar, "Milho-Rei". Tocam os sinos e sou eu que reverbero. Sou uma caixa de ressonância malsã. Venho sentar-me aqui para me perceber e acabo por sair daqui sempre confuso, irritado, mortalmente entediado comigo, com o mundo, com a minha vida. Para eu saber a resposta tinha que saber a pergunta. E essa é que é dificil. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O que é a minha verdadeira pergunta&lt;/span&gt;?, hei-de perguntar sem nunca saber ao certo. Penso que as ideias também envelhecem connosco. As minhas estão velhas, cansadas, começam a ter crises prolongadas de esquecimento. Ou então acordam a meio da noite e vituperam o mundo por ele as ter atraiçoado. Tenho por vezes medo desta escuridão onde me enfio para tentar aclarar a minha vida. Tenho medo do caminho que as minhas ideias estão a tomar. Elas estão conscientes de como todos os dias a generalidade da existência quotidiana do mundo caminha num outro sentido que não o das minhas ideias. Elas sabem isso muito bem, como também sabem que por mais apego que lhes tenha não me é suportável assistir de braços cruzados a esse divórcio entre elas e o mundo onde tenho de viver. Por que a verdade é esta: o mundo onde tenho de viver não é mais do que a ideia do mundo onde tenho que viver. E se as minhas ideias não me fornecerem pelo menos essa mínima correlação, terei de as abandonar, de as atirar ao lixo. Sempre que passo nos contentores coloridos do lixo que tenho mesmo à saída de casa, dou por mim a ver se encontro um novo, de uma cor inaudita, para a reciclagem de ideias. Ando a adiar mas sei que é isso que um dia vai acontecer. Não suporto mais a dor de uma ideia resistente à compreensão do mundo. Eu poderia dizer que as minhas ideias são generosas demais para o mundo onde vivemos e teria alguma razão. O mundo onde estamos não está apenas mais ingovernável. Está também mais impensável. Mais uma razão para que procuremos as ideias que nos aproximam do mundo.Em mim está para breve, para muito breve. Qualquer dia despeço as minhas ideias, dou-lhes uma indeminização, mando-as para casa. Fico só com o mundo. Talvez nessa altura consiga que ele me imponha uma determinada ideia dele mesmo. Uma ideia com a qula eu consiga conviver. Que me leve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115668457124323295?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115668457124323295/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115668457124323295' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115668457124323295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115668457124323295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/08/sempre-de-noite-que-aqui-venho.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115586193447284655</id><published>2006-08-17T23:26:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.139Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Vão lá fora sentir a respiração da vida</title><content type='html'>Apago a televisão. A luz. Fico apenas com o reflexo do ecrân sobre as teclas. Aprecio a escuridão quando escrevo neste blogue. É o meu refúgio. Por estes dias preciso cada vez mais de um refúgio. Ponho a Norma de Bellini. Alguém a deixou aqui para me cultivar. Aprecio muito por estes dias as pessoas que se aproximam de mim e me deixam coisas, ou que pedem que eu lhes deixe coisas, e elas e as coisas e eu, unidos num desejo sincero de uma vida outra. Há tanta gente distraída desta importância: a procura da felicidade, a sincera procura de felicidade em nós e nos outros nos aproxima, nos torna próximos. Durante estas férias pensei longamente em escrever aqui. Desejava fazê-lo. Este não é um blogue como os outros que eu criei. É um filho único, onde tento só vir quando imbuído de uma tenaz vontade de procurar a escrita verdadeira. Desejava vir aqui, ansiava por isso. Nunca pude. Para o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Reservado o Direito de Admissão&lt;/span&gt; não escrevo em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;cibercafés&lt;/span&gt;. Que alguma coisa seja verdadeira tana minha vida, penso sempre que aqui venho. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;E também não sabia como estar aqui. Parecia-me entretenimento de pequeno burguês satisfeito consigo mesmo vir aqui escrever. Há coisas mais importantes do que procurar a escrita verdadeira, pensava. Não, não pensava. Repetia, papagueava. A escrita, a verdadeira e a falsa, sempre esperou e fez fila para uma data de urgências  que gesticulam muito tentando captar a atenção que não merecem, de que não são merecedoras. Eu escritor de posts não tenho nada mais urgente do que vir aqui e desatar a sangrar. Não há nada que possa ser mais importante. Ou melhor, na minha inutilidade, não há nada que eu saiba fazer que vos possa ser mais prestável. A única coisa que realmente aprendi na minha vida, fosse num palco, como actor, ou na minha secretária solitária, foi a sangrar, a rebentar com as palavras antes de elas me rebentarem a mim. É verdade. Não que o faça bem. Sim, que o faço. Ouso fazê-lo. Dou sentido à minha vida tentanto estar aqui na escuridão da sala a alumiar-me por dentro. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Escrevo e apago. Se alguma coisa me traz para fora da sala, quando volto apago o que escrevi. Quer dizer, apago as palavras. São bosta de boi as palavras que apago. Escrita paradoxal esta: ou de sopetão, parece que incontrolável, ou intercalada de longos silêncios. O que é que é esta forma de escrever com grandes pausas entre uma palavra e a ideia que lhe sucede? Se ainda estiverem aqui estas frases de merda é porque nada me distraiu e me levou daqui para fora e trazendo-me de novo, me mostrou a miserabilidade das palavras que aqui pús. Peço-vos um favor. Leiam estas palavras como se tivessem a ler bosta de boi ou de vaca. E não é um exercício de estilo. É a mais pura verdade. Talçvez seja esta maldita guerra que não me deixa entrar na minha pele. Eu sei que houve um cessar-fogo. Não li, não vi as notícias. Espero que seja um cessar-fogo dos verdadeiros, que tenham deixado de cair bombas em Beirute, Tiro e Haifa. Podem pôr os palanques para o fogo de artíficio, a pirotecnia dos saldos, dos  ganhos e das perdas. Dispenso o folclore. Basta-me saber que há mais umas tantas horas, dias em que o som da morte, os tambores da morte, não se fazem ouvir. Não é muito mas vivemos assim, do pouco que a terra, o céu, os mares e a boa vontade dos homens nos dão. E agora se calhar ainda vou ter de ouvir uns gajos a dizerem-me porque é que eu choro o Líbano e não choro Darfur. E têm tanta razão. Já consigo interiorizar a ideia de que o libanês, o palestiniano, o afegão, o iraquiano, o rabi judeu, sejam meus semelhantes, que quando morrem, morro com eles, e morro a sério, mas aquele negro, aqueles milhares, milhões de negros entregues ao seu azar, ainda não são meus iguais. Ainda não morro com as suas mortes. Não pensei neles um minuto sequer. Estão longe, muito longe, são de um outro planeta. Um lugar onde nunca fui, onde nunca irei provavelmente. Onde não sei se conseguirei ir. Tenho uma paixão romanceada por África mas não sei se conseguirei algum dia ir onde esse meu irmão morre. Talvez quando der na televisão. Quando os seus corpos amontoados, pasto das moscas e dos insectos, me vier novamente dar conta de que a minha ideia de humanidade não passa de uma caricatura da verdadeira humanidade. O que eu escrevo aqui será bosta até esse dia. Poderei entesar a sensibilidade uma meia dúzia como eu mas não deixará de ser merda, merda inodora, incolor, asséptica.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; &lt;br /&gt;Ninguém nem nada me retirou daqui, desta cadeira onde escrevo e eu assim perdi a coragem de apagar. Desculpem o tempo que vos tomei. Não vejam nestas palavras senão a busca sincera das palavras que afinal não escrevi. Talvez porque estou preocupado. A guerra ainda não acabou, está dentro de mim. Enquanto os meus, ou aqueles a quem os meus chamam seus, continuarem a matar, a pilhar, a incendiar, não terei mais paz. E se amanhã uma bomba me rebentar com os cornos, com a minha casa, com a minha família, proíbo a estatística da carne para canhão de me tratar por civil inocente. Eu não preciso da inocência para nada. Precisaria da minha responsabilidade. E precisaria de a compartilhar convosco. Chamaria a isso uma verdadeira democracia. Chamaria uma verdadeira democracia a esse regime que me ajudasse a ver que é possível coexistirmos. Que me educasse para isso, que educasse os meus filhos para isso, que me acordasse todos os dias ao som de clarins para saltar da camarata e ir, canrolando, aprazenteirar-me com o ofício da respiração, da contemplação, da comunhão. Como esse dia está longe! Educámo-nos para o ódio. Para a vil compensação. Volto ao quartel em que nestes últimos dias tenho constituído a minha alma. Há trabalhos a fazer. Trabalhos civis. E agora vão, não percam mais tempo comigo, vão lá fora viver a vida que respira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115586193447284655?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115586193447284655/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115586193447284655' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115586193447284655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115586193447284655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/08/vo-l-fora-sentir-respirao-da-vida.html' title='Vão lá fora sentir a respiração da vida'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115158810785073077</id><published>2006-06-29T13:51:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.140Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Aquilo que vejo naquilo que olho</title><content type='html'>Apenas porque um cansaço se me atravessou os olhos e eu tive de fechá-los durante alguns momentos e depois, reabrindo-os, apanhei com a claridade toda ela junta, apenas por isso me apercebi que eu já não olho as coisas, já não as observo, não as distingo. Talvez seja como  se eu tenha criado uns &lt;span style="font-style:italic;"&gt;cookies&lt;/span&gt; do real e sempre que desperto estabeleça automaticamente uma conexão intuitiva que me repôe as ligações familiares ao meu dia-a-dia. É como se tivesse um simulacro de realidade diante de mim e seja através dele que eu estabeleço as pontes que me permitem conduzir-me pelos dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu problema agora é perceber porque é que eu fiz isto. Porque terei sido eu, pressuponho. Não vejo quem possa ter entrado no meu sistema de percepção e de recepção do mundo e por meio de alterações dos polos e dos fios de transmissão, tenha substituído este mundo real onde eu deveria viver por aquele onde realmente vivo. Teria de ser um trabalho altamente sofisticado e não creio que valha o investimento tecnológico necessário para essa façanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se fui eu, porque é que eu fiz isto? O que ganho com isso? Por exemplo, neste momento estou diante desta magnífico Tejo e há uma imagem que há uns tempos me era habitual: um rebocador, um guindaste, um cargueiro e um pequeno barco para transbordo da carga. É uma imagem bonita. Não tão bela como o Convento de São Vicente de Fora que me ocupa uns trinta por cento do campo visual, mas sem dúvida com mais história. Com mais movimento. A grua varre o convés à procura de carga, baixa-se, recolhe a carga, iça-se de novo, e durante todo este tempo move-se. Quem estará lá? O pavilhão do barco é sueco. Há toda uma rede de conexões que me desperta a imaginação. Os marinheiros. As suas familias. A carga que transportam. A quem a vão entregar. O que declaram transportar.  É um veio quase inesgotável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse que há um tempo que esta imagem me era habitual. É verdade. É uma ligação de verão. É quando o estio vem que eu me detenho a olhar com mais intensidade este rio. Que redescubro o prazer de empunhar os binóculos. Ao meu lado há uma casa com telescópio. A Lisboa que se deita e se levanta com o rio tem olhos sobresselentes, prótesicos. E por ser uma ligação de verão, ao retomá-la neste olhar de veraneio que por estes dias iniciei, estranhei agora este cargueiro, esta história da carga e descarga. Voltamos ao mesmo tema. Eu tenho imagens que não me deixam ver o mundo como ele é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo acompanhar um pouco mais esta ideia das imagens que construo. O que me leva automaticamente para um dos mais recorrentes trabalhos de desconstrução do real que conheço. O teatro. Ouvi durante muitos anos seguidos uma frase que produz sentido em mim: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O teatro ajuda a ver o mundo&lt;/span&gt;". É claro que a partir dos meus melhores anos cresci ao pé de uma incansável retórica apologética dos valores e das práticas teatrais e não é por isso estranho esta naturalidade com que escutei o confiar ao teatro uma relação de maior proximidade com o mundo onde vivo. No entanto isso não basta. O teatro é um choque, uma pancada nos olhos e nos sentidos que, se vêem inseridos num campo de tensão onde o espectador também participa, forçadamente, na experiência de simulação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque é que eu construo ligações familiares com o real e essas ligações, esses links, tem esse condão de me retirar de um confronto com o real? Porque e para quê? Para que é que eu preciso desse véu?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115158810785073077?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115158810785073077/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115158810785073077' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115158810785073077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115158810785073077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/06/aquilo-que-vejo-naquilo-que-olho.html' title='Aquilo que vejo naquilo que olho'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115051674426346056</id><published>2006-06-17T04:52:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.140Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Noite em mim</title><content type='html'>Há qualquer coisa que me constrange o pensamento e à qual não sei apontar o dedo. O sitio de onde vos vejo, e imagino mesmo que sois vós que habitais neste casario que desce até ao rio, é um lugar inaudito. Começo por fechar os olhos e chamar a mim todo o meu dia. Desde que acordei. Esse pequeno músculo da memória rejubila. Os meus braços cansados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115051674426346056?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115051674426346056/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115051674426346056' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115051674426346056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115051674426346056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/06/noite-em-mim.html' title='Noite em mim'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-115041301116529150</id><published>2006-06-15T23:48:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.141Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'></title><content type='html'>Ando aqui às voltas a remoer &lt;a href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114981055031591222"&gt;a tua ideia&lt;/a&gt; de que a solidão é perigosa. O problema não é eu pensar que o perigo só é real quando alguma possibilidade existe de que naquilo que fazemos algo possa reverter a favor do mundo onde vivemos e eu não sei, não sei mesmo se algo é reversível neste mundo. Tramaste-me. A esta hora já é visível para mim próprio que não falo do perigo de cada um. Isso é com cada qual. A expressão indiviudal da vida, da vidinha também. Só existe verdadeiro perigo onde há uma ideia de nós. E é nessa exacta medida que entendo a perigosidade da solidão. Alguém que no desespero de querer encontrar algo mais do que a sua sombra parte para a loucura e aí, paradoxalmente, corre o perigo de se apartar de todos e do seu próprio mundo. Não sei. Talvez seja aí nessa solidão que o ser humano volta a ser humanidade, a humanidade inteira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tramaste-me a sério.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-115041301116529150?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/115041301116529150/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=115041301116529150' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115041301116529150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/115041301116529150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/06/ando-aqui-s-voltas-remoer-tua-ideia-de.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114981055031591222</id><published>2006-06-09T00:19:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.142Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'></title><content type='html'>A beleza do mundo cansa-me mais agora. E não é a beleza do mundo, que o mundo não é belo. O que me cansa não é nem a beleza nem o mundo. É a solidão. O que me cansa é a tresloucada solidão que existe numa porção exacta de beleza, de beleza do mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114981055031591222?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114981055031591222/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114981055031591222' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114981055031591222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114981055031591222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/06/beleza-do-mundo-cansa-me-mais-agora.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114924254360433754</id><published>2006-06-02T10:47:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.143Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Um post excepcionalmente curto não é necessariamente um post excepcional</title><content type='html'>Pode ser apenas um áparte, como neste caso em que um pequeno post vem em defesa dos seus companheiros, grandes postadas. Para confidenciar que aqui não se escrevem posts de quilómetro por que se pense que há aqui algo de extraordinário para dizer. Não há nada de excepcional que não possa ser dito em uma palavra, ou até, sem palavras. Aqui escreve-se longo em primeiro lugar para afastar os tubarões. Depois de se me ter acabado o stock de repelente para esses monstros marinhos, era o mínimo que eu podia fazer. Nunca vi um tubarão que gostasse de posts longos e já cá ando há uns anos. Depois pelo prazer de me plasmar em frente ao computador, sacar os meus karmas poéticos, e navegar, navegar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sem tubarões por perto a arte da navegação é um &lt;em&gt;excelcio&lt;/em&gt;".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114924254360433754?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114924254360433754/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114924254360433754' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114924254360433754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114924254360433754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/06/um-post-excepcionalmente-curto-no.html' title='Um post excepcionalmente curto não é necessariamente um post excepcional'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114918914697967102</id><published>2006-06-01T19:16:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.144Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>O mundo está todo ao contrário</title><content type='html'>&lt;em&gt;"pedem tanto a quem ama:pedem/o amor. Ainda pedem/ a solidão e a loucura."&lt;/em&gt; [1]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou surpreender todos aqueles que nos últimos tempos me têm apontado o pelo eriçado quando falo do amor, do meu amor: &lt;em&gt;não me importo que o amor não exista&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me importo que o amor verdadeiro não exista. Até é melhor assim.  Como não existe, como não pode existir verdadeiramente, se existisse seria falso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu não sei o que poderia ser da nossa vida, da vida que levamos, se olhássemos em frente, no longe que o olhar desassombrado consegue ser, e descobríssemos que ele, o amor, não existe. Uma vida ao redor do amor já é uma vida tão árdua, tão ponderada entre a desistência e o suícidio que eu nem consigo sequer imaginar o que seria uma vida na declarada impossibilidade  do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginem que teríamos de dizer aos nossos filhos: &lt;em&gt;não esperem mais pela primavera. esqueçam o mês de &lt;em&gt;maio&lt;/em&gt;. fodam agora, empranhem a terra com a vossa baba, retomem os ciclos, reproduzam-se, que o amor não existe. &lt;/em&gt; Alguns mais sinceros confessariam: &lt;em&gt;vós mesmos fostes feitos de uma queca, de uma foda científica. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque não tenhamos quaisquer ilusões: o ciclo reprodutivo poderia começar muito mais cedo e não seria também por falta de abastança que ensinariamos os nossos filhos a retardarem-se na procriação. Se assim fosse seria um sinal exterior de riqueza &lt;em&gt;o procriar na adolescência&lt;/em&gt;, ainda ao cair da pelugem imberbe. Ou na própria infância alta, logo que a baba se tornasse uma evidência liquida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, a única razão porque ensinamos os nossos filhos a demorarem-se nos gestos, a tardarem nas carícias, a atrasarem-se na languidez, é porque sabemos que só a obstinação e a perseverança do homem e da mulher na ideia de um amor verdadeiro pode trazer a paz à terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;porque não haverá paz para aquele que ama./Seu ofício é incendiar povoações, roubar e matar,/ e alegrar o mundo, e aterrorizar/ e queimar os lugares reticentes deste mundo&lt;/em&gt;" [1]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é o amor verdadeiro que não existe. É a nossa vida que inexiste. Inexiste na verdade. Não tem nada a ver com o facto de pagarmos os impostos, levarmos os putos à creche, enchermos o carro do ikea, do lidl, do continente e sempre com aquele hálito vazio a travar-nos a boca, nada tem a ver com o não termos lugar no parqueamento da nossa rua, uma rua a que chamamos nossa, com o arrotarmos, com o darmos a vez ao zombi que em nós geme, sacode. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem nada a ver com isso. A vida que levamos levamo-la à nossa imagem e semelhança. Pode parecer muito dificil de repente endemoinharmo-nos e dizermos que não. Ou que basta. Rasgarmos os compromissos, blindarmos a nossa vida a esse cotejar dos talvezes que ruminam os nossos dias. É, seria muito dificil. Mas não seria impossível. Ou quase tão impossível como mudarmos o tempo em nós. Somos bombas-relógio em estado de deflagração que ainda por cima, quase nunca rebentam. Ou que, como naqueles campos minados, explodem sempre tarde demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor verdadeiro não existe porque a vida que levamos é falsa. Só uma vida varrida por um vento de verdade poderia ser bafejada pela sorte de um amor verdadeiro. E digam lá, quando é que foi que a última coisa verdadeira, mas realmente verdadeira, toda a ela verdade, vos passou pelas ventas? Pelas mãos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que insistimos no amor. A nossa insistência no amor é a demonstração matemática de que o amor existe na verdade. É na mentira que o procuramos, é certo, é na mentira que procuramos um amor que só existe na verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho o rio ali em frente e penso, a beleza deste rio invoca a presença do meu amor aqui. Primeiro a beleza, a sua torrente, a sua força, depois o &lt;em&gt;exclameio&lt;/em&gt;: Doiem-me os olhos de estar sempre sozinho diante deste caudal. Necessito de partilhar esta beleza contigo. Primeiro a beleza e a verdade e só depois o amor. O amor só existe na verdade e a verdade é a explanação cartesiana da beleza. Não me perguntem porquê. Custa tanto saber as coisas que não somos capazes de explicar! Parece até que o pensamento se torna físico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou surpreender ainda e mais uma vez aqueles que ao correr do texto resistiram ao espanto: &lt;em&gt;não preciso do amor para nada&lt;/em&gt;. Com o amor, com essa ideia do amor, não consigo sequer imaginar um cabelo teu. Preciso de ti. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso de ti em peças separadas para amar. É diante das tuas pernas, do teu peito, do teu sexo, da humidade do território onde me esperas que eu sou capaz de recriar a  ideia do amor. Ou até, todas as ideias com que um amor é capaz de fazer representar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos teus olhos. Adoro foder os olhos do meu amor. Nunca fui um gajo muito macho e não tenho por isso grandes proezas sexuais a contar, pelo menos daquelas façanhas que me aterrorizaram a adolescência tardia mas tenho algo de incomum: &lt;em&gt;tenho orgasmos múltiplos com o teu olhar dulcíssimo&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que eu sei que não existe o amor verdadeiro. Existes tu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem ti em nenhures. &lt;em&gt;O meu amor és tu&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1]Herberto Helder, In Poesia Toda&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114918914697967102?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114918914697967102/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114918914697967102' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114918914697967102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114918914697967102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/06/o-mundo-est-todo-ao-contrrio.html' title='&lt;a href=&quot;http://oitoecoisa.blogspot.com/2006/06/sobre-existncia-do-amor.html&quot;&gt;O mundo está todo ao contrário&lt;/a&gt;'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114875356790298574</id><published>2006-05-27T18:47:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.144Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>Homem nascido em Maio chega-se  à frente</title><content type='html'>Escreverei ainda em Maio. Escolhi o pior momento para o fazer mas é já certo: escreverei ainda em Maio. Maio é o mês em que nasci e Maio é também o mês de que necessito para me explicar escrevente. Escrevendo. Eu sei, tenho pouco tempo, não devia escrever agora, deveria esperar pelo fim da tarde, talvez lá, olhando o espelho de água que se forma diante da minha janela, pudesse explicar porque é que Maio me pôe fora de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou uma espiga num campo de trigo.&lt;br /&gt;É assim que me vejo deste os primeiros tempos em que comecei a despertar para o prazer de rasgar os campos com papoilas e espigas. Amaria o pão se eu próprio fosse vagem que fosse triturada, moída e remoída, até formar&lt;em&gt; o pão que devora a terra&lt;/em&gt;. A nossa terra, o nosso mundo. Há quem pense erroneamente que do trigo se faz farinha e da farinha se faz massa e da massa se faz pão e do pão se faz alimento e do alimento se nutre a nossa vida. Não poderia haver maior engodo. Basta ver que a nossa vida é um caso sério de desnutrição para percebermos o embuste que este pensamento é.  Aliás,  é por o recusarmos assumir como condição de partida que os silogismos onde escrevemos a verdade dos nossos dias são mancos, coxos e têm medo do mês de Maio. O que se passa é exactamente ao contrário. Não é do pão que nos alimentamos, que se nutre a nosa vida. É a nossa vida que é trincada pelo pão. Tal e qual como se fosse uma maçã. O pão devora toda a nossa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os nossos dias. Não há na história humana retrato mais fiel do holocausto: um homem a comer pão. Atrás dele uma mulher amassa a farinha. As crias humanas atiram bolos de farinha amassados para as goelas das crias em cativeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem a comer pão, eis a imagem. E em torno dele outros homens. Sem pão. O homem pega num pão, glorifica-o, o homem é a imagem violentada de um glorificador de pães, e assiste-se então a um fenómeno raro: a multiplicação dos pães. Seria assim que se teria saciado o mundo na metáfora original do principio da existência compartilhada e solidária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é nada disso que se passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acontece, e acontece terrivelmente, numa mistura de substâncias escorregadias, viscosas, entre o nojo e o horror, o que acontece é que o que se multiplica são as imagens da violentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezenas, centenas, milhares, milhões, biliões de principios reprodutores da violência que na vida humana é a tragédia do pão. O pão multiplica as vidas dos glorificadores de pães. Os glorificadores de pães, quando multiplicados, são fanfarrões, alarves e não sabem&lt;br /&gt;que existe um mês chamado Maio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os glorificadores do pão vivem há tanto tempo como qualquer um de nós e viveram toda uma vida saltando Abril a Junho sem se darem conta de que perdiam um mês em cada ano das suas vidas. E sem estranharem. Os honestos, dedicados, voluntariosos e abnegados servidores do pão nunca estranharam a perda. Saiu-lhes dos dias vividos o mês de Maio e foram-se embora também as espigas, as mulheres grávidas de prazer, aquela foda magnifica entre o feno, o cheiro a estrume entrelaçado com a sombra de fim de tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pão é o principio da multiplicação da perda e da violência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114875356790298574?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114875356790298574/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114875356790298574' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114875356790298574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114875356790298574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/05/homem-nascido-em-maio-chega-se-frente.html' title='Homem nascido em Maio chega-se  à frente'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114726388901099914</id><published>2006-05-10T12:46:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.145Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Terrorismo</title><content type='html'>[&lt;em&gt;depois de ver Terrorismo, dos Irmãos Presniakov, encenação de A.Branco para o grupo da Faculdade de Ciências, na edição do FATAL 2006&lt;/em&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher atravessa a cena, cruzando do lado esquerdo para o lado direito. Voltará, desfazendo o percurso, ou seja, cruzando a cena do lado direito para o lado esquerdo.&lt;br /&gt;Estará sempre de passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso voltarmos a falar de efemeridade, do efémero. Todos que aqui estamos sabemos a nossa condição. A mulher atravessa a cena com um esgar de dor. É pela dor que percebemos que ela não anda.&lt;br /&gt;Arrasta-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um quadro, uma pintura tridimensional. A vida é um frame a três dimensões e é isso que nos estraga o bom humor. Estamos lá dentro. O quadradinho da &lt;em&gt;bd&lt;/em&gt; onde se conta, ou onde se pretende contar a nossa história, é minúsculo, atarracado, e afinal de contas, é toda a nossa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse é o primeiro acto de terror a que estamos sujeitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro das quatro linhas, vamo-nos constituindo com o formato de uma &lt;em&gt;bomba-relógio&lt;/em&gt;. Primeiro o&lt;em&gt; tic-tac&lt;/em&gt;. O batimento cardíaco. Ainda não somos nada, nem placenta, nem matéria, já somos som. Tic-tac. Está-nos no coração e por isso, levamos tempo, muito tempo,  a dissociá-lo do lugar da bondade. Dizemos,&lt;em&gt; o tempo é um benefício dos homens e das mulheres&lt;/em&gt;.  Depois vem a carcassa. Não parece uma bomba. Não parecemos uma bomba. Não há nada de artesanal nisto, na nossa pele, nos nossos ossos. Somos filhos da mais alta tecnologia. No principio e no fim de tudo, &lt;em&gt;tic-tac&lt;/em&gt;. Tic-tac-tic-tac. Não precisaríamos de homens-bomba para percebermos que construímos os dispositivos de terror à nossa imagem e semelhança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos&lt;em&gt; bombas-relógio&lt;/em&gt;. E tal como aquelas minas dos campos de guerra, quase nunca deflagramos.&lt;br /&gt;É ainda a nossa condição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disseste-me ontem, &lt;em&gt;vem comigo. Não posso escapar sozinho. Tenho medo da eternidade sem a tua pele, a tua mão, os teus olhos, a tua voz&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O sexo é excedentário&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa dos dias do sempre o sexo é matéria excedentária. Depois, quando estivermos verdadeiramente sós iremos &lt;em&gt;foder como cães&lt;/em&gt; mas até lá,&lt;br /&gt;é &lt;em&gt;supra-numerário&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Falas sempre da eternidade&lt;/em&gt;? perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de novo o silêncio. O terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis da manhã. Não é preciso ser &lt;em&gt;subúrbio&lt;/em&gt;. Não sei o que fizémos às nossas vidas mas já não é preciso ser &lt;em&gt;subúrbio&lt;/em&gt; para acordarmos com este murro no estômago obrigando-nos a viver uma vida em estado permanente de desaparição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começa pelo pequeno almoço. Pelo duche. A água já não nos lava, é um ritual. O detonador da bomba relógio que nos contém faz tic-tac.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tic-tac.Tic-tac.Tic-Tac.tic-Tac.Tic-tac.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não explode, não deflagra, não rebenta. Tic-tac. Tic-Tac.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu gostava de ver o teu rosto, Mariana&lt;/em&gt;, disse-lhe Leonor. &lt;em&gt;Ontem quando te comi nem tive tempo de te olhar, lembras-te?&lt;/em&gt; E a Leonor a dizer que sim. A acrescentar: &lt;em&gt;parecias um gajo a foder. Até pensei, és o meu gajo. Se fosse sempre assim seria aterrorizador.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Dissseste, aterrorizador?,&lt;/em&gt; perguntou a segunda voz. Ela tinha dito, aterrorizador. A palavra saia do dicionário e começava a flutuar sobre as suas vidas. O significado flutuante é isso, disse o especialista, &lt;em&gt;um significado que vive sobre as vidas das pessoas. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A partir do momento em que encontrámos a palavra, o significado, entramos num corropio. Tudo é terror, tudo nos aterroriza. O Estado pulveriza-se na estupefacção diante da sua exponenciação terrorista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;O Terror sou eu!&lt;/em&gt;, grita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele casal que atravessa a cena fazendo uma oblíqua entre a esquerda alta e a direita alta não sabe ao que vem. Sentou-se no jardim, viu umas flores com cores salpicantes no verde da relva e sentou-se. Depois ela voltou-se para trás e com um esgar de horror,&lt;br /&gt;aquele esgar das pessoas que se confrontaram com o terror, diz:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;-Olha para o lado, meu amor!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele virou-se logo. Já tinha deixado de pensar na forma como o aterrorizava aquele &lt;em&gt;meu amor. &lt;/em&gt;Da forma como temia que ele um dia rebentasse na sua incapacidade de produzir significado para a sua vida e para a da Clara, as suas duas vidas, entrelaçadas, unidas por um nó de marinheiro. Virou-se logo e sossegou, eram apenas flores:&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;São apenas flores, meu amor&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só ele é que sossegou. Ela, cada vez mais agitada, respondeu:&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;São bombas. Flores-relógio. Estamos rodeados de bombas camufladas, meu Deus!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Aquele Deus com que ela amiudadas vezes terminava as frases levou-o a amaldiçoar a sua catequese inacabada. Lembrava-se de que algures, no Livro de Genesis, tinha lido alguma coisa sobre esta transformação das flores em dispositivos deflagráveis e explosivos.&lt;em&gt; O que seria&lt;/em&gt;? pensou, enquanto vasculhava a memória à procura do local onde teria arrumado a Bíblia azul que a mãe lhe tinha oferecido no aniversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Há um superlativo do terror: o tempo. Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac. Se explode é porque rebenta na nossa mão abrindo-a para a matéria sanguínea que nela flui. Se não explode é porque destroçou. Porque desistiu de ser sangue. Compreende-se agora melhor porque é que o terror é a metáfora do nosso tempo. &lt;em&gt;O nosso tempo&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114726388901099914?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114726388901099914/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114726388901099914' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114726388901099914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114726388901099914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/05/terrorismo.html' title='Terrorismo'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114393619755273199</id><published>2006-04-02T00:18:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.146Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>Auto-Retrato</title><content type='html'>Se um dia a puta da morte vier mais cedo e eu me vir assim,&lt;br /&gt;entre a vida que tenho na minha cabeça e a vida que realmente vivi,&lt;br /&gt;provavelmente irei sentir aquele aperto na garganta, no estômago, nos tomates,&lt;br /&gt;e vou ter de reconhecer que as contas me sairam erradas e que&lt;br /&gt;fodi tudo,&lt;br /&gt;que não passei de um cabrão de merda que desperdiçou a sua vida, uma existência que&lt;br /&gt;poderia ser para um outro,&lt;br /&gt;menos cabresto,&lt;br /&gt;um tipo que até podia num rasgo de génio ter simplificado a vida de cada um de nós, a&lt;br /&gt;minha, a tua, a nossa,&lt;br /&gt;que eu não deveria ter sido tanto ou tantas vezes aqui implosão dentro dos meus cornos e deveria ter ido mais amiúde lá fora,&lt;br /&gt;onde as pessoas estão, onde a vida está,&lt;br /&gt;que deveria ter sido menos aquele tipo fixe que sou quando me deito e bate uma pívea com o contentamento de si mesmo,&lt;br /&gt;e não é que eu esteja excessivamente eufórico comigo próprio,&lt;br /&gt;o que se passa é que me eduquei sentimentalmente, afectivamente,&lt;br /&gt;eticamente,&lt;br /&gt;e agora não posso, nem sei, se calhar não quero,&lt;br /&gt;voltar atrás,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dói-me a cabeça com esta angústia de pensar que poderei morrer amanhã,&lt;br /&gt;um minuto antes de demonstrar a incrível teoria que tenho andado a construir com persistente rigor matemático, e a que chamarei, com a extensividade que a ciência reserva à matéria teorética,&lt;br /&gt;o &lt;em&gt;teorema dos primeiros e dos últimos momentos de um homem e de uma mulher nesta vida&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;lugar onde explico com paciente e redobrada meticula e pormenor que um gajo, uma gaja, imersos na euforia do sujeito,&lt;br /&gt;da potência do ser,&lt;br /&gt;da exponenciação do fazer,&lt;br /&gt;começam a viver no maior distanciamento pela ética,&lt;br /&gt;pelo amor,&lt;br /&gt;pelos afectos,&lt;br /&gt;e que só um segundo antes de saberem que vão desaparecer do número dos vivos devem voltar a encontrar-se neste estado de catárse ética, tão parecida com&lt;br /&gt;a do iniciático,&lt;br /&gt;mas que no morrituro já não é aquela apoteose do sujeito que se pensa a salvo de tudo,&lt;br /&gt;sem perceber que é aí que está mais à mercê de tudo o mais,&lt;br /&gt;é mais um&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mi cago en Dios,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;aquele instante em que não se sabe se é desespero se é desassombro,&lt;br /&gt;em que um, ou uma,&lt;br /&gt;se treslouca,&lt;br /&gt;no último rebate da consciência,&lt;br /&gt;e ainda para mais,&lt;br /&gt;de uma consciência as mais das vezes estuporada&lt;br /&gt;no seu tédio desistente de mundo. E o problema é que ninguém, nem mesmo uma&lt;br /&gt;consciência anestesiada pela sua própria dor,&lt;br /&gt;pode, nos seus derradeiros momentos de actividade,&lt;br /&gt;prescindir, ou desistir,&lt;br /&gt;do mundo. Por isso também estar ao pé da &lt;em&gt;morrença&lt;/em&gt; que é morrer é&lt;br /&gt;estar mais perto da vida,&lt;br /&gt;do viver,&lt;br /&gt;se o mundo fosse composto apenas pelos nossos olhares de despedida seria incrivelmente&lt;br /&gt;mais justo, mais frateno, mais igual,&lt;br /&gt;mas não é,&lt;br /&gt;a porra desta vida é este espaço entre o momento em que perdemos a vaidade, a ganância, a auto-piedade, a cagança,&lt;br /&gt;e a extrema-unção agnóstica que um moribundo tem&lt;br /&gt;quando,&lt;br /&gt;alarvemente,&lt;br /&gt;ou na sua alarvidade de bicho,&lt;br /&gt;rebenta com o pús, com as excrescências de uma vida em estado permanente de esvaziamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma clarividência qualquer na morte,&lt;br /&gt;tem de haver,&lt;br /&gt;como o climax de uma vida gasta nas apalpadelas à escuridão,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;tocas-te-lhe&lt;/em&gt;?,&lt;br /&gt;um dia tem de haver uma luz,&lt;br /&gt;pode ser branca,&lt;br /&gt;branca é a morte,&lt;br /&gt;uma luz incandescente,&lt;br /&gt;como um raio,&lt;br /&gt;o último momento perceptivo,&lt;br /&gt;um dia conheci um fotógrafo que tinha um projecto demoníaco,&lt;br /&gt;apanhar esse último instante,&lt;br /&gt;captá-lo na sua pentax,&lt;br /&gt;revelá-lo na câmera escura,&lt;br /&gt;fez disso toda a sua vida,&lt;br /&gt;nunca conseguiu, a morte&lt;br /&gt;é veloz, um minuto antes ou um minuto depois nunca é&lt;br /&gt;o momento em que realmente morremos,&lt;br /&gt;a sua pentax só uma vez captou a face lívida,&lt;br /&gt;branca,&lt;br /&gt;transparente,&lt;br /&gt;de um rosto morrente,&lt;br /&gt;ele nunca viu,&lt;br /&gt;o seu auto-retrato,&lt;br /&gt;o último.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;teorema dos primeiros e dos últimos momentos de um homem e de uma mulher nesta vida&lt;/em&gt; diz então que um ser humano normal,&lt;br /&gt;e a primeira dificuldade começou logo por aí,&lt;br /&gt;como é que se define o que é um ser humano normal?,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;não se define&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;ou define-se como tudo o que é humano,&lt;br /&gt;paradoxalmente,&lt;br /&gt;o ser humano normal é uma definição paradoxal da nossa humanidade,&lt;br /&gt;não há por isso nenhuma normalidade num ser humano normal,&lt;br /&gt;se a houvesse,&lt;br /&gt;ele seria o ser humano ideal,&lt;br /&gt;se fosse gajo por exemplo,&lt;br /&gt;seria o pai, o esposo, o trabalhador, o cidadão, o crente, o eleitor ideal,&lt;br /&gt;e se fosse gaja, seria a mãe, esposa, operária, cidadã, crente, votante ideais&lt;br /&gt;ou os idealizados,&lt;br /&gt;por todos os filhos, esposos e esposas, patrões e patroas, estados e nações,&lt;br /&gt;deuses e divindades, democracias e repúblicas,&lt;br /&gt;e é por isso que,&lt;br /&gt;neste deleite de normalidade que acede quotidiamente ao mundo,&lt;br /&gt;os filhos e as filhas que são eles também pais e mães, os esposos e as esposas,&lt;br /&gt;os patrões e as patroas (que para além de definirem o que é o trabalho, o seu valor, o seu preço, também trabalham sendo por isso, dedicados trabalhadores e trabalhadoras)&lt;br /&gt;os estados e as nações,&lt;br /&gt;os deuses e as divindades, as democracias e as repúblicas,&lt;br /&gt;tudo fazem para que já não haja ninguém normal neste mundo,&lt;br /&gt;e é por isso que todos eles,&lt;br /&gt;e assim, é por causa desta concertação de esforços que a minha teoria,&lt;br /&gt;o meu teorema,&lt;br /&gt;demora tanto a vir ao de cima,&lt;br /&gt;à luz do dia,&lt;br /&gt;ou da noite,&lt;br /&gt;à claridade insana de um pensamento adocicado&lt;br /&gt;pelos longos anos que demorou a ser&lt;br /&gt;pensado,&lt;br /&gt;aquele travo a madeira,&lt;br /&gt;o barril,&lt;br /&gt;e eu poderia mesmo nunca ter descoberto a chave do mistério, da teoria, do teorema,&lt;br /&gt;a de que um ser humano normal é o que descobre a sua condição de ser humano normal e que realiza que perservá-la vale bem o projecto e a dedicação de uma vida, mesmo que exposto permanentemente &lt;em&gt;à ameaça da tentação na forma tentada&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirão alguns que é pouco. Que não se pode consagrar a isto o principio de toda uma vida. Que há mais coisas a fazer. Empresas, negócios, acções para gerir, multiplicar.&lt;br /&gt;A propriedade redistribuitiva da mediocridade.&lt;br /&gt;Não é pouco. É tudo,&lt;br /&gt;ou melhor, há aí nesse despojamento de um face à vaidade, à soberba, à ganância, à jactante apoteose do seu próprio espectáculo de sujeito,&lt;br /&gt;tudo, uma&lt;br /&gt;totalidade que irrompe,&lt;br /&gt;tão sorrateira como a morte repentista. E para isso é necessário tempo. O tempo que nos falta,&lt;br /&gt;que falta à nossa vida. Uma humanidade que não se revele pela sua hora paradoxal&lt;br /&gt;não chega a ser, na sua condição,&lt;br /&gt;humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirão que é pouco e insistirão. Tem sido isso a minha vida, ouvir como insistem,&lt;br /&gt;e ainda nem eu próprio percebi o exacto sentido da palavra&lt;br /&gt;despojado,&lt;br /&gt;humilde,&lt;br /&gt;dedicado,&lt;br /&gt;simples. Ou seja, se tiver sorte já gastei metade da minha vida e ainda não compreendi senão&lt;br /&gt;que a simplicidade,&lt;br /&gt;a humildade,&lt;br /&gt;o despojamento,&lt;br /&gt;a dedicação,&lt;br /&gt;são os únicos senhores que um ser humano pode servir sem abdicar da sua condição normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O negócio é entre cada um e o ar que ele mesmo respira.&lt;br /&gt;Não há mais ninguém no mundo quando a economia decisiva do último sopro se abate sobre&lt;br /&gt;o sujeito devorado pelo exercício da sua própria contabilidade analítica.&lt;br /&gt;É por isso que só os cabrestos desconhecem a terrível dor da morte por asfixia a&lt;br /&gt;que está sujeito,&lt;br /&gt;ou a que se sujeita,&lt;br /&gt;um ser humano imperfeitamente normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema está na materialização demonstrativa do teorema. O homem normal padece da mesma condição demonstrativa desta normalidade reinante. Ele precisa de fazer algo,&lt;br /&gt;e quando digo algo digo por exemplo,&lt;br /&gt;um objecto,&lt;br /&gt;que demonstre o mundo que lhe implode com os cornos. Só que o fazer,&lt;br /&gt;é a doença da vaidade.&lt;br /&gt;Os &lt;em&gt;fazedores&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;são os gajos e as gajas que destroiem o mundo em que vivemos. Os fazedores estuporados&lt;br /&gt;vivem consumindo-se na ideia que a crítica ao seu fazer é a inércia. E em certa medida&lt;br /&gt;têm razão,&lt;br /&gt;razão e vistas curtas,&lt;br /&gt;a inércia é o fazer que o homem normal contrapôe a esse exercício jactante&lt;br /&gt;de fazedura&lt;br /&gt;que assalta o mundo contemporâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a vida que temos é razão desta vista curta que consome as nossas cidades, as nossas ruas, as casas, os nossos lares,&lt;br /&gt;até os nossos amores. Quase tudo o que temos, fazemos, somos&lt;br /&gt;é trampa seca emoldurada na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longo o tempo em que isto se torna clarividente na face lívida do santo que projectamos em nós e que não é mais do que&lt;br /&gt;o pranto do homem normal a desabitar a sua condição de felicidade original. O processo de desfazer um fazedor é tortuoso,&lt;br /&gt;difícil. Primeiro damo-nos conta da &lt;em&gt;não correspondência entre aquilo que fazemos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e aquilo que projectámos fazer&lt;/em&gt;. Essa frustação é o primeiro momento de verdadeira&lt;br /&gt;possibilidade da vida que nos foi entregue,&lt;br /&gt;sabe-se lá em que esconso,&lt;br /&gt;em que beco,&lt;br /&gt;deixaram-na nas nossas mãos e fugiram no breu,&lt;br /&gt;na escuridão,&lt;br /&gt;virão ainda mais uma vez nas trevas para nos fanarem a&lt;br /&gt;vida que não pedimos,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;alguém no seu juízo perfeito&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pediria para viver&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois apercebemos-nos de que as coisas que fazemos não nos fazem. Fazemos,&lt;br /&gt;refazemos,&lt;br /&gt;e cada vez mais divergimos de nós mesmos. A propriedade redistribuitiva da mediocridade&lt;br /&gt;tem dispositivos preparados para tornar o homem e a mulher&lt;br /&gt;insensíveis à sua dor. &lt;em&gt;Vamos ao shopping&lt;/em&gt;!, dizem,&lt;br /&gt;uns e umas,&lt;br /&gt;comprar é o dispositivo preferido dos homens e das mulheres&lt;br /&gt;que, na sua inocência de &lt;em&gt;deuses-prontos-a-montar&lt;/em&gt;, se venderam&lt;br /&gt;a uma ideia que é,&lt;br /&gt;ou seria,&lt;br /&gt;se disso tivessem consciência,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a pior ideia que teriam de si mesmos&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é tudo isso que um gajo e uma gaja tem na última golfada de ar. E é por isso que a morte é branca e cega e não deixa ver. É transparente como um formidável espelho de água. Somos nós a imagem de quando&lt;br /&gt;morremos.&lt;br /&gt;Só há duas maneiras de o realizarmos. Ou naquele exacto momento em que o corpo se desilude da sua forma animada,&lt;br /&gt;ou numa vida que lenta, pacientemente, se &lt;em&gt;desestuporou.&lt;/em&gt; E a tragédia,&lt;br /&gt;é que no primeiro caso é demasiado tarde,&lt;br /&gt;e no segundo,&lt;br /&gt;pode ser demasiado cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que se um dia a puta da morte vier mais cedo e eu me vir assim privado da demonstração do teorema que me agita as mãos, a ideia, o pensamento,&lt;br /&gt;e porque não há glória num mártir de um teorema não provado,&lt;br /&gt;nesmo que sinta e ressinta que nesse sentido não poderia ter feito de outro modo,&lt;br /&gt;porque andar aí pelo mundo com a ambição dos outros, com o querer dos outros,&lt;br /&gt;com os sonhos e os delirios dos outros seria uma forma de,&lt;br /&gt;à partida, lixar tudo antes de tentar,&lt;br /&gt;era como se nunca tivesse existido, e é por isso que se a sacana da morte entrar por aí de sopetão eu para além de tudo o que não fui,&lt;br /&gt;não consegui, não soube ser vou também ter de expiar&lt;br /&gt;essa desgraça de,&lt;br /&gt;com a minha inércia,&lt;br /&gt;ter ajudado a engrandecer a miséria do mundo que me pariu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114393619755273199?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114393619755273199/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114393619755273199' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114393619755273199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114393619755273199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/04/auto-retrato.html' title='Auto-Retrato'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114393299004790634</id><published>2006-04-02T00:09:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.146Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>O Vazio, depois de Lipovetski</title><content type='html'>Agitados os dias deste vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há decerto uma conferência inter-ministerial por fazer: a do anúncio formal, solene, das propriedades químicas do vazio. Por exemplo, sobre o estado agitado das moléculas em estado de esvaziamento. Lembrei-me disso ontem ao ler o desagrado de Margarida Rebelo Pinto e a edição das Couves e Alforrecas do João Pedro George,mas tinha-me recordado disso também na noite anterior quando ouvi o João Mota falar do excesso de mediocridade que grassa nas nossas vidas, e antes, um pouco antes,quando no pátio da Escola Superior de Dança assistia aos trabalhos de apresentação dos alunos e me surpreendia com esta redescoberta que não há como o corpo em movimento para trabalhar o silêncio que a linguagem verbalizada nunca poderá conseguir. Há uma violência doce no gesto compassado,entrecortado à vez pela angústia do que não pode exprimir e pela euforia deter sido discurso,o discurso, volteia lembrar-me disso quando leio sobre as comunidades de leitores na Livraria Almedina, onde gente que lê se reune em nome de um livro, de uma ideia, de um autor.E insisto neste pensamento enquanto hesito sobre discorrer umas patacoadas muito sexis sobre o meu vazio, ouolhar a sério para o de dentro deste últimos vinte anos e pensar que se não for alguma coisa neles que me motive este texto, esta escrita,não valerá a pena o tempo que aqui gasto.E o problema não é o tempo que aqui gasto. Eu gasta-lo-ei sempre pior noutro lugar, noutro tempo, noutro confronto. O pior é que esta obsessão de estar aqui nasce do pressentimento de que em nenhum outro lugar eu posso esperar dar sentido ao tempo que gasto nesta vida.Pode ser uma perspectiva um tanto romântica da existência,poderão até dizer que por desarte nas palavras tento sofrer da patologia dos grandes escritores,e que eles por serem grandes a poderiam sofrer sem despropósito,mas a verdade é que não consigo entender-me,mesmo neste não entendimento absoluto,fora deste momento em que escrevo,e é por isso que tantas vezes bendigo a internet,os blogues,os espaços ciber mundiais,porque desde criança, desde que me puseram a primeira revista da Flama nas mãos, com as histórias do clã Kennedy, de Nixon, eu teria seis anos, em Paris sem eu o saber deitavam-se os livros aos Sena,faziam-se barricadas,no Vietname o napalm alastrava num apocalipse que se imprimiu na minha memória como o primeiro sinal de quedeus poderia não existir,eu teria seis anos e meio, uma cigana tinha deixado um cachorro lá em casa a troco de cinco paus, era uma moeda branca,cinco paus vinham numa moeda branca tal e como como os vinte e cinco tostões,o cachorro fui eu que o amamentei,dava-lhe biberon, no quarto da criada, depoissalinha de estar,dava-lhe biberon e lia-lhe a Flama, o mundo português nas palmas da minha mão,era o fascismo e eu sem o saber,era criança, o meu fascismo era outro, quando a minha mãe não me deixava ver O Santocom o Roger Moore, ou O Fugitivo,talvez o primeiro grande fenómeno mediático da minha infância, o país parava,falava,em todos os lares a história daquele médico que fugia alimentava a esperança de cada um dos meus conterrâneos mafrenses, eles também poderiam fugir,é por isso que depoistamos na ficção os nossos desejos de uma vida outra, de uma vida mais ousada, corajosa, enfim,a vida, euvivia em Mafra, a modista da minha mãe, vim a saber há pouco tempo, talvez fosse a mãe da Hélia Correia, e eu sem o saber, o que eu poderia ter vivido que não vivi senão fosse esta tragédia do tempo que temos para viver não nos ser clarividente antes de o vivermos, de o percorrermos,às vezes vejo fotografias antigas e respira nelas um ar inabitante, impovoado,mesmo,improvável; eu sei. eu seique todo este jorro começou porque eu falei da minha rendição incondicional aos blogues, que mudaram o paradigma do que tinha sido a minha vida, eu que sem escrever me entreguei por completo ao sindrome dos escritores, a da ânsia de me destroçar em significados, de arrasar o templo e de nele imaginar que reconstruo a minha voz,a minha única e mais sentida voz,de tal forma que posso dizer eu, antes e depois dos blogues, da mesma forma que posso escrever sem marca de insucesso, eu antes e depois de me ter morrido o meu pai, ou de me ter nascido o meu filho, repare-se,de me ter nascido e morrido filho e pai,mesmo às duas pessoas fundadoras do que eu sou hoje, e espero que tu meu filho um dia te orgulhes de com cinco anos apenas poderes ser fundador daquilo que um homem de quarenta e três pensa, faz, ama,mesmo nessas duas pessoas eu não prescindo do pronome me, ou seja,são, e são-no apenas, enquanto me afectam.antes dos blogues eu isolava-me para escrever. E como comecei a escrever muito cedo, mesmo antes de dominar o alfabeto,imagine-se o que a escrita foi em mim como experiência de isolamento. Esta partição entre dois mundos quase nunca era respeitada e sempre a desfavor da vida,da vida fora das palavras,esse cenário virtual de uma projecção em 3 D de uma realidade ausente.Quando estava com os outros, deixava de estar com eles, para escrever. Eu tinha todas as doenças dos rapazes tímidos e introvertidos. Olhava as miúdas de soslaio, corava se diziam o meu nome em voz alta (ainda hoje estremeço se alteiam a voz em lugares públicos)bisbilhotava atrás dos buracos da fechadura, e sobretudo pensava,porque essa é a principal patologia dos garotos tímidos e metidos dentro de si próprios,que eu nunca seria tão feliz como os outros,fossem eles o meu mano joão, ou o inácio dos desenhos da mimi, ou cachucho que andava enrolado com as manas alice e bela do Quartel de Mafra.Esse é o drama de todos os que sofrem o sindrome da escrita, independentemente de serem editados, publicados ou terem o Eduardo Prado Coelho a tecer panegíricos às suas obras.Escrevem para se aproximar do mundo, para criarem uma mundividência que possa ser em si mesma uma espécie de comunidade perceptiva, que desenvolva uma sensibilidade e um percurso em comum, um livro é um primeiro passo de um trilho desenhado em comum,- anda, diz o escrevente para o seu presumido leitor,vem e deixa-te enredar por este universo que me deslumbra tanto a ti como a mim, lá fora chamar-me-ão a mim autor e a ti leitor, é um contrato, há muita gente a ganhar a vida com esta armadilha,nós não nos deixaremos ludribriar,neste momento em que me lês eu sinto o calor da tua mão, osangue que te estala nas veias,o mundo que congeminamos congeminamo-lo em conjunto,os dois, sentes a pressão arterial do meu pensamento contraa parede, o muro do teu córtex cerebral? -e no exacto momento em que as palavras são escritas dão-se conta de que há uma condição que as suporta, e essa condição é a solidão, o isolamento, a suspensão de mundo. É claro que o deus que há na linguagem compensa o génio escrevente com outras formas, torna por exemplo a realidade recriada mais verdadeira que a realidade suspendida, na medida em que a realidade que apenas o escritor viveria- e a sua família, ninguém fala nisso, a sua família também é remetida para esta realidade em suspenso,no outro dia ao percorrer a casa da Joana pensei em como era estranho que faltassem coisas do Zeca, só dei com elas quando chegámos ao escritório,até lhe perguntei,"como é que é partilhares o teu pai com tanta gente?", ela sacudiu a cabeça e disse-me para deixar as perguntas dificeis para outro dia,o que é uma forma de dizer,há coisas mais simples na vida -ao atingir o seu estado imaterial, ficcional, se multiplica. Tal como se fora pão. E multiplicando-se passam a ser realidade verdadeira para milhares de pessoas. É claro que se ninguém faz umaconferência interministerial sobre as propriedades do vazio,nomeadamente sobre o seu estado permanente de ebulição, muito menos o governo, e a imprensa em larga medida diz o que o governo, os seus sub-sistemas mandam dizer,não vão decerto abrir um precedente e convocar uma conferência de imprensapara informar sobre a multiplicação de realidades que ocorre quando um de nósse dedica a uma solidão que o esvazia de um mundo ordinário, material,e o coloca lá naquele panteão onde os deuses, se nos fizessem o favor de existir,estariam.Não voltei ao principio para fechar o texto. Não foi um ardil. Este texto não é uma artimanha. Embora provenha das minhas mãos falsas, é o mais verdadeiro que poderia fazer agora. Nasce de uma dor. Uma dor que embora anestesiada não esquece a brutalidade que a pariu.Depois dos blogues, eu nunca deixo de estar online. Ainda há pouco alguém me perguntou se eu estava no messenger. Alguma janela diria que sim. E eu estou aqui. É seguro que não estou em mais nenhum lugar. Este é um lugar divergente. Saiem daqui estradas para todos os lugares do mundo. O facto de saberes que eu estou online, mesmo que não te responda ou que te peça um momento, faz com que esteja contigo, que eu sinta a tua presença enquanto escrevo,- no outro dia queixava-me ao CBS de que num outro servidor não consegui escrever senão posts curtos,e ele expunha-me a sua teoria mágica,escrevia os seus posts offline e depois editava-os,olhei para ele com inveja,eu também gostaria de escrever offline e depois editar,e desaparecer,a verdade é que,sem a minha presença aqui a minha relação com a blogosfera inexistia -Para o mal ou para o bem isto não é um caixote com textos. Eu sei que muita gente admirável, que admiro, que admiro mais ou menos profundamente, pensa nisto como num caixote de textos. Um caixote público. Umcaixote ferido pela sua publicidade.E eu que respiro o mesmo ar de todos eles, sei que comigo não é assim. Vêm-me do teatro, talvez, este ensejo de criar comunidades, de sacrificar a elas a minha presença. Se o meu vazio não for aqui, online,em directo,sem rede,não é vazio. não é nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114393299004790634?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114393299004790634/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114393299004790634' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114393299004790634'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114393299004790634'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/04/o-vazio-depois-de-lipovetski.html' title='O Vazio, depois de Lipovetski'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114400176637684712</id><published>2006-03-23T19:14:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.147Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Contributos para a teoria do filho-da-puta</title><content type='html'>[&lt;em&gt;Acordo para o dia e enquanto caminho pelas ruas apercebo-me de que nada é como eu o penso. As coisas são o que são independentemente da ideia que tenho delas. Não há trégua para o pensamento. Na morte de Fernando Gil que ao menos isso seja clarividente. Não é por as coisas não serem como as penso que vou deixar de as pensar. Há minha maneira os meus pensamentos também saberão ser coisas. As minhas coisas.]&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dou-me conta da fealdade das pessoas. E não são as pessoas,é este drama de sermos nósquando nos arrastamos pelos pavimentos carcomidos pela nossa tristeza alarve. Somos cheios de nós. Quanto mais nos esvaziámos de tudo o que é importante mais cheios de nós atravessamos as ruelas da nossa desaparição.E se pensas que vim aqui falar de pigmeus, das inúmeras espécies de filhos da puta, desengana-te. Se um dia me vires a escancarar a boca para falar deles,poderás dizer com toda a propriedade, erguendo o dedo indicador amestrado com o qual coças os colhões de contentamento:- Olha, ali vai mais um cabrão!E eu serei esse filhanestro que tu apontas e indicas e não terei mais nada para me acompanhar a esse autêntico enterro de mim do que um séquito de vergonha por ter cedidoa essa glória fácil e efémera do mau linguarejar. A verdade é que o reconhecimento da imbecilidade alheia não retira um centímetro àquela disponibilidade cretina com que cada nascituro vem nutrido desde que nasce. Um filho-da-puta só deixa de ser um cabresto quando resolve atacar o seu próprio embuste.Qualquer ser humano não completamente desfadado para a aprendizagem sabe que é verdade o que digo. E também, embora seja preciso mais alguma subtileza para o realizar, uma inteligência mediana adquire em meio quartel de vida que não vale a pena em nenhuma situação - seja pai, irmão, marido, mulher, amigo, que tenha sido atacado por essa doença rara entre as formigas, os aracnídeos e os percevejos, mas pandémica entre os seres humanos, a filha-da-putice - tentar recuperar um filho-da-puta.A piedade cristã é aliás uma das maiores causas de propagação desta pandemia brutal que nos rouba os dias, um a seguir ao outro. E de repente foi a vida toda, inteira, que se escapou entre os dedos. A única atitude a ter para evitar o contágio é passar ao lado. Desocupar o pensamento com a filha-da-putice que se aproxima sorrateira.Ninguém sai vivo da filha-da-putice se não for pelo único buraco de agulha que tem saída de emergência: o escalpe do filho-da-puta ele mesmo em que nos tornámos. Tudo o resto é perda de tempo. Até porque não há coisa que um filho da mãe, um canhestro tenha mais dificuldade em reconhecer do que a sua condição de proxeneta da vida boa que poderíamos ter tido se não nos tivéssemos consumido na filha-da-putice.E não é dele, é mesmo do desvairio,da doença. É assim que está determinado. O espelho do filho-da-puta é atacado por uma solidariedade brutal. Como ele sabe que o cabresto é capaz de conspirar contra a sua própria sombra, contra o seu próprio reflexo, faz como toda a gente: quando o filho-da-puta passa, assobia para o lado.É por isso que um filho-da-puta pode estar um dia a olhar-se ao espelho e em nenhum segundo verá o filho-da-puta que realmente é. Provavelmente até vai telefonar à mãe a perguntar se o viu na tv,na rádio, nas notícias,e a mãe, o pai, o irmão, o amigo, qualquer um que se lhe aproxime nãovai ter coragem para lhe dizer o filho-da-puta que ele realmente é.O problema do filho da puta é exactamente esse. Obriga-nos a um contacto tão demorado com a filha-da-putice que deixemos de perceber que se possa viver sem ela. Tornamo-nos iguais aela para, paradoxalmente,lhe ficarmos imunes.Dou-me conta da fealdade das pessoas. E não são as pessoas, é este drama de ainda termos de ser nós. Apercebo-me até de que aquilo que me permite reparar na fealdade das pessoas é essa beleza originária que cada pessoa, seja ou não um futuro cabresto, transporta. Aaventura humana é maior que a nossa ideia de humanidade. Já não me deixo driblar pelos silogismos: cada filho-da-puta pode ser uma pessoa sem que cada pessoa tenha necessariamente de se acantonar na sua condição de filho-da puta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114400176637684712?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114400176637684712/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114400176637684712' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114400176637684712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114400176637684712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/03/contributos-para-teoria-do-filho-da.html' title='Contributos para a teoria do filho-da-puta'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114057432567644242</id><published>2006-02-22T02:11:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.147Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Rio que corre na minha aldeia'/><title type='text'>O Tejo é um traço de giz que liga duas margens</title><content type='html'>Levar-te-ía a imaginares o Tejo. Dir-te-ía, &lt;em&gt;vê um dorso liso, ligeiramente escamado, com manchas de luz&lt;/em&gt;. Tu interromperes-me-ías, como fazes sempre, e perguntarias, &lt;em&gt;manchas de luz?&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Manchas de luz&lt;/em&gt;, insistiria eu serenamente, como quem está na posse de um segredo. &lt;em&gt;E o que é que há mais&lt;/em&gt;?, perguntarias já meio impaciente. &lt;em&gt;Há quase tudo. Espera, vou contar-te devagar. Por exemplo, sabes o que é um cacilheiro&lt;/em&gt;? Não saberias. Um cacilheiro é um pedaço de giz que atravessa um leito unindo duas margens. &lt;em&gt;Um cacilheiro é isso? Um risco? &lt;/em&gt;Lá ao fundo há casas, as mesmas casas que há aqui. Imagino que são as mesmas casas embora saiba que não são as mesmas. É que não precisam de ser realmente as mesmas casas para que sejam as mesmas casas. São casas mesmificadas. Neste jogo da alteridade possível, quer dizer, do fingirmos que estamos em toda a parte, são a mesmificação do acto de habitar.&lt;em&gt; E há pássaros&lt;/em&gt;?, perguntas, desajustada deste meu tempo de contar. Eu sorrio, começaste a ver por ti própria os lugares onde te levo. Um dia levar-me-ás a visitar os teus lugares improváveis e esperarás de mim o mesmo. Há pássaros. Gaivotas, pombos, aves. Aves batendo as asas, repenicando os ares. &lt;em&gt;Tenho dentro de mim Ícaro, sabias&lt;/em&gt;? Durante o tempo em que fechaste os olhos um cacilheiro saiu do Cais das Colinas (é daí que sairam sempre os meus cacilheiros) e chegou ao outro lado, o Cais do Gingal. Fecho os olhos para ver melhor. As pessoas saiem. Saiem todas mas não saiem de modo igual. Há umas que se voltam ligeiramente saudando o rio. Fazem-no sempre. É este rio que lhes torna o dia-a-dia mais dificil, que as faz demorar, compasso de espera entre as ligações fluviais e terrestes e mesmo assim não conseguem pôr o pé em terra firme sem o saudar. E quantas vezes de manhã, quando o mar está agastado e se agita em espuma e fúria lá vão eles a balançar e enquanto balançam pensam que um dia tudo aquilo pode ir ao fundo, ao fundo de quê?, perguntas,&lt;em&gt; ao fundo do mar&lt;/em&gt;, respondo, desiludindo-te, querias um bocado de metafísica agora. Não há metafísica nestes olhares. Nestes gestos. Há cansaço. Há um devir trapalhão e misericordioso com os resistentes, quer dizer, com os que se aguentam entre as dízimas e as promissórias. &lt;em&gt;Os que morrem devagar, pois duvidas que é a vida que definha no lugar que isto é&lt;/em&gt;? Tu abres os olhos. &lt;em&gt;Para não veres nada sempre é melhor teres os olhos abertos&lt;/em&gt;, pensas. Eu sei os teus pensamentos. Não fui a tempo de te convencer a manteres os olhos fechados mas sei ler os teus pensamentos como outros há que lêem as mãos. &lt;em&gt;Estou a morrer&lt;/em&gt;, dizes. E eu mais uma vez pressinto o que te vai na alma, essa dor antiga, esse remorso de existir, essa memória truncada. Éramos os dois crianças, brincávamos no pátio da escola, tu disseste-me, &lt;em&gt;este é o meu pipi&lt;/em&gt;. E mostraste-mo. O teu pipi era um risco a giz, um traço, entre dois lados. E eu mostrei-te o meu. Enrugado, enfezado - fazíamos sempre este jogo no Inverno, sei lá porquê - com os tomatinhos muito pequeninos. Sabiamos lá naquela altura o que era tusa, nem sei porque me veio isso agora, crescemos, já não me mostras o teu pipi há tanto tempo, a última vez foi antes de morreres, mandaste as lá de casa chamarem-me, &lt;em&gt;a menina quer ver o menino&lt;/em&gt;, disseram-me, eram duas, a da copa e a cozinheira, foi aí que eu percebi que nunca seríamos imortais, eu vou primeiro, disseste, demora o tempo que quiseres, que precisares, emendaste, sabias que por minha vontade eu iria logo contigo, iriamos mostrar as minudências ao pai do Céu, naquela altura o presépio ainda estava inteiro. &lt;em&gt;Lembras-te? &lt;/em&gt;Tens toda a eternidade para pensares nisso, para exercitares a tua memória prodigiosa. Eu só me lembro quando venho a este bocado de giz entre o Cais do Gingal e o Cais das Colinas e fecho os olhos para neste exercício meio sorumbático e necrófilo, me lembrar de ti. Do que fazes em mim. A tua morte acompanha-me deste o dia em que nasci. Se choro é porque choro, se rio é porque rio, mas não há dia nem hora em que me deixes. É a tua morte, dia após dia, minuto após minuto que prepara o chão branco onde me deitarei para sempre. Isto senão me queimarem os ossos, o que não me admirava nada. &lt;em&gt;Ainda estás a olhar o rio&lt;/em&gt;?, perguntas-me. Sabes bem que não, nem te respondo, sabes bem que não. Eu não sei o que se passa comigo, com a escuridão, com as trevas onde mergulho quando aqui venho mas a verdade é que eu só vejo as águas, os pássaros, as manchas de luz, os barcos, os cacilheiros, esses riscos de giz que traça sulcos nas águas, as próprias aves, eu só vejo tudo isso nos primeiros momentos, nos primeiros instantes. Depois fecho os olhos e é contigo que me encontro. Nunca soube quem eras. Ás vezes é-me dado tactear as formas de que te revestes e talvez seja isso ter algum conhecimento sobre quem tu és. Eu costumava-te chamar a minha febre cósmica. Lembras-te? &lt;em&gt;Ou a minha tesão de infinito&lt;/em&gt;. Havia um morro onde eu costumava ir, no término do 44, no Prior Velho, onde tantas e tantas vezes quase te reconheci o rosto. Eu escrevia nessa altura. Escrevia verdadeiramente. Não como agora faço. Com as mãos empanturradas de nada, de coisa nenhuma, de uma vaidade, de um desejo de agradar. Escrevia porque acreditava que se não o fizesse podia morrer. Que não saberia viver sem as palavras. Hoje sei que não. Podemos viver sem nada. Deste que não nos tirem o ar que respiramos, fazemos prodígios com a arte da sobrevivência. A humana condição traça para si grandes propósitos mas a verdade é que despojados de tudo, dignidade, liberdade, continuamos a viver. Essa é a maior afronta que deus nos fez. Não nos fazer reféns do sublime que em nós tange, que em nós vibra. E tu perguntas, &lt;em&gt;o que é que isso tem a ver com este rio&lt;/em&gt;? Tem tudo. &lt;em&gt;O rio mais triste da minha vida triste&lt;/em&gt; foi assim que lhe chamei um dia, lembras-te? Não sei o que faria sem ti. Tenho medo do dia em que me morras, em que me morras definitivamente, irreversívelmente. Em que acorde e não me lembre mais. Imagino acordar e não me lembrar e há qualquer coisa de inimaginável, de irredutível á imagem, de não trabalhável pelo pixel. Acordar e não me lembrar deve ser a mesma coisa do que não acordar. &lt;em&gt;Onde é que começa o gesto, o dia de um amnésico&lt;/em&gt;? E comecará em algum momento? Ou será uma história interminável? Olhar este rio é olhar a morte do nosso mundo. Os barcos que ali andam são os artífices da nossa desaparição. São o fumo e o comércio, dizia o poeta. Dizemos nós. Que nunca a voz se hesite de onde deve estar. Ao pé dos poetas. A água ainda é azul ao longe. Ainda é água. Quantas vezes imaginei a morte súbita deste rio, devorado pela nafta, pelo querosene? E ele, a sua imensa mole aquosa ainda está aqui, ainda me sobreviverá. Será assim também com o mundo? O mundo sobreviverá à minha morte, à morte do meu filho e do seu próprio filho? Quantas gerações teremos ainda para zombar de deus? Quero a política. Alguém mais caridoso que se chegue à frente e que nem que seja com o olhar me indique um lugar onde se lute por algo que valha a pena. Um guichet de uma quimera perdida. Sou um visonário cego, com os olhos retorcidos, virados para dentro. Ainda estou diante deste rio, &lt;em&gt;porque duvidas&lt;/em&gt;? estou diante deste rio mas não sei tudo. Não sei nada. Sei que sofro. Quanto mais feliz sou mais sofro. É um sofrimento de que não me dou conta, é certo. Mas está cá. Do sofrimento não se sofre só quando dele damos conta. Construimos o sofrimento nos dias felizes, sofremo-lo nos ímpares. O facto de não me dar conta do sofrimento de que hoje sofro mais me faz sofrer. Um dia, já sem luz, as trevas virão pedir que me explique. Já imagino o demiurgo: "Explique-me superiormente isto.". Espero não estar enervado nem zangado nesse dia. Tenho uma propensão para estragar tudo nessas alturas. Já me estou a ver, levantando-me, com aquele desprezo arrogante que me vem desde os tempos em que imitava o Marlon Brando e o Paulo Gracindo no espelho da casa dos meus pais, já me imagino a responder-lhe: "&lt;em&gt;Explico-te é a puta que te pariu, seu cabrão de merda&lt;/em&gt;! Vai-te foder." Quem é que o gajo pensa que eu sou? Há aqui gajos que escrevem como se quisessem explicar superiormente isto. Eu não. O mais que consigo e isso é quando me calo, quando me calo totalmente, e acho que em quarenta e três anos de vida só uma vez me calei totalmente, foi há vinte anos, estava na Praia da Marreta em Sagres, o mais que consigo é ficar na dúvida se entendi superiormente isto. O retorno à politica. Como escreveu um dia a Eclair, &lt;em&gt;o amor é o melhor discurso sobre a política&lt;/em&gt;. Por muito que nos engajemos, que façamos bandeiras e que as queimemos, que façamos barricadas disto daquilo, tudo isso não serão mais do que reocupações de mitos que já não nos explicam. O que há entre nós e o mundo não é a fome, não é a desiguladade social, económica e política, não é o petróleo, não é a água. Nem a falta que o foder faz à vida que levamos, como parece quando ouvimos a sexóloga do reino. Tudo isso é importante. Se fodêssemos mais, se tivessemos mais petróleo, se houvesse mais água, se não houvesse tanta fome, se não houvesse tanto fosso entre ricos e pobres, se a pirâmide invertida não servisse só para escrever textos de jornais mas para explicar como se faz e distribui o mundo, talvez nos ocupassemos com outro tipo de destruição do outro, mas não é seguro dizer que não estaríamos a fazer isso mesmo, a destrui-lo. Porque o problema é esta dissidência cósmica de cada um com o universo, e tudo o resto é jogo de penélope escondida com o rabo de fora. Hoje ainda a terra tem recursos para todos e para muitos mais, não é isso que está em causa. O que está em causa é que há um movimento dirigido para o infinito e em que um dia esses recursos se esgotarão. E quando se esgotarem esta dissidência cósmica será o discurso político dominante. Está dentro de nós. Está tão interiorizado no nosso modo de olhar e de ver e de sentir que tivemos também de interiorizar dentro de nós mesmos o discurso da escassez. O discurso da escassez é o discurso do ódio. Porque não há verdadeira escassez. É o ódio que nos instala no medo de que não chegue à nossa vez. Os nossos primeiros interiorizaram-no. Transmitiram-nos isso. Os nossos primeiros antepassados, à luz do que conhecemos hoje, eram riquissimos, poderosos, tinham o mundo todo para eles. Mas se hoje a nossa segurança social, os nossos sistemas fiscais, de saúde, a educação, estão construídos na base do pressuposto terrível da escassez é porque quando isso era perfeitamente desnecessário nos fizeram interiorizar tudo isso. O discurso da escassez é o discurso do ódio. É o discurso da ganância. Faz tão parte do nosso modus vivendi que nem percebemos o quanto é hipócrita à luz dos valores qu apregoamos. É por isso que eu sinto vontade de mandar levar na peida a todos os gajos que explicam superiormente isto. Não há nada a explicar, não há nada de superior nisto. Os nossos tetramilionésimos avós sabiam que daqui a mil anos a Terra iria ser insuficiente para todos. Eu digo daqui a mil anos e há muitos gajos que pegam nos canhestros que explicam superiormente isto e dizem que não é preciso esperar tanto tempo, que esse tempo já chegou. Mas não é verdade. O mundo ainda teria recursos suficientes senão nos tivessemos reproduzido de acordo com o discurso da escassez e do ódio. É entre nós e o cosmos que a coisa se passa. E esse momento ainda tem muitas horas, dias, meses e anos a esperá-lo. Nós não somos o homo sapiens sapiens. Somos o &lt;em&gt;homem ódio&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;o homem escassez&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;o homem filho da puta&lt;/strong&gt;. Nós somos tão modelares nesta interiorização do ódio, que negamos a nós mesmos -ouçam bem, a nós próprios, e cada um por sua vez, eu nego-me a mim, tu negas-te a ti, ele nega-se a si mesmo - o que de mais importante poderia ter esta vida: &lt;em&gt;o amor&lt;/em&gt;. Parece absurdo não é? &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Poderíamos amarmo-nos&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. Poderíamos até termo-nos reproduzido por termos interiorizado em nós a ideia do amor. Alguém consegue imaginar um mundo assim? O que seria do nosso mundo se todos os gestos da nossa vida dissessem isso àcerca de nós próprios, &lt;em&gt;gajos interiorizados por um amor que explica superiormente isto&lt;/em&gt;? E se um dia nos faltasse a água, o petróleo, a comida, o ar que respiramos, aí zangávamo-nos com deus. Mas zangávamo-nos definitivamente. Irreversivelmente. Todos juntos. Não há quem me tire da cabeça esta ideia: &lt;em&gt;&lt;strong&gt;o ódio que sentimos uns pelos os outros é a interiorização do grande ódio que sentimos por deus, pelo nosso devir ou destino, chamemos-lhe ou não maldição.&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114057432567644242?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114057432567644242/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114057432567644242' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114057432567644242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114057432567644242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/02/o-tejo-um-trao-de-giz-que-liga-duas.html' title='O Tejo é um traço de giz que liga duas margens'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-114031803006510684</id><published>2006-02-19T02:09:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.148Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Aquele ar lento e escasso que nos vem da altitude</title><content type='html'>Há vinte anos eu era menos livre. Não sabia que escolhermos o que é a nossa inclinação, a nossa tendência não era apenas a procura da identidade. Também a da liberdade. Não raras vezes por receio de desagradar, ou que me rotulassem de anti-social, deixava-me ficar. &lt;em&gt;Desatinava&lt;/em&gt;, na linguagem dos grupos antigos. Não que tivesse compromissos sociais mais sólidos do que tenho hoje. Não. Não há nenhum dia igual ao de hoje na minha vida. Em tudo. No amor, na amizade, nos lugares. Hoje já não sou dos lugares onde não quero estar. Aprendi isso. As nossas escolhas não implicam mais do que pequenos trechos de poeira e luz que nos apetece seguir. Não podemos estar em todo o lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora apetece-me estar com este pensamento, com esta ideia de que raras são as vezes em que pensamos realmente nas coisas. Ainda há pouco me pediram a opinião. Sobre uma coisa banal. Tanto fazia se era a guerra dos cartoons ou a gaja mais sexy dos écrans cinematográficos. Eu despachei ambas e vim a correr para aqui. Este lugar onde te escrevo e escrevo-te a ti, leitor imprevisto, imprevisível, é o único lugar de onde serei. Pensar não é colocarmo-nos diante de uma dialéctica qualquer - e já percebeu porque é que o mundo está outra vez cada vez mais dialéctico - e engajarmo-nos num dos lados como se a originalidade do pensamento pudesse ser a surpresa com que ocupa um oou outro lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar é abrirmos uma fenda, uma ferida na matéria, na realidade circundante. É refazermos os dados. Há mais pensamento numa não resposta e numa reorganização dos dados do que em mil e um &lt;em&gt;penso&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;acho&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;a minha opinião &lt;/em&gt;é a de que. Estou cansado deste mundo perguiçoso, ufano e satisfeito com as suas dialéticas disponíveis. E se chegamos a isto por uma dor, ou por um cansaço superlativo, ou por outra razão isso não interessa. Chegámos e de lá parece-nos ridículo o mundo despovoado de pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é apenas cansaço. É desejo de vida, de vida outra. A gente sabe isso. Sabemos pouco, por vezes é dificil saber, mas sabemos. Há pouco soube. Cruzei-me com alguém que tinha uma particularidade. Não era o olhar, nem as mãos, ou os cabelos. Aqueles óculos nos olhos cansados. Era o tempo das coisas verdadeiras. Não há como negá-lo, a vida é uma maré. Traz-nos à calmaria da praia e devolve-nos à turbulência. Ninguém está duas vezes no mesmo areal. Já muitas vezes na vida persegui a ideia de uma completude com um outro. Às vezes tudo parece perfeito. E até, perfeito de mais. Mas um dia percebemos que temos de ficar sós de novo. Não porque neguemos o outro, ou o ouro em nós. Mas porque esta inquitetude tem de encontrar um impeto que lhe faça frente, que lhe diga, segue-me. Não te preocupes nunca com os amores que já amaste e todos aqueles que amarás um dia ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguma vez nos doerem os olhos apenas que não nos doam porque termos desistido de procurar o tempo das coisas verdadeiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo das coisas verdadeiras. As coisas são verdade de formas diferentes ao longo da nossa vida. As coisas verdadeiras aos vinte não são as mesmas do que aos trinta, ou aos quarenta. As coisas que quero não são nem coisas, nem desejos, nem coisas que quero. São coisas que se foram elaborando em mim ao ver formas humanas tomarem a maneira de ser das crisálidas. Se depois esvoaçaram à minha frente é outra história. Umas sim, outras não. Mas esta forma de ser pele que cai e se renova, de ser tempo a passar pelas coisas, isso fica de certeza incrustado nas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro e fecho os olhos várias vezes nesta noite a que chamo a minha noite. Há um indício feliz no que aqui se respira. Tem de haver. Não nascemos para sermos aqueles que se iludem com a verdade. Levo os olhos à boca enquanto retiro as filas de fotos que me sobrevém a todas as noites que passaram. Nove meses é o tempo da gestação de um criança. Pode também ser o de desfazer um equívoco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os equívocos são saborosos. São deliciosos muitos. Sabem a sal, sabem a mar, sabem a vento. Especiaria fina de uma vida que deixamos aos bocados. Fazer, desfazer. Refazer. Volto a colocar a fileira de imagens que me aquieta o sono. És tu nessa tua forma persistente de continuares aí. Que não nos doam os olhos de procurarmos. Que apenas nos doam quando desistimos de procurarmos os tempos das coisas mais verdadeiras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-114031803006510684?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/114031803006510684/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=114031803006510684' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114031803006510684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/114031803006510684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/02/aquele-ar-lento-e-escasso-que-nos-vem.html' title='Aquele ar lento e escasso que nos vem da altitude'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113898641151736438</id><published>2006-02-03T17:05:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.149Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-retratos'/><title type='text'>O do meio</title><content type='html'>&lt;img src="http://jpn.no.sapo.pt/fotos/jfn.jpg" p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorei muito tempo a perceber a falta que me fizeram as conversas que não tivémos. Os dias que não passámos. Eu nunca te disse, eu nunca te disse nada. Nem tu sabias, não tinhas que saber. Mas de facto o que sou é mais aquilo que fui ou não fui contigo do que se tivéssemos sido dois gémeos siameses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que tenho esta inclinação para me devorar num medo de não ser aceite. Eu sei, já sofri mais com isso do que sofro agora. Hoje é até um modo de me livrar de muito tédio, muito aborrecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando hoje sofro, sofro mais profundamente. Fico a latejar, em ferida. Aquele aperto no peito que já não sentia desde que deixei de ter medo das trovoadas. Eu serei sempre o do meio. O mal amado. Aquele para quem quase nunca será suficiente o afecto. Nunca é demais mas é sempre de menos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113898641151736438?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113898641151736438/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113898641151736438' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113898641151736438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113898641151736438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/02/o-do-meio.html' title='O do meio'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113879829468374827</id><published>2006-02-01T12:48:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.149Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O que é que é um post político?'/><title type='text'>Território Ocupado</title><content type='html'>Se eu fosse grego, um daqueles homens da antiguidade clássica, começaria por discorrer sobre a forma como a obsessão é uma ocupação do espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque uma ocupação violenta, é uma violentação do espirito. Faz todo o sentido por isso um para si mesmo dizer que se investe de uma contra-ocupação e que esta é a sua parte no trabalho de libertar o espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há no entanto uma ressalva: nós, os obsessivos, não seriamos quem somos  sem esta permanente obsessão na nossa fragilidade. Como poderemos libertar-nos e ao nosso espirito sem deixarmos de ser quem somos?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113879829468374827?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113879829468374827/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113879829468374827' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113879829468374827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113879829468374827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/02/territrio-ocupado.html' title='Território Ocupado'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113872331729486899</id><published>2006-01-31T15:59:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.150Z</updated><title type='text'>Reverberação</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;Tu escreves para que&lt;br /&gt;no fundo de cada palavra&lt;br /&gt;vibre o que não pode ser pronunciado&lt;br /&gt;e que as coisas se retraiam&lt;br /&gt;sob a forma do seu silêncio&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;António Ramos Rosa&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Roubado &lt;a href="http://umdiaamenos.blogspot.com/"&gt;aqui.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113872331729486899?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113872331729486899/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113872331729486899' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872331729486899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872331729486899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/reverberao.html' title='Reverberação'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113872255614516492</id><published>2006-01-31T15:44:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.151Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Masculino</title><content type='html'>Sorrio para o vento. Faz tempo. Apetece-me ir para longe, para um lugar que não existe. Lá onde um homem e uma mulher não sejam apenas um homem e uma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sempre a propósito da dor que descobrimos que virámos o mundo de pernas para o ar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113872255614516492?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113872255614516492/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113872255614516492' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872255614516492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872255614516492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/masculino.html' title='Masculino'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113872149941256141</id><published>2006-01-31T15:26:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.151Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Moldar</title><content type='html'>Espalho o barro na mesa. As ferramentas. Tecks. Outras que fui arranjando. Da argila faço um pouco daquilo que sou. Uma amálgama retorcida, aparada, misto de sensibilidade e frieza. Na minha gelatina tremente, sou capaz de morrer em segundos. Sempre fui assim. Antecipei as mortes e com isso fui perdendo vidas. Tenho mais de sete em cada mão e nem falo dos pés. As mortes a mim renovam-me. São outras tantas. E quanto mais morro mais vivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113872149941256141?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113872149941256141/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113872149941256141' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872149941256141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872149941256141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/moldar.html' title='Moldar'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113872107717903605</id><published>2006-01-31T15:19:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.152Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='todos os posts sobre o amor são ridiculos'/><title type='text'>Clarividência</title><content type='html'>Acordei com os olhos fechados. Cerrei-os ainda mais. Fazia força nas pálpebras, impedindo a luz de entrar. Impedindo o meu amor de entrar. Julgando que conseguia assim construir um dique à luz. A tudo. As palavras dissidentes avançavam na sua crueza. Na sua nudez.  Só depois de ter assegurado as trevas abri os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nesse momento percebi tudo.  Percebi-te a ti, ao meu lado,  até ao fim do horizonte vísivel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113872107717903605?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113872107717903605/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113872107717903605' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872107717903605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113872107717903605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/clarividncia.html' title='Clarividência'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113871494438150104</id><published>2006-01-31T13:34:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.152Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Paisagem sem Título</title><content type='html'>Tenho a pele a latejar. Mal vejo o chão que piso. Tiro os óculos míopes. Não sei de onde sou, para onde. Não sei nada. Amanhã vou armar-me em forte e dizer que a vida é assim, sem se saber de destino nem por onde. Agora atiro-me de cabeça para a frente. Não me interessam palavras-segurança. Cada um de nós é luz onde se escurece, onde se amedronta, onde treme. Calhou que fosse agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei porquê. Eu sei porque me sinto corajoso agora. É o meu segredo. Que partilho. Mas não aqui. Mas não vou falar mais da coragem. Não me interessa. O meu FMI ainda está agora a começar. Quero berrar. Atirar-me para o chão. Maldizer. Só depois os bombos e os adufes. O mar da Ericeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele espanto. Aquele espanto menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo inquietar-me com ela a meu lado. Parece-me sempre que é uma tempestade num copo de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou por isso escrever sobre o amor como se me zangasse.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113871494438150104?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113871494438150104/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113871494438150104' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113871494438150104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113871494438150104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/paisagem-sem-ttulo.html' title='Paisagem sem Título'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113862642951376072</id><published>2006-01-30T13:01:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.153Z</updated><title type='text'>Caim e Abel</title><content type='html'>No primeiro dia em que eu nasci comecei a sofrer de uma dor que eu não sabia. Durante trinta anos construí essa dor sem saber que era arquitecto de mim mesmo. Um dia coloquei uma pedra. No outro dia outra. Mais uma e ainda outra. Eu tinha quatro, seis, sete anos, não sabia a consequência. O futuro era o dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia que o lego era a menor das construções com que eu me entretia. Era a mim mesmo que eu juntava bocado a bocado de um puzzle que só mais tarde se iluminou. Eu tinha-me construído na sombra de Abel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos trinta e tantos anos descobri-o. Estava num&lt;em&gt; workshoop&lt;/em&gt;, apontaram-me o caminho, disseram-me, &lt;em&gt;este é o teu tema&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde essa altura que desmonto o lego, este jogo de construção com que me entretive até aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia vou matar o Caim que há em mim. Nesse dia - liberto do meu ódio- vou entregar-me por inteiro ao meu maior desejo. Consumir-me no nosso amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou amar-te só a ti.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113862642951376072?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113862642951376072/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113862642951376072' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113862642951376072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113862642951376072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/caim-e-abel.html' title='Caim e Abel'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113759289518798655</id><published>2006-01-18T13:56:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.154Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Oração descrente</title><content type='html'>Procuro uma fúria furiosa. Um sinal de terra, de pó dos caminhos nos meus cabelos. Uma fúria que arrebente com a modorra. Com o não saber viver. O meu não saber viver. Preciso de ter as mãos sujas. As mãos sujas com o sangue das luas femininas que já amei. Dai-me também coragem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falta-me a coragem para fazer o que digo, o que já não digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não preciso de tempo. O tempo que me deste basta e até é demais. Sobram-me as horas, os minutos e os segundos que consumo neste não saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero que me ensines a rezar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113759289518798655?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113759289518798655/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113759289518798655' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113759289518798655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113759289518798655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2006/01/orao-descrente.html' title='Oração descrente'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113354637271687636</id><published>2005-12-02T17:59:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.154Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Não Escrita</title><content type='html'>Este blogue é construído com os posts que escrevo mas, principalmente, com os que não escrevo. Quando venho aqui e desisto de escrever, encontro-me numa teimosia, numa procura de uma essencialidade qualquer. Os posts que escrevo ficam sempre aquém. Os que não escrevo são sempre além.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113354637271687636?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113354637271687636/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113354637271687636' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113354637271687636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113354637271687636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/12/no-escrita.html' title='Não Escrita'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113354568508115567</id><published>2005-12-02T17:37:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.155Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><title type='text'>Gero Arte</title><content type='html'>Vão-se embora por favor.&lt;br /&gt;Voltem daqui a três semanas, um mês. Tempo para arrumar a casa, fazer algumas, duas ou três perguntas essenciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das perguntas que eu quero fazer é sobre a arte, a criação artística. O lugar que elas ocupam na minha vida. Nas nossas vidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando faço esta pergunta vejo um enorme silêncio plantado no meio de um espaço de onde emergem mil e um ícones, mensagens. Já foi mais dificil perceber o mundo, já foi bem mais apaixonante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que tudo, o universo inteiro cabe numa desculpa. O homem é a desculpa de deus e deus deve desculpar-se com a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é batota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devemos fazer uma frente contra a forma como perdemos a vez. A nossa vez. Ainda não sei o que isto quer dizer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113354568508115567?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113354568508115567/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113354568508115567' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113354568508115567'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113354568508115567'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/12/gero-arte.html' title='Gero Arte'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-113340126126629373</id><published>2005-12-01T01:11:00.000Z</published><updated>2010-02-23T17:43:51.155Z</updated><title type='text'>Web Café</title><content type='html'>Este é um daqueles dias tipicos em que palpito de repente. Por uma ideia. Percorro o Bairro Alto à procura de um ciber café. Apetece-me escrever. O teclado tem letras gastas. O &lt;em&gt;a&lt;/em&gt; não se vê. O &lt;em&gt;s&lt;/em&gt; pressente-se. E o &lt;em&gt;e&lt;/em&gt; intui-se. Vislumbra-se também com alguma dificuldade o &lt;em&gt;o&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;l&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;n&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;m&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;l&lt;/em&gt; e o &lt;em&gt;c&lt;/em&gt;. Tento imaginar a razão porque se gastaram estas letras mais do que as outras. Seria um exercicio digno daquele jogo muito em voga hoje, o &lt;em&gt;soduku&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gastam-se as letras e as palavras. Há letras e palavras que uso com mais frequência. E tudo isso me interessa mas não é interessante agora. Enquanto ando pelas ruas do Bairro Alto à procura do ciber café, que eu sei como é mas não onde está, parece-me que entre a Rua da Rosa e a Rua da Atalaia, sinto mais uma vez que me falta viver o mais importante da vida. Vejo as ruas pejadas de jovens, vejo-me há vinte anos aqui, entre a Mascote da Atalaia, as Catacumbas e o Arroz Doce e percebo que a vida está feita para nos tramar. Para nos escapar. Armadilhamos a nossa vida toda e isso vem detrás. Por isso admiro cada vez mais quem faz da vida uma constante aventura. Quem consegue estar com as pessoas e inconpatibilizar-se com a merda de vida que elas têm. É preciso sermos amáveis, doces, pueris, simples, é necessário andarmos por um chão de arminho e erva doce, saborearmos a hortelã, mastigarmos alecrim, jasmim e manjerona, mas também urge dizer que há vidas, há modos de viver, há atitudes, gestos, comportamentos que denegam a nossa humanidade prometida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem consegue continuar a perceber a importância da poesia para revelar a polaroid, o instante contemporãneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há barulho lá fora. Escrevo melhor com esta agitação exterior. Cá dentro a paz, a calma. Apetece-me morrer numa palavra e renascer logo a seguir no alfabeto libertado. Há que escavar um silêncio profundo no seio do linguarejar. Libertar as palavras da sua reiterada, premeditada e continuada usura. Exploração. As palavras esvaídas. &lt;em&gt;Palavras-Putas&lt;/em&gt;. Escrevo com palavras que se prostituiem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu queria era perceber para onde vai este fluir, este rio. Para onde correm estas águas. Queria sair deste ciber café e viver a minha vida a sério. Realizar sonhos. Os meus sonhos. Cheguei a uma altura da minha vida onde posso pela primeira vez ser consequente. Onde posso fazer. Eu que sempre brami contra os fazedores, eu que sempre vi neles uma inépcia, uma incapacidade para descobrirem o que deve ser feito, sinto-me pronto para fazer. Não um fazer final. Um fazer ponto de partida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltar às pessoas. E não é voltar ao humano. Às utopias de adolescente e jovem. Não é regressar. É ir. Depois das ideias, a respiração. O calor dos corpos, das vidas. Os cheiros. Olhares. Um gajo ser trespassado por olhares é fabuloso porvir. Não preciso de dizer palavrões nem de arrolar indecências para se perceber o óbvio: &lt;em&gt;estou a falar de tesão&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltar ao espaço e ao tempo como condições indissociáveis da nossa humanidade. O tempo, não o sabemos, é uma construção interna, interior, uterina. O nosso relógio ficou no útero materno, de lá só trouxemos uma batida com a qual procuramos o ômega mundial que em nós respira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho nenhuma descrença em nada. O mundo, essa batalha multiforme segue o seu caminho. Vá por onde vai eu vou com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vadiagem pura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-113340126126629373?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/113340126126629373/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=113340126126629373' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113340126126629373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/113340126126629373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/12/web-caf.html' title='Web Café'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112930889100580271</id><published>2005-10-14T17:45:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.156Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Quarto de infância</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;em&gt;A poesia abandonará o mundo um segundo antes do estertor poético de todas as cousas.&lt;/em&gt; &lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei à procura de um lugar para ficar sózinho e dei conta de que era este. Aqui é o único sitio do mundo onde quero estar agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Posso falar contigo&lt;/em&gt;?, dizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica aí, a um canto. Mando-te chamar se for preciso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Procuro uma escrita rude, seca, gélida, triste, agnóstica&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho um bicho a corroer-me o estômago. Por dentro, come-me. Estou a ficar oco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bocejei agora. Todo o mundo me entedia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo sem pensar. Sem amor. Sem nada. Se eu não conseguir uma escrita livre de uma ideia, de ti, não&lt;br /&gt;voltarei a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero encontrar alguém que se queira evadir para o fim do mundo. Viagem ao centro da Terra. Alguém que queira lutar comigo. Quero &lt;em&gt;lutar pelos imbondeiros da minha infância&lt;/em&gt;, escreveu um dia ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tenho nomes de pessoas como se fossem títulos da minha vida&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fodo o ar que respiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero voltar atrás. Tudo é menos do que isto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apetecem-me os nomes, das gajas, dos gajos, dos lugares. Fomos todos a desorte do que nunca tentámos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não disse palavrões, Mãe&lt;/em&gt;. Eu só disse que o Manel fodeu tudo e que ele e o Carlos se juntaram para dar cabo desta merda toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Fala comigo, Mãe&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Tu nunca dizes que gostas de mim.  Estou aqui sentado há dois dias à porta do teu quarto à espera que me digas que gostas de mim&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho a cabeça cheia de dores. Trampa. Bosta de boi. A minha cabeça rebenta com o meu vazio, com &lt;br /&gt;&lt;em&gt;a minha vontade de chorar, mãe&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã, quando tu estiveres longe, &lt;em&gt;não, não é longe no meu afecto, nunca estarás suficientemente longe assim&lt;/em&gt;, mas quando estiveres longe eu vou andar a saltitar de um colo para outro, eu vou andar constantemente a perguntar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;gostas de mim&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é uma ameaça, mãe. É o futuro. Ser triste é ver a vida toda para trás e para a frente, &lt;br /&gt;é dar cabo disto tudo, é rebentar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mãe, eu vejo o meu futuro, a minha dor, dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta anos à frente,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;eu vejo até a minha morte, mãe&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu não sabes o que é a gente ver a nossa própria morte! Não podes saber. Senão chamavas-me e dizias,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;gosto de ti&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabes o que é andar a minha vida toda, a minha vida inteira a perguntar a quem passa, a ti, a mim, a ela, eles, a toda a gente, perguntar até ao próprio vento, à chuva, à sorte,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;gostam de mim?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabes o que é andar à deriva os dias todos que a vida tem? Todos os minutos, os segundos. &lt;em&gt;Eu vou morrer, mãe&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vou matar-me neste invólucro triste em que desnasço de cada vez que choro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho uma utopia, mãe&lt;br /&gt;&lt;em&gt;se eu rebentar o dique, a água, a minha água, serei de novo do número dos vivos&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Posso falar, contigo&lt;/em&gt;?, insistes, e eu compreendo, não te quero, nunca te quis, nunca te quererei, &lt;br /&gt;fica aí a um canto, mandar-te-ei chamar se for preciso. &lt;em&gt;Mas só quando eu quiser. Antes não.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Há muito a lutar e fazer e criar aqui, entre nós&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lambo a ferida. Gosto de lamber feridas como gosto de lamber as rachas das gajas. Digo &lt;em&gt;rachas&lt;/em&gt; porque não gosto de dizer &lt;em&gt;conas&lt;/em&gt;. Preferiria dizer lábios, mas poderiam pensar que eu estaria a falar das bocas das mulheres, e não, eu estaria a falar dos lábios interiores humedecidos pelo desejo,&lt;br /&gt;por aquele colostro que acompanha o sémen à porta da criação do mundo. Os lábios da vulva. Mas também não gosto de dizer vulva. Não é uma questão de ambiguidade,&lt;br /&gt;se eu dissesse que gosto de lamber os lábios das vulvas das mulheres até um débil mental saberia que eu estaria a falar das &lt;em&gt;conas&lt;/em&gt; delas, &lt;em&gt;é uma&lt;br /&gt;questão estética.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É também por causa da beleza que eu nunca lamberia os lábios da vulva da Virgem Maria. E muito menos a &lt;em&gt;foderia&lt;/em&gt;. Nem mesmo com preservativo. Não há camisa de vénus que impeça a cavalgada hipócrita da redenção do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a beleza está presente desde o primeiro dia do mundo mesmo que fales de conas, de rachas ou de vulvas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca te esqueças disso. É por se esqueceram disso que muita gente morre viva. Há gente até que se mata. Aos soluços, quotidianamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A beleza estará presente até ao último dia da criação do mundo e o último dia será todo consagrado à sua destruição. Ao estertor poético de todas as cousas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112930889100580271?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112930889100580271/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112930889100580271' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112930889100580271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112930889100580271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/10/quarto-de-infncia.html' title='Quarto de infância'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112742613266713486</id><published>2005-09-22T22:47:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.156Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'></title><content type='html'>Onde?&lt;br /&gt;A rua deserta.&lt;br /&gt;Há uma sombra, um pedaço de esquecimento a soltar-se do paredão. O&lt;br /&gt;estuque. &lt;br /&gt;Ouço uma canção. Acompanhada por uma máquina de música, uma máquina de música colorida como aquela que encontrei uma vez em frente ao Pompidou.&lt;br /&gt;Talvez Paris me sossegasse agora. Apetece-me aquela loja de brinquedos de corda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estás?&lt;br /&gt;Negro, branco. Ouço um ruído atrás das minhas costas. Sou eu. Sou eu que nunca mais descolo de mim. &lt;br /&gt;O amor é a política e a política é o amor. Tão extremadamente o amor é na política que se torna a sua morte. O amor é a morte da política. Porque a política é a arte da negociação.&lt;br /&gt;E o amor é inegociável.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112742613266713486?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112742613266713486/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112742613266713486' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112742613266713486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112742613266713486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/09/onde-rua-deserta.html' title=''/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112674988296271499</id><published>2005-09-15T02:57:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.157Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Homem-museu</title><content type='html'>Tenho medo de me esquecer. De me falharem as coisas. De criar lapsos, espaços em branco, fendas, entre as ideias, os pensamentos. O próprio acto de pensar. Porque não me consigo imaginar a esquecer sem que isso seja uma dor exacta, a dor do esquecimento. Já todos escreveram sobre a memória. Sobre o esquecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O texto arranha a folha, ouve-se o silvar do papel. Falar do esquecimento é importante. Em contramão ao labor sobre a memória, muitos de nós esquecem-se. E depois fico com a sensação que trabalhamos a memória não para nos lembrarmos, sim para nos esquecermos. Para construirmos caminhos direitos em relação ao passado, veredas que nos protejam de uma possível irrupção violenta da memória sobre a nossa vida. Para que o que vivemos não nos caia em cima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez tão assustador como o homem que perdeu a memória seja o homem que se lembrava de tudo. Temos medo disso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112674988296271499?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112674988296271499/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112674988296271499' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112674988296271499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112674988296271499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/09/homem-museu.html' title='Homem-museu'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112584056876544727</id><published>2005-09-04T14:17:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.158Z</updated><title type='text'>Automatismo</title><content type='html'>- Não quero escrever sobre o que faço quando escrevo.&lt;br /&gt;Não escrevas. Não escrevas sobre o que fazes quando escreves. &lt;br /&gt;- Não tenho nada contra esse género de escrita. Não quero.&lt;br /&gt;Podes não querer. Porque haverias de querer?&lt;br /&gt;- Há palavras que eu não posso dizer.&lt;br /&gt;Estou farto das tuas inpossibilidades. Escreves ou não?&lt;br /&gt;- Estou a limpar a mesa das tuas migalhas.&lt;br /&gt;Não gosto que me digas as tuas migalhas. São tanto minhas como tuas: nérpia. São as migalhas de outras coisas que usámos.&lt;br /&gt;- Tu é que usaste.&lt;br /&gt;Os foste usado. Que importa?!&lt;br /&gt;- Seja lá como for vou para sul.&lt;br /&gt;Todas as palavras vão para sul. Não há outro modo de ser palavra senão ser texto virado a sul.&lt;br /&gt;- Essa ideia da escrita automática é apenas uma ideia.&lt;br /&gt;Eu sei.&lt;br /&gt;- Eu não estava a dizer que não sabias.&lt;br /&gt;Eu sei que não estavas.&lt;br /&gt;- Porque é que tens de ser tão sabe-tudo?&lt;br /&gt;Não sou sabe-tudo. &lt;br /&gt;- África, Ásia, América...&lt;br /&gt;- Oceânia. Europa.&lt;br /&gt;Não estava a recitar. Estava a ocupar.&lt;br /&gt;-Tens uma estranha forma de o fazer.&lt;br /&gt;A geografia é uma ciência estranha. Estou onde, eu?&lt;br /&gt;- Há um furacão.&lt;br /&gt;Há fome. A fome é um furacão sem vento nem chuva. Seco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112584056876544727?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112584056876544727/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112584056876544727' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112584056876544727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112584056876544727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/09/automatismo.html' title='Automatismo'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112453484671201005</id><published>2005-08-20T11:39:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.158Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>A voz cresce o esquecimento</title><content type='html'>Ele - Gostava de que ao falar se tornasse claro o lugar onde estou.&lt;br /&gt;Ela - Estás? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estamos. Esqueci-me.&lt;br /&gt;Ela - Viémos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sei.&lt;br /&gt;Ela - Pareceu-me extraordinariamente natural que viéssemos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - A mim também.&lt;br /&gt;Ela - Esqueceste-te de mais alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Creio que não. &lt;br /&gt;Ela - E se te tivesses esquecido só quando desses pela falta é que reparavas. É sempre assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não me esqueci de nada.&lt;br /&gt;Ela - Lembras-te de tudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não, claro que não. &lt;br /&gt;Ela - Eu achei perfeitamente natural que viéssemos juntos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu também.&lt;br /&gt;Ela - A minha mãe telefonou-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Telefonou?&lt;br /&gt;Ela - Perguntou se tu te lembravas do dia do aniversário dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Lembro.&lt;br /&gt;Ela - A Sério?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Claro que me lembro. Dois meses antes ela começa a telefonar a perguntar se me lembro do dia em que ela faz anos.&lt;br /&gt;Ela - E que também é o dia em que ela se casou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - É de família. &lt;br /&gt;Ela - O que é que é de família?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Essa mania de juntar tudo, de misturar tudo. &lt;br /&gt;Ela - Sempre gostaste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Na comida gosto. &lt;br /&gt;Ela - Até dizias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - ...&lt;br /&gt;Ela - Lembras-te do que é que dizias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Era importante?&lt;br /&gt;Ela - O que tu dizias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sim.&lt;br /&gt;Ela - Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sabia.&lt;br /&gt;Ela - ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sempre soube que não ligavas pevide ao que eu digo.&lt;br /&gt;Ela - A minha mãe perguntou-me se nós vinhamos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Vimos sempre.&lt;br /&gt;Ela - Foi o que eu lhe respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - É natural.&lt;br /&gt;Ela - Foi o que eu lhe respondi. &lt;em&gt;É natural, mãe&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Eu e o Jorge somos casados há mais de quinze anos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - E ela?&lt;br /&gt;Ela - Respondeu-me qualquer coisa inaudível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - O quê?&lt;br /&gt;Ela - Já disse, não ouvi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não acredito. Falou do teu pai.&lt;br /&gt;Ela - Falou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Ela nunca esquece essa história. &lt;br /&gt;Ela - Não sei se eu era capaz de esquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Mas não gosto que eu pense que eu sou igual ao teu pai.&lt;br /&gt;Ela - Ela não pensa isso. Garanto-te que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Como é que podes estar tão certa?&lt;br /&gt;Ela - Estou, é o que interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sim, nada disso interessa.&lt;br /&gt;Ela - Aquela igrejinha lá em cima faz-me lembrar aquela capela onde me beijaste a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Tu estavas cheia de medo.&lt;br /&gt;Ela - Porque tu insistias em roubar a caixa das hóstias. E o cálice sagrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sagrado? Aquilo era latão.&lt;br /&gt;Ela - Benzido, sagrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não é a mesma coisa.&lt;br /&gt;Ela - Desde que te tornaste ateu és insuportável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sempre fui ateu.&lt;br /&gt;Ela - Mas antes não eras insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Há uma coisa que nunca entenderei.&lt;br /&gt;Ela - Eu também não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Porque é que todos os domingos é a mesmíssima coisa.&lt;br /&gt;Ela - Eu também não, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Saímos de casa para irmos para a praia e acabamos sempre neste areal.&lt;br /&gt;Ela - A praia é um areal imenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - E tem mar.&lt;br /&gt;Ela - Sim, já tinha reparado nisso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Tinhas?&lt;br /&gt;Ela - Sim. Falta qualquer coisa nesta praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Falta o mar.&lt;br /&gt;Ela - Eu sei, não sou tonta Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - És esquecida.&lt;br /&gt;Ela - Deve ser das poucas praias que não têm mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Isto não é uma praia.&lt;br /&gt;Ela - Como não é uma praia? À sua maneira é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estás doida.&lt;br /&gt;Ela - É a nossa praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Podes dizê-lo. Ninguém teria esta ideia desmiolada de sair para a praia, de carregar com chapéu, lancheira, bronzeador, bola de praia, cadeiras, toalhas, e vir-se plantar em cima deste amontoado de saibro e areia...&lt;br /&gt;Ela - Não deviam ter deixado a porta da obra aberta, uma pessoa assim engana-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Fomos ao engano.&lt;br /&gt;Ela - Não é a primeira vez, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Está sempre a acontecer-nos.&lt;br /&gt;Ela - Estás a rir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estou a sorrir.&lt;br /&gt;Ela - Porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Porque gosto de sorrir.&lt;br /&gt;Ela - Para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Para ti.&lt;br /&gt;Ela - Ainda bem que não trouxémos os miúdos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Trouxémos as coisas deles.&lt;br /&gt;Ela - A minha mãe perguntou-me se os trazíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Trazemos sempre as coisas deles.&lt;br /&gt;Ela - A minha mãe anda a irritar-me com as suas perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não ligues. Ela sabe perfeitamente que nunca tivemos filhos.&lt;br /&gt;Ela - O problema é esse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Ela só diz isso para te irritar.&lt;br /&gt;Ela - Gostas mesmo de sorrir para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Gosto.&lt;br /&gt;Ela - Dou-te tesão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Vê...&lt;br /&gt;Ela - Está rijo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Endureceu...&lt;br /&gt;Ela - Eras capaz de o meter agora dentro de mim? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estamos na praia.&lt;br /&gt;Ela - É a nossa praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Achas que ninguém aparece?&lt;br /&gt;Ela - É fim de semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não há casas por perto.&lt;br /&gt;Ela - Não havendo casas também não há crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Quando eu era criança gostava de vir brincar para as obras.&lt;br /&gt;Ela - As coisas de que tu te lembras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - As coisas de que eu me esqueço, Alice.&lt;br /&gt;Ela - Eu chamo-me Rosa, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sei. &lt;br /&gt;Ela - Já era tempo de curares essa tua fixação pelas Alices. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - As Alices da minha vida, disse-te quando te conheci.&lt;br /&gt;Ela - Mas quando me conheceste não estavas assim, rijo, dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estás a sentir-me?&lt;br /&gt;Ela - Claro que sinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - ...&lt;br /&gt;Ela - Não sentes que eu te sinto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sinto.&lt;br /&gt;Ela - E então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Costumas pedir para eu te &lt;em&gt;foder&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Ela - Estamos no meio da rua, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sei.&lt;br /&gt;Ela - Não podemos fazer tudo da mesma maneira sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sei. Mas se não dizeres para te foder é natural que eu me esqueça de que estou dentro de ti. &lt;br /&gt;Ela - E não fazermos tudo da mesma maneira não quer dizer que eu me esqueça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Eu sei.&lt;br /&gt;Ela - Sabes mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sei.&lt;br /&gt;Ela - Não esquecemo-nos e lembramo-nos das coisas mais incríveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Esquecemo-nos.&lt;br /&gt;Ela - Vais ver que foi isso, esquecemo-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Também sinto isso.&lt;br /&gt;Ela - A minha mãe pergunta-me muitas vezes porque é que nós não temos filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Ela só diz isso para te picar.&lt;br /&gt;Ela - Eu sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Ela detesta crianças. Olha como trata as filhas da tua irmã!&lt;br /&gt;Ela - Eu sei, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - E o que é que lhe respondeste?&lt;br /&gt;Ela - A quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Quando ela te perguntou porque é que nunca tivémos filhos.&lt;br /&gt;Ela - Que nos tinhamos esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Vais ver que foi isso, esquecemo-nos.&lt;br /&gt;Ela - Foi, de certeza. Não vejo outra razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Passa-me o tabaco, por favor.  &lt;br /&gt;Ela - Ainda estás cá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estou?&lt;br /&gt;Ela - Nem te vieste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Não?&lt;br /&gt;Ela - Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Estranho, apeteceu-me fumar o cigarro na mesma.&lt;br /&gt;Ela - A mim também me pareceu esquisito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Deve ter sido a primeira vez.&lt;br /&gt;Ela - Acho que foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Se calhar é por estarmos no meio da nossa praia.&lt;br /&gt;Ela - A nossa praia privativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Gostas da nossa praia?&lt;br /&gt;Ela - Muito. Vamos tirar uma fotografia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Vamos. &lt;br /&gt;Ela - Depois vou mostrar na Repartição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - És má...&lt;br /&gt;Ela - Vão roer-se de inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Há quem tenha uma vida de cão.&lt;br /&gt;Ela - A Glória detesta o Verão por causa disso. Levanta-se às seis da manhã para preparar tudo. Depoius metem-se duas horas numa bicha para chegarem a uma praia onde não têm nem espaço para meter uma toalha. Mas duas horas na bicha de regresso a casa. Quendo chega está morta. É por isso que ele fica sempre com o trabalho extra de fim de semana. Ela detesta o Verão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Tivémos sorte.&lt;br /&gt;Ela - A vida sorriu-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - O principal é nós sermos felizes.&lt;br /&gt;Ela - Eu costumo dizer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - À tua mãe?&lt;br /&gt;Ela - A minha mãe não ía entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Tivemos sorte um com o outro.&lt;br /&gt;Ela - Tu és o meu rechonchudinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - E tu o meu toucinho do céu.&lt;br /&gt;Ela - Fico a tremer quando tu me chamas toucinho do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - O meu toucinho do céu.&lt;br /&gt;Ela - Tu dizes coisas tão bonitas, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - É da vida que nós levamos. Desata-me a lingua, pronto.&lt;br /&gt;Ela - Eu também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Tu também?&lt;br /&gt;Ela - Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sim.&lt;br /&gt;Ela - Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sim.&lt;br /&gt;Ela - Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sim.&lt;br /&gt;Ela - Sim, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele - Sim, Alice.&lt;br /&gt;Ela - Eu sou Rosa, Jorge. Sou Rosa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112453484671201005?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112453484671201005/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112453484671201005' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112453484671201005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112453484671201005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/08/voz-cresce-o-esquecimento.html' title='A voz cresce o esquecimento'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112450831658835231</id><published>2005-08-20T03:48:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.159Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Sombra</title><content type='html'>Escavo um sepulcro dentro do meu peito. O principio da estabilidade é a instabilidade e o desta, a estabilidade. Não há outra forma de&lt;br /&gt;dizer que tenho uma sombra a fazer um plano de corte no alçado daquilo a que,&lt;br /&gt;com bastante inapropriedade, chamarei de alma. &lt;br /&gt;Tudo o que vejo é azul. Tudo o que vejo é azul e floresce a partir do centro, do diafragma. Da voz. Apetece-me cantar.&lt;br /&gt;Tenho um sepulcro dentro do meu peito e apetece-me cantar.&lt;br /&gt;É tão inoportuno um como o outro. Não sei cantar. Nem já sei cantar sozinho. O que não quer dizer que tenha perdido alguma qualidade pelo caminho. Tão somente que perdi o interesse em fazer o que não sei fazer. E eu não sei,&lt;br /&gt;nunca soube cantar.&lt;br /&gt;Também é completamente despropositado o sepulcro que cavei no meu peito. Não preciso dele para nada, não é de mim, do que sinto agora, veio atrasado. Ou adiantado. Um sepulcro atrasado ou adiantado é como um beijo fora de horas. Falta-lhe sempre substância. Coragem, hora, premeditação, e tudo isso são as primeiras matérias-primas do peito.  &lt;br /&gt;Há que ser corajoso, premeditado e pontual, principalmente com o peito. Só assim ele poderá ser generoso com a vida que escolhemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho um sepulcro escavado em mim e apetece-me cantar a força de um peito dilatatado pelo afecto. Tudo em mim é maior inclinação. Beijo o chão que piso mas em vez de me curvar, salto, toco numa núvem. Beijo o chão que piso nesta núvem que colocou uma sombra sobre o chão que piso. É maior,&lt;br /&gt;é delirantemente maior o riso de um homem ou de uma mulher inclinados sobre o peito. Eu não quero crer que voltaremos um dia ao mesmo dilema,&lt;br /&gt;amadureceremos também na forma como rasgamos por dentro o nosso querer, a nossa querença. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apetece-me gritar, exaltar-me, rebentar de tranquila idade. &lt;em&gt;A política&lt;/em&gt;, disse ele. A política, repeti. Como sempre. Era já um reflexo condicionado. Um instinto meu de discípulo. Ele era o mestre. Eu tinha sido trazido à cidade pela mão do meu pai, a minha mãe ficara no carro, para me deixarem ficar naquele colégio interno onde aprendi a ler e a escrever, a recitar de cor o nome dos rios africanos, dos caminhos de ferro, das capitais. Ele largou-me a mão e disse para absorver tudo o que pudesse que ele tinha algo para me mostrar depois. Eu absorvi como se fosse uma esponja. Tudo o que via, ouvia. Depois ía ter com ele ao restaurante Roma, na avenida principal de Mafra. Ele colocava-me um chocolate por baixo da toalha, eu não o via, cheirava-o e fazia-me perguntas. Perguntava-me sobre tudo o que tinha aprendido. Antes de levantar a toalha da mesa dizia,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;muito bem, agora só falta uma coisa&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o quê?&lt;/em&gt;, perguntei, tinha o recitativo na ponta da línguia, não podia ter-me enganado,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;não não te enganaste&lt;/em&gt;, esclareceu,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mas há ainda uma coisa urgente,&lt;br /&gt;agora tens de esquecer tudo o que aprendeste&lt;/em&gt;. Eu não percebia nada de nada. Esquecer tudo o que aprendi. &lt;em&gt;Todos os dias&lt;/em&gt;, disse ele. &lt;em&gt;Todos os dias tens de esquecer tudo o que puderes&lt;/em&gt;. Tens de ter a cabeça vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi na escola pública, fui filho da escola pública, cresci a admirar a escola pública. Nada disso tem a ver com o sepulcro que, como cinzel esculpindo o peito, desenhou uma sombra sobrevoando a pedra em que nasci. A sombra é veloz e eu sou também rápido. Nem sempre nos apercebemos da velocidade com que elas se transportam. E é pena. Teremos tudo a aprender com as sombras, com a nossa convivência com elas. E apercebermo-nos da sua velocidade é um principio de entendimento, de conhecimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112450831658835231?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112450831658835231/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112450831658835231' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112450831658835231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112450831658835231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/08/sombra.html' title='Sombra'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112401893826882111</id><published>2005-08-14T11:59:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.159Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Viagem na minha sala</title><content type='html'>Tocam os sinos da igreja de s. vicente de fora, a igreja da minha aldeia virada para o rio. Lembro-me de um hábito antigo, fechar os olhos e ir. Divagar. Sonhar. Viajar. A pergunta mil vezes repetida: &lt;em&gt;o que somos nós&lt;/em&gt;? Por vezes pareço-me com uma máquina. Um maquinismo de um engenho sem limites. Nessas alturas, quando fecho os olhos, sinto-me a palmilhar um buraco negro. A consciência de mim é que me trama o desenlace. Sem ela eu seria tão feliz como este velho moinho de café que acompanha a minha família há mais de oito décadas. Salto, lesto, a questão. Abro os olhos com mais intensidade para o dentro que vislumbro. Vou fazer uma viagem. Começo por me sentir numa encruzilhada. De um lado tenho um caminho por coisas minhas, coisas de mim, pedaços de histórias. De outro, algumas ideias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de &lt;em&gt;liberdade&lt;/em&gt; é a primeira. Nunca consegui perceber porque é que nascemos com este desígnio, sermos livres. E não sei se dizer desígnio não é já responder. Prefiro dizer, condição. Ser livre não é um desígnio do homem ou da mulher, sabemos que não. Ser livre é apenas o desígnio do homem ou da mulher livres. Um homem ou uma mulher que antes não se tenham constituído na liberdade não podem dizer-se no desígnio de serem livres. Podem almejar a liberdade e fazê-lo com toda a sinceridade, mas não podem reconhecer-se no fatalismo de serem livres. É terrível mas é assim, só o homem e a mulher livres têm como desígnio a liberdade. E se é alguma coisa que depende do homem e da mulher não é desígnio, é um acontecimento. É verdade mas também o é com o desígnio: ele é um acontecimento humano, da nossa humanidade. &lt;br /&gt;Eu poderia agora estar a ser livre num lugar qualquer e não estou. Estou aqui fechado nesta sala, no meu computador, no meu corpo, no meu aparato ideológico a falar sobre a liberdade, sobre o quanto ela me importa ao ponto de, nesta viagem criar um itinerário que a consiga encontrar. Nós não somos livres porque a liberdade não existe senão como figura de estilo das nossas vidas sem estilo, sem marca, sem autoria. Digam-me, onde encontrar um homem ou mulher livre, totalmente livre? É claro que temos à nossa volta gente a quem chamamos livre. São falsos livres. Só são livres porque nós nos temos a nós mesmos cativos. Invejamos-lhes a liberdade. Como eles também invejam a dos outros. A liberdade é um sentimento que nasce da inveja humana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112401893826882111?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112401893826882111/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112401893826882111' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112401893826882111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112401893826882111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/08/viagem-na-minha-sala.html' title='Viagem na minha sala'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112213086317611868</id><published>2005-07-23T15:00:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.160Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><title type='text'>Estrangeiro na sua própria casa</title><content type='html'>[&lt;em&gt;tenho um hábito antigo antes de começar um texto que quero que seja meu: fecho os olhos, abro-os a uma escuridão de mim. é estranho eu sei mas não me estranho aí, nesse lugar etéreo. Ou onde sou ar.]&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci na barriga da minha mãe. É essa água que tenho como a minha primeira e única pátria. A minha primeira casa. Muitas vezes vou para a frente e apercebo-me, &lt;em&gt;atrasei-me&lt;/em&gt;. Atrasei-me de propósito. Para voltar atrás, a esse quente espesso de onde vim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há-de haver um lugar qualquer onde eu consiga de forma audível e entendível por mim mesmo explicar-me este desencanto com o mundo, com o futuro do mundo e este terrível encantamento pela nossa humanidade. Poderia ser ao contrário e ser-me-ía mais compreensível: &lt;em&gt;desentender-me com a humanidade e esperar-me do futuro do mundo&lt;/em&gt;. Seria de acordo com o que sempre foi a minha vida: um pensamento. Mas não: a minha cabeça desistiu de ser capaz de pensar o mundo onde vivo ao mesmo tempo que a minha &lt;em&gt;vida&lt;/em&gt;, aquilo que entretanto vivi, tenho como &lt;em&gt;vivido&lt;/em&gt;, se entrelaçou amorosamente com a humanidade inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um amor de que não abdico. O choro, o riso, o estremecimento &lt;em&gt;são-me &lt;/em&gt;agora melhores que a ideia. São uma &lt;em&gt;ideia superlativa&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo ar, vento, água, terra, fogo, luz. Risos de gente. Vozeares. A escuridão da morte dos que nos são queridos, dos que reconhecemos, dos que um dia estreitámos nos braços. Dos que um dia estreitámos nos braços como se o fizéssemos sempre, para sempre. Aborrece-me terrivelmente que se vão aqueles que amei ou aqueles para quem predispús o meu amor. Penso sempre, &lt;em&gt;porque se vão, se é aqui que nos entendemos&lt;/em&gt;? E depois dou por mim a tentar perceber se existe deus na terra e no céu, se existe algo para além do pouco que vislumbro. Quando estou quase a tocar nos pés adoráveis da minha única única divindade há sempre algo que me distrai. Posso dizê-lo, não é por uma convicta e vincada ideia que não sou d'Ele. É por distracção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci há quarenta e três anos na barriga da minha mãe e ninguém me tira do corpo a sensação que é sempre esse o lugar para onde vou. É como se recriasse aqui fora as condições perfeitas do habitat que me gerou. Tudo era paz e harmonia, lembro-me. O que me aconteceu no casulo de onde vivi é uma memória que me está gravada no de dentro do próprio interior da minha pele. Tenho a certeza absoluta, uma certeza que não é feita de ideias, de verbo nem de nada que me seja possível explicar de que foi lá, naquele esconderijo atómico que apreendi tudo o que é essencial para a navegação no mundo contemporâneo:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o amor, a bondade, a dádiva&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o resto são circustâncias. É claro que aprendi reiteradamente e de outro modo, e até com nomes próprios de uma ciência que é nossa, todos estes gestos e actos da mãe para com a cria. O ar, o alimento, a seiva. Não há nada mais terrívelmente mágico, amoroso e generoso do que uma placenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apercebo-me pelo agitar da placenta humana do enorme que é aprender. Constituir uma carne para o pensamento. Uma substância mais provável, uma ocorrência possível. Como se disséssemos diante de um fenómeno qualquer, &lt;em&gt;olha como anda, como gira, como dança, como fala, logo a seguir estremecerás, falarás, dançarás rodopiando, tu&lt;/em&gt;. É isso que é aprender no mundo onde vivemos e nada me entristece mais do que descobrir que é por aprendermos assim que assim fazemos. Falta-nos aventura na nossa pele e não é na pele, assim nos conta a nossa placenta, é no nosso quotidiano. Ou seja, uma evidência tão simples e mil vezes reformulada: voltarmos à aventura é tornarmos ao espirito de onde viémos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[&lt;em&gt; O meu horror actual: fecho os olhos para escrever um texto meu e todos os textos que perfilho como meus são tristes, e saiem-me palavras que não nego mas que na sua alegria, na sua promessa, não reconheço. Estou em chão de dádiva, uma ferida aberta pelo meu desejo de ti. &lt;/em&gt;]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112213086317611868?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112213086317611868/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112213086317611868' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112213086317611868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112213086317611868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/estrangeiro-na-sua-prpria-casa.html' title='Estrangeiro na sua própria casa'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112185813554513644</id><published>2005-07-20T12:03:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.160Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a sociedade do espectáculo'/><title type='text'>Até onde poderemos ler Jornais?</title><content type='html'>1. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;A entrevista&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. Guardem o DN de ontem e de hoje. Complementem-no com as notícias saídas pelo lado do Palácio das Necessidades. É um oportuno objecto de análise sobre a pressão a que o trabalho jornalístico está sujeito. Filipe Santos Costa e Lumena Raposo assinam um excelente trabalho. Freitas do Amaral também esteve particularmente feliz.  Entrevistadores e entrevistado podem dar-se por muito satisfeitos principalmente pelas condições em que referem ter sido feita a conversa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;O lançamento&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. Há no entanto algo que se nota que não está ao mesmo nível da entrevista. O seu lançamento na primeira página ontem e hoje. Ao ler hoje a entrevista compreendemos que o DN está perfeitamente seguro daquilo que publicou, lemos também que Freitas do Amaral tem algumas razões para não querer voltar a dar uma entrevista ao DN nos tempos mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;A qualidade da democracia&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. Há uma concepção do trabalho jornalistico que é paradoxal quanto à sua finalidade e isso é bem revelado no editorial que a Direcção do Jornal fez em relação à repercussão havida: embora assinalem &lt;em&gt;que é bom para a qualidade da democracia que os ministros mantenham a sua capacidade de produzir juízo &lt;/em&gt;procedem a um lançamento que ao focalizar-se totalmente numa autocrítica de Freitas em relação ao trabalho de comunicação e marketing do Governo, acaba por ser desencorajador para que outros ministros, com menos peso do que Freitas, possam fazer o mesmo. È claro que os jornais têm estratégias próprias e não são obrigados a trabalhar em prol da qualidade da democracia principalmente quando esta pode entrar em conflito com a natureza concorrencial a que hoje está ligado o produto jornalístico. Mas então também talvez não faça muito sentido alardeá-la. Porque se dizemos que é bom que haja ministros que pensam pela sua própria cabeça e se  tratamos aquilo que eles dizem como se fossem bombas de fragmentação política é legítima a dúvida sobre a sinceridade deste discurso sobre a qualidade da democracia. O melhor seria fazer do pensamento elegia em acção, em movimento, mas, não o conseguindo, &lt;em&gt;alguém tem de em algum momento da vida dos jornais ser capaz de parar para pensar&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. &lt;em&gt;Manipulação Indecente&lt;/em&gt;. Freitas do Amaral fala em manipulação indecente. É uma alma ferida que fala, sem dúvida. Outra teria descortinado que não há manipulação decente. O mais grave de tudo é que há mesmo manipulação. A manchete de terça-feira diz que Freitas aponta falhas de comunicação do Governo e diz que ele também critica a promessa eleitoral de Sócrates de não aumentar impostos. Na página 11 Filipe Santos Costa começa o seu texto por dizer que Diogo Freitas do Amaral considera que houve falhas na forma como o governo apresentou as recentes medidas de austeridade e inscreve tudo isto num exercício de auto-critica.  E não é indecente porque ninguém de bom senso consegue ver ali um desejo expresso de destruir Freitas ou o PS, ou seja lá o que for. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. &lt;em&gt;Manipulação&lt;/em&gt;. O problema é que parece que hoje já não é possível fazer jornalismo sem estar sempre neste limbo da manipulação. O jornalismo conta histórias, histórias que não lhe pertencem, histórias que já contou e é através delas que reconhece as personagens. Mais, porque se projecta naquilo que esperam dele e porque quando assim o fazemos geralmente tendemos a construir uma imagem muito imobilista e conservadora do público. Nesse quadro estático os pré-juizos são extremamente eficazes. E não é possível pensar em Freitas do Amaral sem o instalar previamente na seguinte redoma narrativa: centrista, independente, não socialista, indomável. E por isso não parece pecado mortal dizer que &lt;em&gt;Freitas criticou o Governo em vez de se afirmar, como seria mais correcto, que ele se auto-criticou enquanto governante&lt;/em&gt;. A manipulação existe porque na totalidade da entrevista Freitas mostra que para o melhor ou para o pior está inteiro neste governo e o lançamento de terça-feira dá exactamente a ideia contrária. Essa é uma nódoa que caiu na primeira página mas sejamos honestos: é preciso muito mais do que uma manipulação de uma 1ª página de um jornal para que ela tenha algum significado politico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. &lt;em&gt;O lobo e o cordeiro&lt;/em&gt;. A manipulação hoje faz  parte do trabalho jornalístico e o DN tem razão ao dizer que Freitas do Amaral já tem idade política para não se meter na boca do lobo. A única coisa que não se percebe é uma certa tendência dos jornais -  e neste caso do DN - em assumirem que são lobos e a quererem continuar a disfarçar-se de cordeiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. &lt;em&gt;A manchete&lt;/em&gt;. A primeira página do DN de hoje é tão ruidosa que chega a ser triste. Na caixa alta das televisões à hora do almoço a gritaria entra em escalada. E ninguém explora a questão mais importante: &lt;em&gt;como é que é possível que a cinco meses de uma eleição presidencial não haja candidatos&lt;/em&gt;? É isto o lodaçal, o pântano?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112185813554513644?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112185813554513644/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112185813554513644' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112185813554513644'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112185813554513644'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/at-onde-poderemos-ler-jornais.html' title='Até onde poderemos ler Jornais?'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112163730558552828</id><published>2005-07-17T22:31:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.161Z</updated><title type='text'>As mãos que adormecem os amantes</title><content type='html'>há pouco estávamos a falar dos corpos, do tempo e do ritmo dos corpos, de quando é que começa a contagem descrescente para o entendimento, &lt;br /&gt;e a irene disse que uma das coisas mais intimas que conhecia era o adormecer com, o modo como adormecemos com alguém. sorri. quando tudo era ainda um enorme discurso teórico, um dos meus fantasmas, uma das minhas representações negativas de uma relação, era a dos casais que se deitam de costas um para o outro. nos primeiros tempos isso afligia-me de uma forma pavorosa. e ou as mulheres que amei nesse tempo eram todas dóceis e delicadas ou pressentiam que eu era frágil e inseguro, o que é certo é que todas elas aceitavam que eu lhes puxasse a cabeça para a curvatura interior do meu ombro e adormecesse assim, passando-lhes a mão pelo rosto. nunca me abandonou esse gosto - quase um capricho - de com a minha mão aberta, escorrendo do pescoço até à nuca, e depois, pela face, lavar o rosto das mulheres que amo.&lt;br /&gt;a primeira vez que uma mulher que amei se virou de costas para mim abriu-se-me no chão um fosso negro, escuro, uma angústia profunda. como há muito não tenho (aliás, creio que se a voltasse a ter nesse mesmo instante morreria fulminado como um raio). Tive a ventura que ela me amasse também muito e antes que tudo isso pudesse ser dor em mim, agarrou-me na mão e colou-ma ao seu sexo. Era inverno, estava quente e eu senti que começava logo ali a duvidar das minhas disposições teóricas sobre o modo de adormecerem os amantes. Desde aí tenho experimentado de tudo. Conheci uma mulher uma vez com quem só conseguia adormecer beijando-lhe os pés. Pensei que fosse uma tara mas a verdade é que ela desapareceu da minha vida antes que eu pudesse preocupar-me. Da vez seguinte não se repetiu, tinha voltado à posição tradicional. Às vezes algumas ainda começavam a adormecer naquela curvatura do ombro que tanto significara nos meus primeiros amores mas depois voltavam-se e adormeciam em si mesmas. Havia uma que nos dias em que vinha furibunda de mundo só conseguia dormir e acalmar-se se brincasse devagar com o meu sexo. Deixava-me virar de costas, em posição quase fetal, aninhava-se na curvatura do meu dorso e depois procurava-mo com a sua mão. Eu gostava tanto de a ver adormecer tranquilamente e às vezes, ainda com gestos de sonâmbula, dar-me um piparote, eu perguntava-lhe, &lt;em&gt;dormes&lt;/em&gt;, &lt;br /&gt;dormia, no dia seguinte sabiamos ambos, dormia. De outra vez tive uma amante que traia com a mulher com quem vivia na altura, e por isso, dormia sempre em sobressalto. A primeira coisa que fazia de manhã era um tenebroso jogo de verdade ou consequência de modo a averiguar com a maior exactidão se tinha falado durante a noite. O contrário nunca se passou. Embora nunca as tivesse tido, sempre trai as minhas amantes com as minhas legitimas esposas e foram várias, ao longo da vida. Não vem ao caso, falamos em dormir, e mesmo que um relacionamento longo e demorado seja um adormecimento convulso de um diante do outro, &lt;br /&gt;a verdade é que todas as amantes que tive só as constitui porque me ensinaram que era o único modo valente de defender o matrimónio.&lt;br /&gt;é de tudo isto que eu e a irene falámos. de como é intimo o dormir, o respirar. o sussurrar. até o ressonar. há uns tempos a porteira de um prédio onde vivi há muitos anos confidenciou-me que punha tampões nos ouvidos para não ouvir o tortuoso ressono do marido. dizia ela que uma vez chegara a pensar dormir na sala. as filhas já estavam criadas, eram umas mulherzinhas, poderiam facilmente perceber até porque o ronco arrebentava com o próprio estuque das paredes e ninguém ignorava o tremor que era adormecer ao lado daquele homem possante. mas não o fez. porque, disse-o com uma tal candura que andei um mês em estado de graça,  "descobri que não posso viver longe dele. então ponho os tampões, o meu marido trouxe-os da obras, ele trabalha com um &lt;em&gt;martelo pneumático&lt;/em&gt;, e quando a cama estremece penso que sou eu a estremecer por ele, adormeço na paz dos anjos, &lt;em&gt;menino&lt;/em&gt;". &lt;br /&gt;é de tudo isto que falámos. de como é intimo o dormir, o respirar. o sussurrar. lembro-me, quando me apercebi que o amor não era quando eu falava dele , deixei de me preocupar com as imagens, com a minha representação. às vezes, tantas vezes, bastava um pequeno toque de dedos para me reconhecer e me embalar, tal e qual como se fora um bébé.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112163730558552828?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112163730558552828/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112163730558552828' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112163730558552828'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112163730558552828'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/as-mos-que-adormecem-os-amantes.html' title='As mãos que adormecem os amantes'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112151530622773220</id><published>2005-07-16T12:07:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.162Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pensar quando parece que chove mais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enquanto o poema não me acontece'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Rio que corre na minha aldeia'/><title type='text'>Um novo pensamento</title><content type='html'>Abro a janela antes de começar a escrever.&lt;br /&gt;É uma janela não metafórica, preciso de ar. &lt;br /&gt;O ar que respiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Trocaria isto porquê? &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever com o olhar permanentemente ligado ao que está lá fora, o rio, os barcos, as cidades suburbanas do Tejo, dá-me uma grande tranqulidade. &lt;em&gt;Poderia dizer também&lt;br /&gt;que és tu que me apaziguas&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;não o faço. Este não é um texto amoroso. Existirás na medida de todas as coisas&lt;br /&gt;que em mim existem, agora.&lt;br /&gt;Há-de haver alguma possibilidade de um tipo olhar o longe que esta janela lhe permite e ao mesmo tempo dobrar-se sobre si mesmo, sózinho.&lt;br /&gt;E pode ser esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agrada-me a imagem de um tipo dobrado sobre a sua eloquência de canídeo. &lt;br /&gt;O que eu quero dizer é que a reserva de uma pessoa é um bem inestimável. Que devemos perseguir um mundo bom, um mundo na bondade, um mundo oficialmente devotado à respiração dos vivos e que para isso haveremos de, em algum momento,&lt;br /&gt;precisar de nos encontrarmos sós.&lt;br /&gt;É claro que isso é dizer-te; é dizer-te de outro modo. Só porque estás aí me permito consagrar-me por inteiro a este voo de águia sobre o dorso da minha memória sitiada.&lt;br /&gt;Também é porque estás aí que eu voltei a pegar na adaga e me resolvi em acto, este.&lt;br /&gt;Nesse sentido um texto amoroso torna-se político e um texto político é um imenso lugar amoroso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso está certo, é justo no sentido que produz. Iria para ela assim, como se fora foz, através do leito manso deste rio ledo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há mais tempo atrás do tempo que por aí vem &lt;em&gt;e esse tempo ocupar-se-á de nós&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;O tempo não me interessa como efeméride, como marca geodésica, muito menos como passado. Agarro nos meus quarenta e três anos e jogo-os assim no distante que alcanço. O tempo só me interessa&lt;br /&gt;porque me permite esperar, o que é dizer, exigir de mim, amar um pouco melhor o mundo todo. Não compreendo o desaparecimento, a morte,&lt;br /&gt;continuo a não perceber nada disso mas jogo-me por inteiro nesta existência duplíce. Eu preciso de sentir a evidência da morte, da minha morte, da morte dos que me são mais queridos, da morte daqueles cujas vidas explicam silenciosamente, em estado de inércia, todo o tumulto interior que vive em mim quando à boca da alma o amor se me declara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tudo isto é literatura, sei. Ainda não cheguei a mim. Ainda não cheguei ao momento antes do eco, do ressoar, do proferir. Um segundo antes da articulação, do vocábulo, é aí que poderei encontrar-me.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É num teatro que um dia me declararei ferido de amor. Para que ela me olhe e me veja a mim mesmo trespassado pela circunstância da revelação onde nasce a comédia, o drama, os meus mais pequenos gestos ficcionais. Para que duvide, para que seja forte, tão forte e possante como o corte desta adaga que me acompanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É num teatro, é no velho palco mundial, é neste &lt;em&gt;tablado-mundo &lt;/em&gt;que me encontro agora. Estou, mais uma vez, encurralado num dilema: o meu corpo continua a respirar e fá-lo com verdadeiro gáudio, como se nunca se cansasse de mais um pouco de ar. Onde o meu corpo é energia, o meu pensamento é morte silente de todas as coisas e todos os lugares. Já o disse aqui e nada se modificou entretanto: &lt;em&gt;a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro e a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte&lt;/em&gt;. Mas entre o meu corpo e o meu pensamento existe outro sitio onde agora me instalo: o lugar da vontade, da escolha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mesmo na inutilidade que o meu pensamento reserva a tudo o que faço, farei, fazemos, faremos, há um sitio em mim como um planalto onde posso respirar, rir, abraçar, dar, &lt;em&gt;fazer por&lt;/em&gt;. Esse sítio é &lt;em&gt;a vontade&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me peçam para explicar mais isto. Poderia fazê-lo, mas seria tão estéril! Cheguei a um lugar terrível pela mão do pensamento. Tomei também consciência de que se o meu pensamento ocupasse toda a minha vida, se fosse ele que mandasse na minha vida, eu estaria definhando em mim, desistindo de viver. Não é isso que acontece. Acordo para a vida e todos os dias bendigo esta graça em que não acredito e que não necessita da minha crença para me permitir o privilégio de estar aqui, convosco. &lt;br /&gt;Amo terrivelmente a vida. O amor que tenho pelas pessoas, pelos lugares é apenas uma parcela dessa enorme demonstração aritmética que é o meu amor pela vida. É um amor impensado. Tal como a vontade de rir, de sorrir, de ser em comunhão. Ou então, e eu sempre defendi isso no teatro, &lt;br /&gt;&lt;em&gt;é um novo lugar para o pensamento que nos falta&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pensamento que não pára para pensar. Que não precisa de ficar só para o fazer. Que não é representação do pensamento. É presença. É diante da presença da vida e da morte. É um segundo depois da nossa imposição nos lugares  e um segundo antes do pensamento chegar a ela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112151530622773220?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112151530622773220/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112151530622773220' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112151530622773220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112151530622773220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/um-novo-pensamento.html' title='Um novo pensamento'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112117132273283000</id><published>2005-07-12T13:24:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.163Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='todos os posts sobre o amor são ridiculos'/><title type='text'>Paragem de Eléctrico</title><content type='html'>Falaste-me de um amor. Falaste-me de um amor como só existe nos sonhos que fazemos dele. E eu senti-me pequenino. Toda a minha vida tem sido isso, &lt;em&gt;não conseguir amar&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;                   &lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;        ººººººººººººº&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho medo. Medo-Medo. Agora compreendes que onde pareço que sou doce, meigo, terno, respeito, não passo de um &lt;em&gt;homem assustado&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;                   &lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;        ººººººººººººº&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem detive-me particularmente numa foto com 23 anos. Era eu na minha solidão desacompanhada, na minha alegria, no meu nervo agitado. Sentado na amurada da fortaleza de Sagres, tinha um riso como só conheço aos homens bonitos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;                   &lt;blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;        ººººººººººººº&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou sentado na paragem de eléctrico onde te encontrei. Faço de tudo isto uma viagem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112117132273283000?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112117132273283000/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112117132273283000' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112117132273283000'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112117132273283000'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/paragem-de-elctrico.html' title='Paragem de Eléctrico'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112095543239137181</id><published>2005-07-10T00:59:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.164Z</updated><title type='text'>Inominável</title><content type='html'>Quando aqui venho ambiciono escrever forte. Ou pelo menos, entrever a força do &lt;em&gt;escrever&lt;/em&gt;. Por isso mesmo às vezes há posts que não escrevo mas que tentei escrever. Que não consegui. Um vazio por vezes preenche-me. E como ela me dizia, &lt;em&gt;há vazios que batem certo&lt;/em&gt;. Estou a desenhar esse vazio, eu sei. Ou seja, não estou a fazer género, eu também tenho ainda muito que fazer para me adaptar ao meu vazio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112095543239137181?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112095543239137181/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112095543239137181' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112095543239137181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112095543239137181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/inominvel.html' title='Inominável'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112086911662485602</id><published>2005-07-09T00:53:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.164Z</updated><title type='text'>TIME CODE</title><content type='html'>0:57&lt;br /&gt;hesito entre escrever a primeira palavra e saltar logo para a última. por vezes sento-me aqui apenas para tentar descortinar a verdade de um texto que ainda não escrevi. É talvez uma representação de verdade, neste caso da verdade do texto: coloco-me diante do êcran e pouso-me. Espero pelo texto. Nunca vem logo. Começo sempre o texto pela descrição do como é que ele não veio.&lt;br /&gt;1:00&lt;br /&gt;O tempo da escrita. Mudou o tempo e eu penso, no tempo da escrita. Não é um pensamento profundo sei. Nem me desculpo com o calor, a verdade é que há muito que deixei de pensar. Quando comecei a escrever nos blogues pensei que sim, que chegaria lá um dia, ao lugar sereno das ideias pensadas em fervilhão. A verdade é que não. Depois comecei a arranjar amigos, conhecidos, alguns admiradores. E eu também tinha amigos, conhecidos, blogues que admirava. Era um circuito. Posso respirar (e)ternamente lá. Mas necessito de um lugar como este.&lt;br /&gt;1:04&lt;br /&gt;G8 debate a tristeza mundial. Os países mais tristes do mundo concentraram-se para discutirem a situação extrema de tristeza e miséria que assola o nosso mundo. &lt;br /&gt;1:17&lt;br /&gt;G8 debate a tristeza mundial. Os países mais alegres do mundo concentraram-se para discutirem a situação extrema de tristeza e miséria que assola o nosso mundo. &lt;br /&gt;1:18&lt;br /&gt;Um barco passa diante da minha janela. Assesto os binóculos procurando alguém. Desde que me tornei guarda costeiro há algo que me intriga: os barcos saiem do porto, entram na barra e no convès, nos vários andares há luzes interiores mas ninguém vem à janela. Porque é que ninguém se assoma para um último aceno à cidade branca? Ainda viajarão estes marinheiros?&lt;br /&gt;1:20&lt;br /&gt;Telefonei-lhe para saber se poderia sonhar com Paris. Carta branca. Paris é a minha primeira primeira cidade do mundo. A segunda primeira cidade é Madrid. A terceira Nova Yorque. Mas Paris foi anterior a tudo isso. Somerset Maughan, Hemingway, até Victor Hugo, foram os meus cicerones pela cidade Luz. A primeira vez que lá fui logo que coloquei os pés na cidade corri ao Quartier Latin. Estava na Gare du Nord, por isso andei longamente a pé. Lembro-me de ter descido o &lt;em&gt;Boulevard Magenta&lt;/em&gt;. De ter passado pelo Pompidou. Passei pelo Théâtre de la Ville. Na altura estava lá um cartaz de Caetano Veloso. Lembro-me. Atravessei o Sena e embrenhei-me no Quartier Latin, nas livrarias de Teatro ao pé do Odéon.&lt;br /&gt;1:27&lt;br /&gt;Há uma questão que me intriga: onde e como realmente envelhecemos? Onde é o tempo que nos acontece transformar-se em grão de poeira?&lt;br /&gt;1:30.&lt;br /&gt;Não tenho para onde ir. Lá ao fundo as luzes da cidade parecem um lugar sedutor. Nada se compara no entanto ao brilho original.&lt;br /&gt;1:31&lt;br /&gt;Gostava de ser quem era.&lt;br /&gt;3:03&lt;br /&gt;O problema, e não é problema, é uma circunstância,  é que quando ela pensava nele o mundo, o seu mundo, deixava de ter intervalos. Aliás, para ser mais exacto, até porque embora a sua voz fraquejasse ele fez questão de se levantar e dizer firmemente, o mundo é um continuum permanente em torno da ideia que de nós construímos na areia molhada. &lt;br /&gt;3:08&lt;br /&gt;A rua Mouffetard (escrito de ouvido)é uma rua muito bonita. Da segunda vez que lá fui fiquei perto do Praça de Itália. Todas as noites enquanto os meus companheiros de viagem íam dormir, eu atravessava a Rua e ía apaixonar-me pelos olhos de um francesa que enquanto cantava punha um xaile em torno dos ombros imitando...Amália. Cantava também Piaf. Perdia-me todas as noites nesta rua. Clubes de Jazz. &lt;br /&gt;3.14&lt;br /&gt;Junto do Pompidou há um lago com estatuetas e objectos vários, e ao lado, um restaurante. Não é dos mais caros. Simples, simpático. Sentava-me para comer e não comia. Imaginava aquelas pessoas a viverem todos os dias das suas vidas em Paris. O imaginário das cidades reflecte-se assim. &lt;br /&gt;3:16 Hás-de me explicar porque é que de repente comecei a falar de Paris. A única coisa que não gostei foi dos cabeças rapadas do Le Pen junto do Moulin Rouge.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112086911662485602?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112086911662485602/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112086911662485602' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112086911662485602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112086911662485602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/time-code.html' title='TIME CODE'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112076314236455691</id><published>2005-07-07T19:59:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.165Z</updated><title type='text'>Breviário</title><content type='html'>1. Penso que pensar não é assim tão fértil. Deixar de pensar é. Abrir o corpo é. É fértil ainda sentir. A verdade é que eu estou sempre algures. Ainda não fixei residência. Falar com o peito parece mais arriscado mas se calhar, é uma questão de hábito. Eu costumo falar com o medo também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Aprendi que não devo dizer o teu nome. A evidência dos nomes é sempre cedo ou tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Ela olhou para o meu passado e afantasmou-se. Eu fiz o mesmo quando olhei tudo o que ela ainda iria viver sem mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Uma vez encontrei-a. No fundo da sala fiz ouvir o F.M.I. No escuro percebi que estava incomodada. Amava-me e por isso disfarçou. Mas leva tão pouco tempo a desamar alguém. Ou a deixar cair o disfarce. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Eu sou daqueles que penso as coisas para ser feliz. Ela era feliz quando não pensava nas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Ela olhou para o meu passado e afantasmou-se. Eu fiz o mesmo quando olhei tudo o que ela ainda iria viver sem mim e percebi que tinhamos apenas o presente para nos encontrarmos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Falo a sério: temos de fazer um pouco mais do que &lt;em&gt;alguma coisa &lt;/em&gt;pelo mundo onde vivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. Bombas em Londres: Não segui atentamente o dia das notícias. Espero que tenham podido reflectir sobre algumas coisas simples como: embora seja cada vez mais dificil fazer atentados terroristas de grande destruição (veja-se N.Y., Indonésia, Madrid e agora Londres), à medida que o medo está instalado em nós, e graças a uma ampliação mediática excessivamente etnocêntrica, tornam-se cada vez mais eficazes os atentados terroristas com meios diminutos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. Bombas em Londres: As organizações terroristas têm, à escala planetária, menos sítios para se esconder. O medo das pessoas e o desejo imoderado dos média reinventarem a realidade, propaga a sensação de insegurança. As cidades estão em pânico. França, colocou-se em alerta máximo. Nada poderia favorecer tanto o terrorismo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. Bombas em Londres: Os media são um dispositivo que se tornou um poderoso veículo ideológico. Com um desejo imoderado em reinventarem a realidade. É precioso analisar o funcionamento deste dispositivo. A grande narrativa do terrorismo aí está e não é porque aí esteja, sempre esteve, é porque finalmente a máquina de a contar está afinada. Já quase se dispensam comentários, opiniões, contraditórios. Editam-se imagens. Sons. De tempos a tempos faz-se um mix com outras micro narrativas do terror. O terror em NY. O terror em Madrid. O terror em Londres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11. Bombas em Londres: &lt;a href="http://pilardapontedetedio.blogspot.com/2005/07/perguntas-imbecis-7.html"&gt;Elisa&lt;/a&gt;, denunciar a arrogância e a prepotência de Bush é pertinente. Há a tentação de o comparar a Bin Laden. Só que isso tem um grande perigo. Se Bush é um terrorista que merece tanto ser odiado como o Bin Laden, e se a ele não lhe devotam o mesmo ódio que Bin Laden capitaliza para si, então talvez Bin Laden merece ser menos perseguido, menos questionado, mais compreendido e entendido. Ora não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112076314236455691?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112076314236455691/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112076314236455691' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112076314236455691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112076314236455691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/brevirio.html' title='Breviário'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14198870.post-112052981059737796</id><published>2005-07-05T03:14:00.000+01:00</published><updated>2010-02-23T17:43:51.165Z</updated><title type='text'>Mnemónica para me lembrar de mim</title><content type='html'>Tenho um problema com a memória. Não me lembro das coisas. Sou como uma caixa de guardar coisas. Meto-as todas lá para dentro. Já as tive muito arrumadinhas. Ou pelo menos, tão arrumadas como um gajo é capaz de ter as coisas que são só suas. E depois perguntam-me se me lembro de quando...e eu lembro-me, quase sempre. Mas não da mesma maneira. Há uns anos para mim lembrar-me era conviver com as coisas. Era tê-las lado a lado. Eu não precisava de me sentar a recordar nada. As coisas vinham ter comigo naturalmente. Agora pareço uma biblioteca cheia de estantes. Amores. Mortes. Tristezas fortes. Aventuras. &lt;em&gt;Quando foste feliz&lt;/em&gt;. Depois, o dicionário das primeiras vezes. O primeiro beijo. A primeira vez que fiz amor na praia. A primeira vez que não, em Mértola. A primeira vez em que ela chorou e me agradeceu o orgasmo que dizia, lhe tinha dado. Chorei tanto eu também, assim, feito homem, homem-forte. Ao principio ainda pensei que era mentira, para me fazer feliz, depois percebi que era verdadeiro, como era possível pensei, foi. O sexo tem um corolário de primeiras vezes que me deixa embasbacado. A primeira vez que me engoliram. Eu não sabia que isso podia acontecer. Falaram-me então das potencialidades vitamínicas do esperma. A primeira vez em que entrei detrás. A primeira vez em que tive um orgasmo em seco. A primeira vez em que ela me disse aquelas alarvidades que eu aprendi nas revistas porno. A primeira vez em que eu tive medo. O sexo é um assunto estranho para mim. Nunca o hei-de tratar por tu, acho. &lt;br /&gt;A memória funciona-me assim, por temas. Excepto em duas ou três coisas. Lembro-me, para sempre, do nascimento do meu filho e do dia em que o meu pai morreu. Depois há coisas que me lembro e que eu gosto de me lembrar e que eu gosto que tenha de me lembrar delas para elas virem ter comigo. Sabe-me a gosto andar pela rua e de repente sorrir, inopinadamente. Porque me lembrei do Rio Cego, aquele regato ao pé da Paz, entre a Paz e a Ada-Pera, onde eu vivia. Lembro-me de ver o Convento de Mafra em qualquer sitio de onde olhasse. Dava-me paz, ver aquele monstro de pedra, cheio de memórias, de vidas passadas. Às vezes dá-me vontade de conceder um dia inteiro para mim mesmo. De ficar no chão da sala lembrando-me. Apetece-me voltar à infância. Cresci com o mito de que só tinha sido feliz na infância. Durante toda a minha adolescência vivi na nostalgia de uma vida anterior. Fui feliz, claro, ninguém aguenta tanto tempo seguido a tristeza. Mas todas as fotos que tenho sou eu triste. A olhar para a vida que não tive. Só com o advento dos primeiros amores carnais comecei a ter fotos em que ria. Eu pensava que iria morrer cedo, muito mais cedo do que seria morrer por exemplo agora. Tinha um verdadeiro pavor a fazer dezoito anos. Imaginava que ter dezoito anos seria sair de casa dos meus pais, ir trabalhar, seguir a minha própria vida e isso apavorava-me. Eu não queria. Não queria ter vida própria, não queria seguir o meu próprio caminho, não queria ter uma casa. Tinha um pavor verdadeiramente redondo. Só deixei de ter medo de fazer dezoito anos aos dezanove. O mais engraçado é que hoje tenho uma posição radicalmente diferente em relação aos meus medos, aos meus temores, aos fantasmas com que cresci mas eles continuam comigo. Já não os invoco mas eles estão dentro de mim. Muitos dos meus estremecimentos devem-se a eles. O medo da morte por exemplo estruturou toda a minha vida. Se tentar ser um pouco mais honesto comigo mesmo tenho de assumir que comecei a fazer teatro, a escrever por causa desse medo horrível de morrer que me acompanha desde os seis, sete anos. Sou um existencialista, digo-o sem humor. Se eu hoje tivesse esse medo de morrer que me consumiu a adolescência e a juventude já me tinha suicidado, tido um ataque cardíaco, mergulhado em sonoríferos. Às vezes ainda vem aí. Abre-se uma brecha, parece um buraco negro, digo para mim mesmo, meu deus - &lt;em&gt;sou um desnaturado agnóstico mas nestas alturas a primeira palavra que me aparece é essa, meu deus &lt;/em&gt;- isto é mesmo a solidão universal, do cosmos, a morte para mim não é o poder transformar-me em nada, é o ter a consciência dessa transformação, é o ficar a pairar milhares de anos luz à revelia de um corpo. Não me acontece sempre, nem me acontece muitas vezes. Mas acontece-me as vezes suficiente para me tranquilizar. Eu ainda sou o mesmo com que nasci. Nada me assustaria mais do que para além de todos os outros medos, ter de me confrontar também com o da esquizofrenia do ser.&lt;br /&gt;Hoje, como antes, este buraco negro é tenebroso. Mais, porque antes aterrorizava-me que toda a minha existência pudesse desaparecer, assim, no nada. Agora é pior. Agora sei que tudo inexiste. Que tudo inexiste verdadeiramente. Existimos, vamos às compras, compramos foguetório, atiramos moedas ao ar, mas inexistimos no sentido em que tudo o que fizémos é pequeno demais para demonstrar que toda a existência humana não é um terrível e vazio exercício de vaidade, de sobranceria, de não compreensão das coisas, dos seres.  E isso é o mais terrível que a morte pode fazer ao mundo onde vivemos. Uma lagarta no seu despojo de lagarta ama mais o universo do que uma humanidade inteira. Eu sei, soa a estranho. O problema é esse. Soa-nos a estranho. Soa-nos a estranho e é tão verdade como haver mundo para além do nosso umbigo. &lt;br /&gt;Hoje já não penso na morte, em morrer, do mesmo modo. Antes tinha medo da minha morte mas tinha um medo especial da morte do mundo. Quando Kadafhi desafiou os americanos e disse que a 3ª Guerra Mundial já tinha começado, em África, mandei um batalhão de anjos motorizados - a espécie de tartarugas ninjas que me servem desde os nove anos - fuzilarem esse imbecil. Sempre que via um arauto dos dias da guerra fechava-o num quarto escuro e bastava-me voltar a ligar a luz para apagar a sua existência. Todas as guerras, de Teerão a Cabul, Bagdad, Jerusalém, Sérvia, Montenegro, Sarajevo, Caxemira, todos os lugares devastados pela morte e pela destruição, aconteceram primeiro na minha cabeça, no meu temor de serem o embrião de um mundo de cinzas últimas e definitivas que por aí vinha para todo o nosso universo. É horrível dizer-se: não sofri um milionésimo avo  com a morte e a destruição em lugares como Beirute, Jonesburgo, a Etiópia, a Nigéria, o Sudão, porque, emocionalmente, não pressenti nelas o morrer do nosso mundo. Sofri um pouco do que uma dor intelectualmente expressa pode fazer mas parei aí, na razão, enquanto limiar do sofrimento.&lt;br /&gt;Hoje os meus medos, os meus pânicos, os meus melhores temores, não desapareceram mas já não me afectam o dia a dia. Desde que o compreendi integralmente que um mundo que se deixa governar por imbecis não merece ser salvo, desde que compreendi que o horror do nuclear nunca será tão terrífico como o sofrimento existencial a que colocamos milhões de seres em todo o mundo e que isso é aquilo a que chamamos nossa humanidade não é mais do que uma enorme casca de banana onde tropeçam todos os nossos melhores desejos e aspirações, desde essa altura que compreendi que o monstro não está em nós. Somos nós. Um dia deixaremos o mundo para as larvas, para as lagartas, para o mundo tenebroso do sub solo e aí talvez a existência do mundo readquira alguma verdade. Gostava muito de acreditar no mundo, toda a minha vida me moldei para isso, mas nenhum medo será maior do que a lucidez de perceber que somos nós, o homem, que está a mais neste mundo. &lt;br /&gt;Digo-o sem rancor. Não conheço nem tenho alguma inimizade com quem criou isto; com quem nos lançou nesta aventura à deriva. Falar mal do mundo, falar mal do que aqui fizémos não é exercício de maldizer, daquela maledicência que é tão useira e vezeira. Falo de coração aberto, de peito escancarado,&lt;br /&gt;como quem se percebe no meio da beleza de um universo inteiro.&lt;br /&gt;É por tanto amar o mundo que descubro a nossa inexistência sobre ele. Vejo os rios, os montes, os mistérios da natureza e da química, da física, nunca vi uma aurora boreal mas imagino que será um poema do deus em que nunca acreditarei,&lt;br /&gt;vejo a harmonia que vai do mais pequeno ser vivo ao maior fenómeno de vida, a harmonia, a dança, o movimento que isso é, há só uma coisa que eu não percebo e que me intriga, quando eu tinha treze anos, quatorze, quinze, já escrevia textos sobre a miséria do mundo mas nessa altura o mundo ainda tinha redenção. Como sempre tinha tido, pelos séculos dos séculos. Os últimos vinte anos parece que foram terríveis, verdadeiramente desoladores para a esperança numa possibilidade de darmos algum sentido à nossa existência neste mundo. E o que me intriga é perceber se de facto o mundo já não tinha salvação em 75, em 76, em 77, e o que se passou é que eu nunca tinha percebido isso, ou se de facto o mundo se estragou nestes últimos anos. Não tenho resposta para isso e gostava de ter. Talvez fizesse alguma diferença. Não sei qual. Mas talvez fizesse. &lt;br /&gt;Falei da beleza do mundo e ouvi-vos a ouvirem-me: é como se eu falasse &lt;em&gt;que o nosso mundo é injusto, é violento, está condenado a desaparecer mas a beleza existe&lt;/em&gt;. E devo dizer, eu quase disse isso.&lt;br /&gt;Mas não foi exactamente isso que afirmei. Falei de que desmerecemos o mundo em que vivemos. Depois fechei a boca, juntei os lábios, fiz um silêncio e tornei a falar. Como quem já fala de outra coisa. E&lt;br /&gt;aí sim, falei da beleza do mundo.&lt;br /&gt;Não há adversativa. Há paradoxo. &lt;br /&gt;O paradoxo é aquilo que me permite saber que sou uma pessoa de um mundo humano que vai desaparecer sem glória nem engenho, tão incapaz de sobreviver como os dinossauros, e ao mesmo tempo, um ser escancarado sobre a terrível beleza do mundo.&lt;br /&gt;E digo terrível porque inútil. &lt;br /&gt;Não há adversativa. Há paradoxo.&lt;br /&gt;É esse o lugar da arte. É por isso que há um onde para a expressão de mim, de ti. Porque falamos da ferida que em nós se abre quando percebemos perceber. É doloroso e frágil o entendimento sobre as coisas&lt;br /&gt;Amanhã a doença poderá ter-me transformado no mais poderoso néscio ou imbecil. Não há adversativa.&lt;br /&gt;Há paradoxo.&lt;br /&gt;Falo, falo, falo, sobre esta dor que não me dói. Não é dor em mim. O que me dói, o que verdadeiramente me dói é esta naturexa paradoxal.&lt;br /&gt;O que me dói única e exclusivamente, de uma forma tão autêntica que me deixa transparente,&lt;br /&gt;é a beleza de todo um universo inteiro, múltiplo, fragmentado.&lt;br /&gt;Não há adversativa, há paradoxo.&lt;br /&gt;Eu sou a derrota moral em que me tornei, em que fiz toda a minha vida e sou também esta pulsão inaudita para a festa, para o emaravilhamento, para o sussurar poético com que todas as coisas se espantam em mim.&lt;br /&gt;E quando falo da beleza do mundo não falo apenas da beleza insofismável dos calhaus, dos minerais, das plantas, dos seres inanimados e animados. Falo&lt;br /&gt;também da beleza do nosso próprio mundo de gente, &lt;br /&gt;de coisas.&lt;br /&gt;Não há adversativa, há paradoxo.&lt;br /&gt;Devemos levar esta aventura de pensar até ao fim. Ainda há pouco o Pedro teve ciúmes da Gi-Gi. Tem quatro anos, pegou na bicicleta e foi sofrer de amor para detrás de um alpendre onde ninguém o visse. Persegui no escuro ouvindo-lhe, &lt;em&gt;a Gigi não quer dançar comigo&lt;/em&gt;,&lt;br /&gt;e de repente eu vi-me nele, eu também fui assim, com menos génio, menos rancor,&lt;br /&gt;tudo o que em mim é dor começou assim, num instante de inveja, de ciúme, de uma sensação de desconforto, de calimero, e agora ele, &lt;br /&gt;quatro anos apenas e olhar isto é como ver o &lt;em&gt;big-bang&lt;/em&gt;, o ponto onde tudo começou. E atenção,&lt;br /&gt;quando falo da beleza do nosso mundo de gente não falo apenas da beleza do universo das crianças, é fácil falar da tranquila e serena beleza do mundo dos infantes, &lt;br /&gt;mas não é isso que eu disse.&lt;br /&gt;Eu falei da intensa beleza do mundo que nos habita interiormente. Ainda há pouco estávamos no terraço da festa de anos de um amigo. Pusémos os Fischer Z. E abriu-se em nós todos um rasgo, um corte longitudinal, &lt;br /&gt;expostas todas as nossas marcas interiores. Há uma ineludível e amarga beleza na nossa existência quando fazemos um corte de perspectiva e percebemos a nossa humanidade resistente. Não havia outra coisa,&lt;br /&gt;apenas nós. Era um prédio de subúrbio. Vidas de subúrbio. Há nos subúrbios tanta poesia como neste pátio cinematográfico de onde vos escrevo. Porque a poesia é esta arte de escancararmos o paradoxo em que viveremos sempre. &lt;br /&gt;Não vale a pena abandonarmos a meio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há adversativa, há paradoxo &lt;em&gt;mas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;há complementariedade.&lt;br /&gt;O nosso mundo não é o mundo e isso não é a razão que nos ensina: é a beleza. A beleza como coisa de dentro e de fora. Agora, sentado sobre a beleza do mundo percebi uma coisa que me devolve a esperança:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o ser humano é um quase&lt;/em&gt;. Educarei os meus filhos, os meus filhos educarão os meus netos este poderão ainda eventualmente cuidar dos seus filhos. Não por muito mais tempo. Temos a palavra fim escrita na testa. Tal como os dinossauros.&lt;br /&gt;Esta frase devolveu-me toda a minha humanidade, toda a minha esperança.&lt;br /&gt;O fim do nosso mundo não será o fim do mundo em que vivemos. A cadeia da espécie trará novos seres, novos exemplares.&lt;br /&gt;Virão iluminados com formas mais brilhantes de conhecimento e sensibilidade. E no fundo nós já os antevimos. É certo que temos imaginado que vêm de outros mundos. Ainda não tivemos a coragem para perceber que virão das mesmas amibas que nos trouxeram a esta aventura do amor e do conhecimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14198870-112052981059737796?l=reservadodireito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reservadodireito.blogspot.com/feeds/112052981059737796/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14198870&amp;postID=112052981059737796' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112052981059737796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14198870/posts/default/112052981059737796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reservadodireito.blogspot.com/2005/07/mnemnica-para-me-lembrar-de-mim.html' title='Mnemónica para me lembrar de mim'/><author><name>JPN</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05232859031389735841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_cYZCuQYVdmo/Sdtfga1Ze0I/AAAAAAAABRQ/Pi2s3CXlz4A/S220/silhueta.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry></feed>
