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a experiência humana só terá sentido se algo para lá do humano vier em nossa ajuda, em nosso socorro. o nosso drama é que a única coisa que desse género ou natureza parece poder vir é a morte, a nossa própria morte.

4 de setembro de 2005

Automatismo

- Não quero escrever sobre o que faço quando escrevo.
Não escrevas. Não escrevas sobre o que fazes quando escreves.
- Não tenho nada contra esse género de escrita. Não quero.
Podes não querer. Porque haverias de querer?
- Há palavras que eu não posso dizer.
Estou farto das tuas inpossibilidades. Escreves ou não?
- Estou a limpar a mesa das tuas migalhas.
Não gosto que me digas as tuas migalhas. São tanto minhas como tuas: nérpia. São as migalhas de outras coisas que usámos.
- Tu é que usaste.
Os foste usado. Que importa?!
- Seja lá como for vou para sul.
Todas as palavras vão para sul. Não há outro modo de ser palavra senão ser texto virado a sul.
- Essa ideia da escrita automática é apenas uma ideia.
Eu sei.
- Eu não estava a dizer que não sabias.
Eu sei que não estavas.
- Porque é que tens de ser tão sabe-tudo?
Não sou sabe-tudo.
- África, Ásia, América...
- Oceânia. Europa.
Não estava a recitar. Estava a ocupar.
-Tens uma estranha forma de o fazer.
A geografia é uma ciência estranha. Estou onde, eu?
- Há um furacão.
Há fome. A fome é um furacão sem vento nem chuva. Seco.

2 comentários:

  1. esta sua geografia é esplendor. nunca árido. nunca seco. nunca automático. gostei. particularmente.abraço.

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  2. será que todas as palavras vão para sul? (frase curiosa esta.)

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